ADVENTISTAS DO SÉTIMO DIA E VOTAÇÃO

 Arthur L. White

 Nem Ellen G.White no Espírito de Profecia aconselha contra, nem a Associação Geral, pelos seus votos, tem negado aos adventistas do sétimo dia o privilégio de votarem. Porém consistentemente através dos anos, os líderes da igreja e Ellen G. White têm vez após vez apontado o perigo do nosso povo envolver-se na política em si ou em controvérsia política. Guiados e admoestados pelo Espírito de Profecia, nós, adventistas do sétimo dia, encontramos o nosso caminho quando atravessamos os dias tensos das questões de escravidão, as perplexidades relacionadas com a opção local de licenciar a venda de licor, os problemas com relação à professa Emenda Cristã à Constituição Federal e a questão monetária. Isto nos dá o fundo histórico para termos uma imagem clara da nossa atitude denominacional sobre votação. Em 1856 o Pastor Uriah Smith declarou a posição dos adventistas que guardam o sábado como sendo a de “neutralidade em política”, com a recusa por parte do nosso povo “em tomar parte na competição tão excitante como a que está agitando esta nação.” Ao concluir o seu editorial ele declara as razões: “Para a pergunta – por que não usamos nosso voto e influência contra a tendência ao mal de nosso tempo – respondemos que nossa visão da profecia nos leva à conclusão de que as coisas não ficarão melhores. [...] E sentimos a obrigação de empregar nossos esforços para preparar-nos e a outros para o grande e final evento que se aproxima de nós – a revelação do Filho do homem, no Céu, a destruição de todos os governos terrestres, o estabelecimento do glorioso, universal e eternal reino do Rei dos reis, e a redenção e libertação de todos os Seus súditos.” (Review and Herald, 11 de setembro de 1856).

De questões nacionais que parecia fútil ajustar, vamos três anos mais tarde a uma situação local em Battle Creek. Então observamos os pioneiros encontrarem o caminho ao serem confrontados com sua responsabilidade como cidadãos da comunidade. Para nossa informação, vamos a um registro feito no diário de Ellen G.White em 1859: “Assisti à reunião ao anoitecer. Tivemos uma reunião franca, interessante: À hora de terminar, a questão de votar foi considerada demoradamente. Tiago falou primeiro, depois o irmão Andrews, e foi por eles considerado melhor pôr sua influência a favor do direito e contra o erro. Acham ser justo votar a favor dos homens da temperança que ocupam lugares oficiais em nossa cidade em vez de, por seu silêncio, correrem o risco de verem os intemperantes ocuparem os postos. O irmão Hewett conta sua experiência de alguns dias antes, e acha que é direito dar o seu voto. O irmão Hart fala a favor. O irmão Lyon opõe-se. Ninguém mais faz objeção, mas o irmão Kellogg começa a achar que é direito. Há entre todos os irmãos sentimentos cordiais. Oh! que todos procedam no temor de Deus! “Homens favoráveis à intemperança estiveram no escritório hoje, exprimindo lisonjeadoramente sua aprovação à atitude de observadores do sábado que não votavam, e exprimiram esperanças de que eles ficassem firmes a sua orientação e, como os quakers, não dessem seu voto. Satanás e seus anjos maus estão atarefados neste tempo, e ele tem obreiros na Terra. Oxalá seja ele decepcionado, é a minha oração.” (Temperança, pp. 255 e 256). (itálicos acrescentados) Subsequentemente, os adventistas do sétimo dia tinham bem claro seu dever de votara favor da proibição, ou da restrição do tráfico de bebidas alcoólicas. Uma referência sobre esse assunto, porém, foi apresentada em uma reunião campal em Des Moines, Iowa, no início de 1881. Um voto proposto foi apresentado aos delegados, dizendo: “Resolvido: Que expressemos nosso profundo interesse no movimento de temperança ora em andamento neste Estado; e que instruamos todos os nossos pastores a usarem sua influência entre nossas igrejas e junto ao povo em geral para induzi-los a fazer todo esforço coerente, pelo trabalho individual e na urna eleitoral, em favor da emenda proibitória à Constituição, a qual os amigos da temperança estão procurando conseguir.” (Review and Herald, 5 de junho de 1881).

Alguns, porém, objetaram à cláusula que pedia ação à “urna eleitoral” e insistiam em sua supressão. A Sra. White, que assistia à reunião campal, retirara-se, mas foi chamada a dar seu conselho.  Escrevendo sobre isso naquele tempo, diz ela: “Preparei-me e achei que devia falar sobre o assunto se nosso povo devia votar pela proibição. Disse-lhes: ‘Sim’, e falei por vinte minutos.” (Carta 6, 1881).

Na Review and Herald de 15 de outubro de 1914, um artigo reproduzido no livro Obreiros Evangélicos, pp. 384-388, Ellen White enfatizou novamente a responsabilidade de cada cidadão exercer toda influência dentro do seu poder pararefrear o tráfico de bebidas alcoólicas, incluindo seu voto: “Mesmo não sendo sábio nos envolvermos em questões políticas, ainda assim é nosso privilégio tomar uma posição decidida sobre todas as questões relacionadas à reforma da temperança. Tenho dado muitas vezes a esse respeito um claro testemunho. Em um artigo publicado na Review de 8 de novembro de 1881, escrevi: “‘Há uma causa para a paralisia moral da sociedade. Nossas leis apóiam um mal que lhes está destruindo a própria base. Muitos lamentam o mal que sabem existir, mas se consideram livres de qualquer responsabilidade no assunto. Isso não pode ser. Todo indivíduo exerce uma influência na sociedade. Em nossa terra favorecida, todo eleitor tem de certo modo voz em decidir que espécie de leis hão de reger a nação. Não deviam sua influência e voto ser postos do lado da temperança e da virtude? “Podemos apelar para os amigos da temperança, a fim de que promovam a união para o conflito, e para procurar impedir a onda do mal que está desmoralizando o mundo; mas de que valem todos os nossos esforços, enquanto os negociantes de bebidas alcoólicas forem apoiados por lei? Deverá a maldição da intemperança permanecer para sempre como uma mancha sobre nossa terra? Há de ela assolar todos os anos, qual fogo devorador, milhares de lares felizes? “Falamos nos resultados, trememos em face deles, e cogitamos no que poderemos fazer com esses terríveis resultados, ao passo que, muitas vezes, toleramos, e até sancionamos a causa dos mesmos. Os defensores da temperança deixam de cumprir todo o seu dever, a menos que exerçam sua influência, pela palavra e pelo exemplo – palavra, pena e voto – em favor da proibição e abstinência total. É escusado pensar que Deus opere um milagre para efetuar essa reforma, afastando assim a necessidade de esforço de nossa parte. Nós mesmos precisamos de agarrar-nos com esse gigante inimigo, tendo como divisa: Não transigir, nem cessar nossos esforços até que a vitória seja alcançada.’” (Review and Herald, 15 de outubro de 1914; citado em Obreiros Evangélicos, pp. 387 e 388 e Temperança, pp. 253 e 254). (itálicos acrescentados).

A Responsabilidade do Cidadão em sua Comunidade 

A verdade de Deus faz um homem ou uma mulher um bom cidadão. Em Atos dos Apóstolos, p. 69, lemos: “Cumpre-nos reconhecer o governo humano como uma instituição designada por Deus, e ensinar obediência ao mesmo como um dever sagrado, dentro de sua legítima esfera.” Em uma afirmação já mencionada, Ellen White reconheceu que: “Todo indivíduo exerce uma influência na sociedade. Em nossa terra favorecida, todo eleitor tem de certo modo voz em decidir que espécie de leis hão de reger a nação.” Mais algumas breves citações darão maior ênfase à responsabilidade do cidadão como indivíduo: “Homens intemperantes não devem, por voto do povo, ser colocados em posições de confiança.” (Signs of the Times, 8 de julho de 1880; citado em Temperança, p. 254). “Quantos desmerecem seu direito como cidadãos de uma república – comprados por um copo de uísque para dar seu voto a algum candidato infame Como classe, os intemperantes não hesitarão em usar de engano, suborno, e mesmo violência contra os que recusam ilimitada licença ao apetite pervertido.” (Review and Herald, 8 de novembro de 1881; citado em Temperança, p. 254). “Muitos emprestam sua influência ao grande destruidor, ajudando-o pela palavra e pelo voto a destruir a imagem moral de Deus no homem, não pensando nas famílias que são degradadas por causa de um apetite pervertido para a bebida.” (Manuscrito 87, 1898; citado em Temperança, pp. 254 e 255).

“E aqueles que, mediante seu voto, sancionam o comércio das bebidas alcoólicas, serão considerados responsáveis pela perversidade praticada pelos que se encontramsob a influência da bebida forte.” (Carta 243 a, 1905; citado em Temperança, p. 255.)

Votação em Eleições Nacionais

 Por volta de 1860 a Igreja Adventista do Sétimo Dia estava crescendo e a organizaçãotomando forma. Ao se aproximarem as eleições nacionais, Tiago White viu claramenteos danos que a disputa política podia causar à obra crescente, e escreveu: “O excitamento político de 1860 provavelmente continuará tão grande como tem sido por muitos anos e nós devemos advertir nossos irmãos a não serem atraídos para ele. Nós não estamos preparados para provar a partir da Bíblia que seria errado para um crente na terceira mensagem [angélica] a seguir de tal forma a fazer disso sua profissão, e dar seu voto. Nós não recomendamos isso, nem nos opomos. Se um irmão decide votar, nós não o condenamos, e nós queremos a mesma liberdade para não o fazermos. “Mas nós acreditamos que aquele que entra no espírito da futura disputa, perde o espírito da verdade presente e compromete sua própria alma.” (Review and Herald, 21 de agosto de 1860).

Fica claro que alguns adventistas do sétimo dia votaram nessa eleição pelo que Tiago White escreveu no artigo intitulado “A Nação” que apareceu na Review and Herald de 12 de agosto de 1862. Tiago White comenta de uma forma que indica que não houve censura contra aqueles que votaram nas eleições de 1860: “Aqueles do nosso povo que votaram na última eleição presidencial, votaram a favor de Abraão Lincoln.” Em 1865 a Associação Geral em sua terceira sessão, registrou a questão de adventistas do sétimo dia votarem. Sob o título “Votação” encontramos o seguinte voto: “Resolvido, que em nosso julgamento, o ato de votar quando exercido em favor da justiça, humanidade e do bem, torna-se correto e algumas vezes pode ser muito coerente; pois que a prática do voto que possa reforçar a causa de pecados como a intemperança, a rebelião e a escravidão, são considerados como altamente pecaminosa aos olhos do céu. Mas reprovamos qualquer participação no espírito de disputa partidária.” (Review and Herald, 23 de maio de 1865). Poderíamos relatar aqui afirmações feitas por outros obreiros através dos anos subsequentes, mas todos seguiram a mesma linha, deixando claro que o indivíduo estava livre para seguir o seu julgamento na questão do voto. Entretanto, devia ter em mente ao dar seu voto, que carregaria uma parte da responsabilidade dos atos da pessoa para quem votou, admoestando também contra agitação ou disputa política.

Conselho de Ellen G. White sobre Política

Mais frequentemente usado hoje, ao citar os conselhos de Ellen G. White que têm quever com política e votação, é a declaração que aparece em Fundamentos da Educação Cristã, pp. 475-484. Esta é somente uma das declarações escritas em meado e fins da década 1890 em um tempo em que alguns obreiros adventistas estavam profundamente preocupados com a questão monetária. Uma delas é encontrada agora no livro Testemunhos para Ministros, pp. 331-340, e esta foi escrita para a “Conferência Geral de 1897.” Nela a agitação dos nossos obreiros sobre a questão política da “mudança da moeda circulante” foi mencionada, e ela aconselhou que “não é empenhando-nos em polêmicas políticas, seja no púlpito ou fora dele” que agradamos a Deus. (Testemunhos para Ministros, p. 331.)

“Surpreendi-me,” diz ela, “ao ver homens que pretendem crer na verdade para este tempo, todos entusiasmados com algumas questões – questões que se relacionavam com o Senhor Jesus e os interesses eternos? Não; mas pareciam estar maravilhosamente empolgados quanto ao dinheiro. Alguns pastores se distinguiam porentremear estes assuntos em seus discursos. Estavam entusiasticamente se envolvendo, tomando partidos quanto a estas questões, sobre as quais o Senhor não lhes deu a responsabilidade de nelas se empenhar.” (Testemunhos para Ministros, p.

332). Ela admoestou que, “Há nessa agitação justamente o que separa os que são da mesma fé.” (Testemunhos para Ministros, p. 333.) E depois esclareceu que “os que têm andado humildemente diante de Deus, não se absorverão em advogar tanto um como o outro lado desta questão.” (p. 334).

Nos conselhos escritos durante este período existem três pontos que se destacam: 1. Qualquer agitação política deve ser evitada, pois isto trará diferenças entre os membros da igreja.  2. Nossos ministros e professores devem manter silêncio sobre questões que não têm relação com a mensagem do terceiro anjo, pois a agitação política seria um impedimento para que alguns de nossos obreiros alcançassem algumas pessoas que devem ouvir a mensagem. 3. Se votarmos, “Mantenha sua votação para si. Não sinta como seu dever insistir para que todos façam como você.” (Carta 4, 1898; citado em Mensagens Escolhidas, vol. 2, pp. 336 e 337).

Finalmente chegamos ao estudo de um artigo, como publicado em Fundamentos da Educação Cristã, intitulado “Testemunho Especial Acerca de Política.” É uma carta endereçada “aos mestres e diretores de nossas escolas,” escrita em 16 de junho de 1899. Recomendamos a leitura cuidadosa deste artigo. Em primeiro lugar, nota-se que não há proibição para o indivíduo que queira votar sem demonstrações públicas de sua opinião. O conselho é dirigido a obreiros adventistas do sétimo dia para que não usem sua influência em promoção de sentimentos políticos. “O Senhor quer que Seu povo enterre as questões políticas. Sobre esses assuntos, o silêncio é eloquência. [...] Não podemos, com segurança, votar por partidos políticos; pois não sabemos em quem votamos. Não podemos, com segurança, tomar parte em nenhum plano político.” (Fundamentos da Educação Cristã, p. 475).

“Os que ocupam o lugar de educadores, de pastores, de colaboradores de Deus em qualquer sentido, não têm batalhas a travar no mundo político. Sua cidadania se acha nos Céus. O Senhor pede-lhes que permaneçam como um povo separado e peculiar. Ele não quer que haja cismas no corpo de crentes. Seu povo tem de possuir os elementos de reconciliação. É porventura sua obra fazer inimigos no mundo político? -

Não, não! Eles têm de permanecer como súditos do reino de Cristo, levando a bandeira em que se acha inscrito: ‘Os mandamentos de Deus e a fé em Jesus.’” (Fundamentos da Educação Cristã, pp. 478 e 479).

Poderíamos resumir as advertências do artigo inteiro como segue:

1. A expressão de sentimentos políticos por parte dos nossos irmãos resultará em divisão na igreja (p. 475).

2. Não podemos, com segurança, votar por partidos políticos desconsiderando os princípios dos homens nestes partidos (p. 475).

3. Deve-se exercer cuidado em escolher o homem para quem damos o nosso voto, pois quem vota torna-se participante com aquele colocado no posto, pelos seus atos enquanto estiver no posto (p. 475).

4. Não devemos usar emblemas políticos (p. 476).

5. O dízimo não deve ser usado para pagar qualquer pessoa para fazer discursos sobre questões políticas (p. 477).

6. Nenhum muro de separação deve ser erigido entre os seres humanos (p. 479).

7. Nossos ministros e professores devem abster-se de trazer para dentro da igreja ou escola idéias que levarão à contenda ou desordem (p. 483). Podemos muito bem concluir esta apresentação citando uma parte de um editorial que apareceu na Review and Herald de 13 de setembro de 1928. F. M. Wilcox escreveu: “A Igreja e a Política” “É o privilégio de cada indivíduo exercer o direito de voto. Ninguém tem autoridade para negar-lhe este privilégio. A Igreja Adventista do Sétimo Dia não busca sentenciar aos seus membros como eles deveriam votar ou se eles não deveriam votar. Cada um tem a liberdade de ter seu próprio julgamento no temor do Senhor. Nos foi dito pela serva de Senhor que não deveríamos nos associar a partidos políticos, que não deveríamos debater questões políticas em nossas escolas ou instituições. Por outro lado, fomos instruídos pela mesma autoridade que quando certas questões morais, tais como proibições, estiverem envolvidas, os ‘que advogam a temperança fracassariam em cumprir seu papel a menos que exerçam sua influência por preceitos e exemplos – pela voz, pela caneta e pelo voto – em favor da [...] total abstinência”. Essa instrução não é obrigatória, ainda é deixado a cargo de cada um determinar por si mesmo o que deve fazer.

“Enquanto um membro da igreja individualmente tem por direito, se assim o desejar, de dar o seu voto, a igreja como tal deveria se manter inteiramente afastada da política. Uma coisa é que os membros da igreja votem, outra é esses mesmos membros, com suas posições na igreja, se esforçarem para influenciar meio políticos.”


Fonte: Patrimônio Literário Ellen G. WhiteWashington, D. C.
14 de agosto de 1952


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