Tradição ou convicção? O papel de Ellen G. White na compreensão da justificação pela fé

Renato Stencel, Doutor em Educação
Diretor do Centro de Pesquisas Ellen G. White (Brasil), e professor das Faculdades de Teologia e Pedagogia, Unasp-EC

Resumo: A assembleia da Associação Geral de 1888, ocorrida em Minneapolis, é um dos eventos mais importantes da história da Igreja Adventista. O presente artigo examina os conflitos pessoais envolvidos nessa reunião e o papel desempenhado por Ellen G. White durante a crise. O autor apresenta um panorama histórico da compreensão dos adventistas sobre a justificação pela fé antes de 1888 e a contribuição de A. T. Jones e E. J. Waggoner sobre o assunto. A principal contribuição de Ellen G. White na assembleia de 1888 foi dirigir a atenção dos adventistas para a Palavra de Deus como base de toda doutrina e, portanto, acima de qualquer tradição religiosa.

Abstract: The 1888 General Conference, which took place in Minneapolis, is one of the most relevant events in the Seventh-day Adventist history. The present article examines both personal tensions involved in this reunion and the role performed by Ellen G. White during the crisis. The author presents a historical overview of Adventist understanding on righteousness by faith before 1888, and contribution by A. T. Jones and E. J. Waggoner on the subject. The major contribution by Ellen G. White in 1888 Conference was to direct people’s attention to God’s Word as basis of every doctrine and, therefore, standing above any religious tradition.

Introdução1

Ao analisarmos os diversos períodos que marcaram a história da Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD), podemos identificar vários eventos que foram determinantes no processo de seu desenvolvimento. Arthur N. Patrick, por exemplo, apresenta os seguintes eventos cruciais: (a) 1831, quando Guilherme Miller iniciou a proclamação pública sobre a “proximidade do advento”; (b) 1844, o ponto de transição do milerismo para o que se tornaria o movimento adventista sabatista; (c) 1863, quando foi estabelecida a estrutura organizacional da Igreja; (d) 1866, quando foi inaugurado o Instituto Ocidental da Reforma de Saúde, a primeira instituição aberta do adventismo; (e) 1888, a assembleia da Associação Geral, realizada em Minneapolis, Minnesota; (f) 1901, quando a IASD passou por um processo de reorganização; (g) 1907, com a apostasia de John H. Kellogg; (h) 1919, quando eruditos e líderes adventistas discutiram a posição adventista diante da crise modernista-fundamentalista; (i) 1957, com a publicação do livro Questions on Doctrine (Questões sobre Doutrina); (j) 1980, quando a IASD votou pela última vez seu conjunto de crenças fundamentais.2

Várias outras datas importantes poderiam ser adicionadas a essa lista, mas de acordo com Patrick, com exceção do ano de 1844, nenhum outro evento na história da IASD exerceu maior impacto sobre seu futuro que a 27ª assembleia da Associação Geral realizada em Minneapolis, Minnesota, no ano de 1888.3 Não houve outra data que despertou tantos debates e interpretações como essa assembleia. Ao avaliar o grau de importância desse evento, o historiador LeRoy E. Froom declarou que a assembleia de 1888 eleva-se como o pico de uma montanha, acima de todas outras sessões em singularidade e importância. Foi um ponto decisivo. Nada semelhante havia ocorrido anteriormente, e nenhum evento posterior pode ser comparado a ela. Definitivamente, ela introduziu uma nova época. [...] 1888 não foi um ponto de derrota, mas uma mudança de rumo para a vitória final. A despeito dos conflitos e contrariedades, Minneapolis marcou o início de décadas de esclarecimentos e avanços.4

Entretanto, apesar da importância que essa assembleia representou para o desenvolvimento da IASD, é importante observar que ela foi marcada por diversas aspirações com intenções e ânimos polarizados, que promoveram um clima de calorosa discussão.

O instituto ministerial e o espírito de discórdia em Minneapolis

Devido ao desenvolvimento da IASD e ao momento pelo qual ela passava, sobretudo na discussão de alguns temas doutrinários, George Butler, então presidente da Associação Geral da IASD, convocou um grupo de pastores para participarem de um instituto ministerial que precederia a assembleia geral.

Em agosto de 1888, Butler argumentou sobre a importância de uma reunião ministerial, ao afirmar que “os irmãos que lideram [a IASD] têm sugerido a celebração de um instituto que preceda a assembleia geral do presente ano, e têm apresentado muitas razões convincentes em seu favor”.5 Semanas depois, ele apresentou um vislumbre quanto à realização do encontro:

Não podemos dizer qual será a ordem exata das atividades [espirituais] ou que temas serão considerados de forma especial. [...] Uma semana dedicada [1] à instrução sobre aspectos importantes da Igreja e o trabalho das conferências, [2] a considerar com calma e a estudar cuidadosamente assuntos bíblicos que causam perplexidade, assim como [3] buscar fervorosamente a Deus em busca de sabedoria celestial – isso muito provavelmente será de grande benefício.6

O instituto ministerial que precedeu a assembleia é considerado como a primeira reunião do gênero na história adventista. Sua abertura aconteceu às 14h30 da quarta-feira, 10 de outubro, e encerrou-se no dia 17 de outubro de 1888. O evento ocorreu na recém-inaugurada igreja de Minneapolis e contou com a presença de aproximadamente “cem ministros, tendo o pastor Stephen N. Haskell como presidente e o pastor Franklin E. Belden como secretário da sessão”.7

Em seu discurso de abertura, Uriah Smith, então secretário da Associação Geral, expôs aos membros participantes sua expectativa de que aquela reunião seria proveitosa, mas pediu que todos orassem por Butler, que estaria ausente devido a uma enfermidade. Às vésperas das reuniões, por excesso de trabalho, Butler havia experimentado um esgotamento tão grande que esteve perto de ter um colapso nervoso. Em seu informe, Smith apresentou os principais temas a serem discutidos no Instituto:

Os temas propostos a serem considerados nas horas de estudos bíblicos e históricos são: uma vista histórica dos dez reinos, a divindade de Cristo, a cura da ferida mortal, a justificação pela fé, quão longe deveríamos ir ao utilizar a sabedoria da serpente e a predestinação. Sem dúvida serão introduzidos outros temas.8

De acordo com William C. White, devido aos testemunhos sobre o desenvolvimento da obra evangelística, as primeiras horas do instituto foram marcadas por um forte senso de espiritualidade:

À noite, às 19h30, o pastor Haskell fez comentários comoventes sobre a obra da mensagem em países estrangeiros. Às 9h de hoje [dia 11], A. T. Jones fez uma exposição bíblica sobre o avanço da obra da terceira mensagem angélica. O ponto destacado foi que a consagração pessoal deve encontrar-se no fundamento de todo o nosso êxito nesta obra.9

No entanto, a despeito do relato positivo exposto por William White, o espírito de unidade foi se dissipando à medida que certos assuntos passaram a ser apresentados pelos palestrantes do evento. Os primeiros indícios de discórdia começaram a surgir com o estudo sobre os “dez chifres” proféticos, que representam dez reinos que invadiram o Império Romano (cf. Dn 7).

Até 1888, os adventistas tradicionalmente haviam interpretado um desses chifres como sendo os hunos. Nos primeiros dias do instituto ministerial, A. T. Jones apresentou uma nova interpretação aos ministros presentes, sugerindo os alamanos em lugar dos hunos. Tal fato foi encarado por alguns como uma traição aos princípios de interpretação adventista. Mas, de acordo com os historiadores Schwarz e Greenleaf, “Smith havia estimulado a Jones a estudar estes detalhes com cuidado”.10 Na ocasião, Smith explicou que a lista de reinos que havia apresentado em seu livro Thoughts on Daniel (Pensamentos sobre Daniel) não havia sido inventada por ele. Uriah Smith argumentou que havia seguido os intérpretes mileritas e outros comentaristas protestantes.

Com uma postura militar, Jones respondeu: “O pastor Smith lhes diz que não sabe nada sobre este assunto. Eu sim, o sei; e, não quero que me culpem pelo que ele não sabe”.11 Essa resposta foi como o estopim que implodiria o barril de pólvora, gerando um espírito combativo naquela reunião. Dessa forma, a assembleia seria marcada por várias sessões de disputa doutrinária entre os dois grupos de ministros, que se polarizaram a favor dos tradicionalistas Smith (56 anos) e Butler (54 anos) ou os inovadores Jones (38 anos) e Waggoner (33 anos).

De acordo com Froom, tal assunto era de pouco valor comparado a grandes temas como a divindade de Cristo, a justificação pela fé, a expiação e a lei. Mesmo assim, as discussões decorrentes do estudo sobre os dez chifres foram tão intensas, que nos intervalos entre as sessões, um perguntava ao outro: “Você é huno ou alamano?”12 Esse foi um início bastante inapropriado para aquele evento. Todavia, aquilo era apenas o começo de um longo conflito que oscilaria entre divergências ideológicas e caprichos pessoais. A partir de então, certos gracejos com tom de ironia se infiltraram em meio àquela reunião, produzindo grande desconforto entre seus participantes.

A presença de Ellen G. White no evento

Ao descrever sua experiência na assembleia de Minneapolis, Ellen G. White declarou que “foi pela fé” que ela se aventurou a cruzar as montanhas rochosas para participar da reunião.13 Naquela época, com 60 anos de idade, tomada pelo desânimo, ela havia experimentado uma enfermidade nervosa em seu lar. Ao relatar seu estado, ela disse:

Eu não sentia nenhum desejo de recuperar-me. [...] Não tinha forças nem sequer para orar, nem qualquer desejo de viver. Descansar, só descansar, era meu desejo; estar em silêncio e descansar. Ao encontrar-me por duas semanas vítima de uma prostração nervosa, havia esperado que nenhuma graça do Céu viria em meu favor. Quando chegou a crise, a impressão era que eu morreria. Esse era o meu pensamento. Mas essa não era a vontade de meu Pai celestial. Meu trabalho ainda não havia terminado.14

Sentada e pensativa, ela recordou-se dos votos solenes que havia feito junto ao leito de seu esposo; votos de vencer o inimigo e constantemente ajudar o movimento adventista – e era chegado o momento de cumprir aqueles votos.15 Sendo assim, em 2 de outubro de 1888, na companhia de sua secretária Sara MacEnterfer e de seu filho William, Ellen G. White embarcou em um trem para viajar rumo a Minneapolis. A viagem durou cerca de 8 dias, mas o grupo finalmente chegou a tempo para o instituto ministerial, que começaria em 10 de outubro de 1888.

Logo no início da reunião, Ellen G. White se deparou com um comportamento um tanto estranho entre os participantes, “uma atitude que nunca dantes vira entre seus colegas de liderança e ministério”, sentimento descrito por ela como o “espírito de Minneapolis”.16 George R. Knight descreve as seguintes características manifestadas pelos participantes: (a) sarcasmo e zombaria (alguns se referiam a Waggoner como o “bichinho de estimação” dos White); (b) predomínio da crítica; (c) inveja, ruins suspeitas e animosidade; (d) sentimentos e atitudes frias e duras; (e) pessoas implacáveis que resistiam à voz do Espírito Santo; (f) em síntese, o “espírito de Minneapolis” foi algo indelicado, descortês e mesmo anticristão.17

Esse espírito surgiu devido a uma carta enviada a Butler por William H. Healey, pastor na Califórnia, no fim de setembro de 1888. O conteúdo da carta “sugeria que os líderes da igreja do Oeste estavam ‘armando um complô’ para modificar a teologia da denominação”.18 Essa informação soou como uma afronta a Butler, então presidente da Associação Geral, levando-o a tomar algumas providências de emergência: (a) reimprimiu seu livro The Law in the Book of Galatians (A lei no livro de Gálatas) a fim de distribuir uma cópia para cada delegado da conferência, e (b) enviou uma grande quantidade de cartas e telegramas alertando aos delegados quanto à possível conspiração e instando-os a permanecerem firmes pelos antigos ideais da denominação. Em pouco tempo, a notícia havia se espalhado entre aqueles que tinham convicções arraigadas no tradicionalismo e estavam dispostos a defender a causa de Smith e Butler.

Dentre as cartas escritas por Butler, destaca-se uma, enviada a Ellen G. White dois meses antes da conferência. Em seu conteúdo de 39 páginas,

“Butler acusava White de ser a causa de sua [dele] enfermidade, principalmente pela maneira como ela havia aconselhado a Igreja quanto à questão da Lei em Gálatas. Ela não havia condenado a Waggoner por sua posição que estava em conflito direto com aquela defendida por Butler e Smith”.19

Os pioneiros adventistas e a justificação pela fé

Os séculos 18 e 19 foram marcantes, sobretudo, para a história das denominações evangélicas no território norte-americano. Após a experiência dos dois Grandes Reavivamentos, as denominações protestantes passaram a assumir um papel fundamental na cultura norte-americana. De acordo com o historiador Paul Johnson,

O Grande Reavivamento foi um evento proto-revolucionário, o momento formativo da história norte-americana. [...] Ele atravessou todas as religiões e barreiras sectárias, trouxe luz a todas elas, e transformou em norte-americanas o que havia sido uma série de igrejas com estilo europeu. Seu lema estava alicerçado no texto de Apocalipse 21:5 – “Eis que faço novas todas as coisas”.20

Como argumento em minha tese doutoral, a cultura norte-americana havia sido fundada com o sonho

“da construção de um novo mundo, um novo começo e uma nova vida que fosse pautada pela liberdade político-religiosa, e, onde houvesse separação oficial entre Igreja e Estado”.

Apesar disso, muitas forças agiram para reatar a aliança entre esses dois poderes e recobrar o senso legalista opressor e dominante defendido no continente europeu por séculos. Parte das denominações protestantes que se estabeleceram nos Estados Unidos receberam uma forte herança do espírito legalista prevalente do Velho Mundo (a Europa).21 Esse foi o contexto predominante que demarcou os primórdios do adventismo nos Estados Unidos.

Os fatores mencionados acima ajudam a compreender o contexto da experiência vivida pela IASD em Minneapolis, em 1888. A principal razão da controvérsia sobre a justificação pela fé entre os adventistas desse período deve-se à defesa da pedra angular do adventismo, a perpetuidade da lei de Deus e do sábado. Podemos mencionar alguns eventos históricos ocorridos desde 1860, que exerceram influência negativa para a IASD nesse período:

• 1860 – É organizada, nos Estados Unidos, a Associação Nacional de Reforma, com o objetivo de conservar cristã a América do Norte. Um de seus objetivos era defender a santidade do domingo.

• 1882 – Início do conflito entre os adventistas e as leis dominicais. William C. White, filho mais jovem de Tiago e Ellen G. White, é preso por colocar em funcionamento no domingo a gráfica da editora Pacific Press.

• 1885 – Por volta dessa data, adventistas estavam sendo presos no estado de Arkansas.

• 1888 – O problema ocorrido em 1885 no Arkansas se estende para os estados de Tennessee e outros. Nos anos seguintes, alguns ministros adventistas fazem trabalhos forçados junto a criminosos comuns, devido à profanação do domingo.

• 21 de março de 1888 – O ponto culminante da controvérsia sobre o domingo acontece quando H. W. Blair, senador de New Hampshire, submete ao senado dos Estados Unidos um projeto de lei dominical em nível nacional.

Nesse período, os adventistas do sétimo dia eram muito conhecidos por sua convicção em defender a lei de Deus. De acordo com George R. Knight,

um dos principais argumentos do adventismo em apoio aos Dez Mandamentos era a sua posição sobre as duas leis: a cerimonial, anulada na cruz, e a moral, que é eterna. Essa abordagem era tão essencial para a teologia adventista que Smith escreveu em 1884: “Caso seja possível provar que essa distinção entre as duas leis não existe, a observância do sábado desaparece imediatamente da lista de deveres cristãos. [...] Não existe, portanto, questão mais vital para os interesses dos observadores do sábado”.22

Quando outros cristãos tratavam do “aio” mencionado por Paulo na epístola aos Gálatas (Gl 3:24), os adventistas argumentavam que esse “aio” era a lei cerimonial. O adventismo havia chegado a essa conclusão na década de 1850. Tudo começou em 1854, quando J. H. Waggoner (pai de E. J. Waggoner) publicou o livro The Law of God: An Examination of the Testimony of Both Testaments (A lei de Deus: uma análise do testemunho dos dois Testamentos), defendendo que o “aio” de Gálatas 3 era a lei moral e não a cerimonial. Os líderes adventistas interpretaram a sugestão de Waggoner como uma possível ameaça ao principal ponto de defesa do adventismo, o sábado.

Na assembleia geral dos adventistas sabatistas de 1856, esse assunto foi discutido por pioneiros tais como José Bates, Tiago White, J. N. Andrews e Uriah Smith. Até então, eles haviam ensinado que a lei em Gálatas eram os dez mandamentos. Mas, na assembleia de 1856, o pastor Stephen Pierce desafiou a compreensão de J. H. Waggoner argumentando que a lei em Gálatas “era o sistema de lei que incluía a lei cerimonial” (a lei “adicionada”, Gl 3:19). Dessa forma, os participantes da discussão se posicionaram ao lado de Pierce e naquele mesmo ano, após o término da assembleia, o livro de Pierce foi retirado de circulação.23

Durante a assembleia, Ellen G. White foi consultada sobre o assunto e escreveu a J. H. Waggoner recomendando que ele não mais expusesse aquela teoria. Os líderes adventistas interpretaram as declarações de Ellen G. White como um endosso à ideia de que a lei em Gálatas é a lei cerimonial, o que se tornou a posição oficial da Igreja. Os pregadores e líderes da IASD foram quase unânimes em sustentar essa posição por mais de três décadas.

Os anais da história adventista revelam que os ministros e membros da Igreja apresentaram essa verdade de forma uníssona até a década de 1880, quando os temas da lei em Gálatas e da justificação pela fé reapareceram na agenda da Igreja. A discussão desses dois assuntos surgiu devido às severas críticas levantadas pelos evangélicos contra os adventistas.

Schwarz e Greenleaf esclarecem:

Nas décadas de 1870 e 1880 surgiu uma nova geração de adventistas. Ridicularizados pelos demais cristãos como legalistas e judaizantes, perseguidos em algumas áreas, esses adventistas esquadrinharam a Bíblia para encontrar apoio para as suas crenças acerca do sábado. Encontraram um verdadeiro arsenal de textos comprobatórios, que podiam ser usados com uma lógica esmagadora para demonstrar a perpetuidade do sábado. Eles buscavam o debate e, imperceptivelmente, chegaram a ser exatamente aquilo de que eram acusados: legalistas que procuravam que seus próprios atos pudessem salvá-los, em vez do que Jesus Cristo fizera por eles.24

Após a experiência do Grande Desapontamento (1844), os adventistas passaram a crer que Deus havia estabelecido este movimento com o propósito de reparar a brecha na lei de Deus, ou seja, restaurar a verdade sobre o sábado. Essa era a forma divinamente ordenada para demonstrar se os que professavam amar a Deus realmente o amavam. Na obra Movement of Destiny, Froom afirma que essa ênfase adventista resultou em um frio intelectualismo e a propagação de uma teoria vazia. Cristo se tornava frequentemente secundário e a justificação pela fé era perdida de vista, devido a uma vida religiosa exterior sem uma experiência real. A grandeza da mensagem e da lei eram exaltadas. Mas faltava algo. As discussões eram lógicas e convincentes, mas não centralizadas em Cristo. [...] No início da década de 1880 houve uma crescente indiferença e falta de percepção espiritual por parte de muitos.25

Em 1880, em um artigo intitulado “Pregando a Cristo”, George C. Tenney argumentou:

Enquanto apresentamos ao povo os aspectos peculiares defendidos pelos adventistas do sétimo dia, os opositores estão sempre levantando a pergunta: “Por que vocês não pregam a Cristo?” Certamente Cristo é o grande Personagem central de cada doutrina bíblica, e uma religião sem Cristo não é a religião da Bíblia. Ninguém pode lançar outro fundamento além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo. Portanto, se as doutrinas que apresentamos não exaltam a Cristo, são dignas de censura e a objeção é pertinente.26

Ao descrever aquela época, Ellen G. White lamentava que, “como um povo, pregamos a lei até nos tornarmos tão áridos como os montes de Gilboa, que não recebiam nem orvalho nem chuva” (cf. 2Sm 1:21).27 Por outro lado, em um artigo intitulado “Preparando-se para o Céu”, Ellen G. White afirmou que por mais de quarenta anos ela havia proclamado a salvação gratuita aos pecadores, obtida pelo sangue de Cristo, e que seu coração se sensibilizava por eles com piedosa compaixão.28

Neste ponto, devemos indagar: qual influência o tema da justificação pela fé exerceu nos escritos de Ellen G. White e dos demais pioneiros adventistas durante o período inicial da IASD? Em 1965, A. C. Schnell analisou treze influentes autores adventistas entre 1849 e 1888, e concluiu que até “1884, praticamente toda contribuição significativa na área da justificação pela fé veio da pena de Tiago e Ellen White”.29 Conforme o CD-ROM The Complete Published Ellen G. White Writings, que contém todos os escritos publicados de Ellen G. White, as expressões righteousness by faith (justiça pela fé) e justification by faith (justificação pela fé) aparecem, respectivamente, 56 e 138 vezes em seus escritos.30

Uma das primeiras referências a esse tema nos escritos de Ellen G. White aparece na obra Spiritual Gifts (Dons espirituais), onde ela descreve o esforço de Martinho Lutero por compreender a justificação diante de Deus:

Ele tentava por meio de obras obter o favor de Deus; ele, porém, não se satisfez até que um raio de luz vindo do Céu afugentou as trevas de sua mente, e o levou a confiar, não em obras, mas nos méritos do sangue de Cristo, e vir a Deus, não por meio de papas nem intermediários, mas somente por meio de Jesus Cristo.31

Com base no contexto acima exposto, podemos entender a carência do tema da justificação pela fé na literatura produzida durante as três primeiras décadas do adventismo. No entanto, podemos observar que, a partir de 1875, Ellen G. White passou a dar uma ênfase maior nesse assunto em seus escritos. Nesse mesmo ano ela escreveu:

Cristo aperfeiçoou um caráter reto aqui na Terra, não para seu benefício, pois seu caráter era puro e sem mancha, mas a favor do homem caído. Ele oferece seu caráter ao homem se ele quiser aceitá-lo. O pecador, mediante arrependimento de seu pecado, fé em Cristo e obediência à perfeita lei de Deus, tem a justiça de Cristo que lhe é creditada; esta se torna sua justiça, e seu nome é registrado no livro da vida do Cordeiro. [...] Cristo entrou na luta em favor do ser humano para vencer a Satanás em seu lugar porque viu que o homem não podia vencer por si mesmo. Cristo preparou o caminho para o resgate do ser humano por sua vida de sofrimento, abnegação e sacrifício próprio, e por sua humilhação e morte final.32

Entre 1877 e 1878, a autora preparou uma série de artigos sobre a vida de Cristo, cujo propósito era apresentar a relação entre os eventos de Sua vida e o plano da redenção. No ano seguinte, ela apelou aos ministros que exaltassem a Cristo, evitando a “fria teoria”33 e enfatizou que “sermão algum deve ser feito [...] sem apresentar a Cristo, e Cristo crucificado, como o fundamento do evangelho”.34 Em 1882, consciente de que muitos membros haviam se unido à IASD sem haver experimentado uma genuína conversão, Ellen G. White escreveu um artigo intitulado “Um apelo”, exortando que “devemos renunciar nossa justiça própria e rogar que a justiça de Cristo nos seja imputada. [...] Por meio dele”, ela continua, “por mais indignos que sejamos, podemos obter todas as bênçãos espirituais”.35

Antes de 1888, um dos importantes marcos históricos da IASD na área da justificação pela fé ocorreu na assembleia geral de 1883 em Battle Creek, Michigan. Nesse evento, Ellen G. White dirigiu a palavra aos pastores em treze reuniões matinais consecutivas, sendo que em quatro dessas palestras ela expôs os princípios da justiça pela fé. A mais impactante mensagem foi intitulada “Cristo, justiça nossa”, em que ela expôs claramente sua compreensão sobre o assunto.36

Ao ser analisado o teor do conteúdo desta palestra, destacam-se alguns aspectos que elucidam a visão de Ellen G. White sobre o tema:

• Apenas a justiça de Cristo pode dar-nos direito a qualquer das bênçãos concedidas no concerto da graça.

• “Não devemos pensar que nossa própria graça e méritos nos salvem; a graça de Cristo é nossa única esperança de salvação.”

• “… mas Jesus morreu por nós porque somos incapazes de isso fazer. Nele está nossa esperança, nossa justificação, nossa justiça.”

• “… ninguém que confie em seus [de Cristo] méritos será deixado a perecer.”

• “Nada podemos fazer, absolutamente nada, para nos recomendar ao favor divino.”

• “Ele é minha justiça e minha coroa de glória. Que ninguém aqui julgue que seu caso seja sem esperança; porque não é.”

Outra importante contribuição de Ellen G. White sobre o relacionamento entre a fé e as obras foi apresentada em uma palestra proferida em Basileia, Suíça, em 17 de setembro de 1885. A palestra discute o assunto baseando-se em declarações de Jesus e na epístola de Tiago. Seu conteúdo foi publicado na revista Signs of the Times em 16 de junho de 1890, e aparece na compilação Fé e Obras.37

A contribuição de Waggoner e Jones na compreensão da justificação pela fé

Nos primórdios da década de 1880, outro importante personagem que exerceu forte influência sobre a compreensão da mensagem da justificação pela fé na IASD foi um jovem de 27 anos chamado Ellet Joseph Waggoner, que era adventista de segunda geração e filho do pastor J. H. Waggoner. A experiência de E. J. Waggoner com esse assunto teve início no verão de 1882, enquanto participava de uma reunião campal no Colégio de Healdsburg, Califórnia.

Após uma vigorosa mensagem apresentada por Ellen G. White sobre a justificação pela fé, ela fez um apelo, e naquele instante, E. J. Waggoner “viu” – segundo o relato dele – uma representação vívida de Cristo pendurado na cruz. Aquela cena o tocou profundamente e o levou a pensar que esse ato de amor havia ocorrido por causa dos seus próprios pecados como indivíduo. Conforme Schwarz e Greenleaf, profundamente comovido, esse jovem médico resolveu que todo o seu estudo futuro das Escrituras seria dirigido para se obter um entendimento mais pleno dessa verdade, e como torná-la compreensível aos outros.38

Com o propósito de ensinar a todos o que ele havia compreendido, a partir de então Waggoner se tornou um exímio pesquisador das Escrituras, passando a estudar especialmente a epístola aos Gálatas e suas implicações para a salvação e a obediência à lei de Deus. Em 1883, Waggoner foi convidado por seu pai para auxiliá-lo na editoração da revista Signs of the Times. Logo no início, Waggoner passou a escrever vários artigos sobre a justificação pela fé e a salvação. No ano seguinte, ele conheceu Alonzo Trevier Jones, e, a partir de então, se tornaram amigos íntimos, passando a partilhar da mesma paixão e defender os mesmos interesses quanto à pregação da mensagem da justificação pela fé.

Em junho de 1884, Waggoner publicou sua primeira obra, An Important Question (Uma Questão Importante), que apresentava as condições para a vida eterna. Em 1886, ele assumiu o lugar do pai como editor-chefe da Signs of the Times. Partilhando do pensamento de Waggoner, Jones assumiu o posto de co-editor da mesma revista. É notável que, ao longo de 1886, Waggoner escreveu trinta e três artigos relacionando a lei com diversos outros temas das Escrituras. Parte do conteúdo desses artigos se tornaria objeto de discussão dois anos depois, em Minneapolis.

Após um período de quase quatro décadas, as discussões iniciais sobre a justificação pela fé reacenderam os ânimos da liderança da IASD, na assembleia geral de 1886. Em novembro daquele ano, George Butler, presidente da Associação Geral, perturbado com os frequentes artigos de Waggoner, publicou um livreto com 85 páginas, The Law in the Book of Galatians (A Lei no Livro de Galátas), distribuído no primeiro dia da assembleia geral. Três meses depois, Waggoner respondeu a Butler com outra publicação, de 71 páginas, intitulada The Gospel in the Book of Galatians (O Evangelho no Livro de Galátas). Mas a obra de Waagoner foi publicada apenas em dezembro de 1888, devido a uma carta escrita por Ellen G. White a Butler e Waggoner. Um trecho da carta antecipa a atitude que dominaria as discussões em Minneapolis:

Se vocês, meus irmãos, tivessem a experiência que meu marido e eu tivemos, [...] jamais teriam prosseguido nessa conduta. [...] Vocês devem, quanto às diferenças, ser sábios como as serpentes e inofensivos como as pombas. [...] Não tenho qualquer hesitação em dizer que vocês cometeram um erro. Vocês se afastaram da direção positiva de Deus sobre esse assunto, o que só irá prejudicar o resultado. Essa não é a ordem de Deus. Agora vocês estão dando a outros o mau exemplo dessa atitude. [...] Precisamos agora de uma religião boa e humilde.39

O papel de Ellen G. White em Minneapolis

Conforme já foi dito, a assembleia de Minneapolis começou com um espírito de discórdia e intolerância entre dois grupos que divergiam em dois níveis: teológico e pessoal. Os primeiros indícios de conflito surgiram no instituto ministerial em um confronto ideológico-doutrinário entre Jones e Smith a respeito de um dos chifres de Daniel 7. Mas a consumação do ataque ocorreu em 16 de outubro de 1888, o último dia do instituto, quando Waggoner apresentou sua primeira palestra sobre a lei em Gálatas. Os ânimos dos participantes se acirraram intensamente, revelando o que estava por vir.

Nessa atmosfera conflitante, Ellen G. White procurou apaziguar os ânimos, mediar os debates e defender os princípios das Escrituras conforme a compreensão que Deus lhe dera. Embora ela não tenha falado sobre a justificação pela fé em qualquer de suas vinte palestras apresentados em Minneapolis, ela estava convencida de que as mensagens apresentadas por Waggoner eram verdades de Deus para sua Igreja.

No decorrer dos dias da assembleia de Minneapolis, alguns dos participantes passaram a desacreditar no dom profético de Ellen G. White. De acordo com George W. Reid, seu repetido apoio às mensagens de Waggoner em Minneapolis a expôs às mesmas críticas que tinham se levantado contra ele e Jones, de que estavam subestimando o poder da mensagem adventista ao enfatizar a justiça de Cristo de uma maneira tal que muitos acreditavam ser uma nova visão de Gálatas 3:25.40

Ellen G. White descreveu a experiência nos seguintes termos:

Quando eu expressei claramente a minha fé [nas mensagens de Waggoner sobre a justificação] houve muitos que não me compreenderam, e eles disseram que a irmã White havia mudado; a irmã White tinha sido influenciada pelo seu filho William White e pelo Pr. A. T. Jones [...] Tornei-me objeto de comentários e críticas, mas nenhum de nossos irmãos veio ter comigo, fazendo perguntas ou procurando alguma explicação.41

O epicentro dessas críticas contra Ellen G. White se originou a partir da experiência ocorrida na assembleia da Associação Geral de 1886. Naquele ano, sentindo-se incomodado com as dezenas de artigos publicados por Waggoner na Signs, Butler deu início a uma campanha para solucionar as discordâncias e defender o ponto de vista tradicional sobre a lei em Gálatas. Sua estratégia para resolver os impasses bíblico-teológicos vivenciados pela Igreja consistia em consultar a “mensageira do Senhor”, Ellen G. White. Knight explica:

Entre 20 de junho de 1886 e 1º de dezembro de 1888, o presidente da Associação Geral enviou à Sra. White uma série de cartas cada vez mais contundentes, insistindo para que ela resolvesse o problema interpretativo, fornecendo um testemunho sobre a interpretação correta da lei em Gálatas. A princípio ele agiu de maneira bastante gentil, mas por volta de outubro de 1888 começou abertamente a ameaçá-la. Caso ela não se propusesse à devida interpretação, sugeria ele, isso não apenas “escancararia uma porta para a entrada de outras inovações e demoliria nossas antigas posições de fé”, mas também “tenderia a diminuir a confiança de nosso povo nos próprios testemunhos”. E acredito que toda essa questão fará mais por quebrar a confiança em nossa obra do que qualquer coisa que tenha ocorrido a esta causa desde o seu surgimento [...] Se nosso povo começar a pensar que a posição contrária é sustentável, isso destruirá a fé de muitos de nossos líderes nos testemunhos. O resultado só pode ser este.42

Em suas cartas endereçadas a Ellen G. White, Butler criticava a maneira como Waggoner estava lidando com o assunto da lei em Gálatas. Ao defender a compreensão tradicional, ele demonstrou sua preocupação ao advertir contra o risco que a Igreja incorria. George R. Knight descreve:

A maneira como Waggoner tratava a lei em Gálatas era particularmente importante “porque as referências feitas pelo apóstolo à lei em sua carta são usadas por nossos oponentes como forte apoio às suas doutrinas antinomistas [contrárias à lei]”. Assim sendo, Waggoner e Jones estavam fornecendo “grande ajuda e conforto” aos inimigos antinomianos dos adventistas.43

Entretanto, mesmo após inúmeras cartas, Butler ainda não havia recebido qualquer resposta. Para surpresa e desespero de Butler, a única resposta que ele obteve de Ellen G. White foi o silêncio. Ela “se recusou a ser um joguete nas mãos dos tradicionalistas que praticamente exigiam que ela resolvesse a questão de Gálatas”.44 O plano de Butler era obter uma resposta definitiva, quer pela carta “perdida” enviada a J. H. Waggoner na década de 1850, ou por meio de um posicionamento oficial. Em outras palavras, queriam que ela operasse como uma juíza da teologia adventista ou árbitra da exegese.

Quanto ao “testemunho perdido”, escrevendo de Basileia, Suíça, Ellen G. White lamentou:

Estou incomodada; por amor de minha própria vida eu não posso lembrar daquilo que me foi mostrado com referência às duas leis [moral e cerimonial]. Não posso lembrar qual foi o conselho e a advertência que foram dados ao pastor Joseph Waggoner. Pode ter sido uma admoestação para não tornar suas ideias salientes naquele tempo, pois havia um grande perigo de desunião.45

Em uma mensagem devocional, apresentada na assembleia de Minneapolis em 24 de outubro de 1888, ela indagou:

Por que eu perdi o manuscrito e por dois anos não pude encontrá-lo? Deus tem um propósito nisto. Ele quer que recorramos à Bíblia a fim de obter a evidência das Escrituras. Eu irei encontrá-lo e mostrarei a vocês. Mas essa investigação [das Escrituras] deve prosseguir adiante. [...] Não espero que meu testemunho seja agradável, mas ainda assim irei sustentá-lo perante Deus. Deus sabe que os ministros têm sido preparados e capacitados para o trabalho, mas a menos que estejamos convertidos, Deus não nos usará.46

George R. Knight argumenta que ela “estava mais interessada no que a Bíblia tinha a dizer sobre o assunto do que no que ela própria havia escrito”. Portanto, ela “não queria que os testemunhos ocupassem o lugar do estudo da Bíblia”.47 Durante seus setenta anos de ministério profético, Ellen G. White sempre deixou claro que seus escritos deviam levar o povo “de volta à Palavra” e ajudá-lo a compreender os princípios bíblicos.

Devido à sua relutância em prover uma declaração oficial sobre a lei em Gálatas, um dos emissários de Butler, o pastor Morrison, forçosamente recorreu a um trecho dos escritos de Ellen G. White para provar que a lei em Gálatas era a lei cerimonial. Tomou a obra Sketches From the Life of Paul (Esboços da Vida de Paulo), publicada em 1883, e, abrindo na página 193, leu a todos os delegados presentes. Logo após a leitura, Waggoner se levantou a fim de rebater o argumento de Morrison.

Naquela mesma manhã, Ellen G. White afirmou: “Não posso tomar partido nem de um lado nem de outro enquanto não estudar a questão”.48 Em realidade,

Ellen White tinha luz para os delegados da Associação Geral sobre o assunto de Gálatas, mas essa luz, conforme ela mesma declara repetidas vezes, era que eles precisavam estudar mais a Bíblia e não confiar em qualquer outra forma de autoridade ao procurar compreender as Escrituras.49

Um episódio notável que ocorreu durante a assembleia foi caracterizado por um crescente interesse advindo dos delegados mais velhos que procuravam eliminar as palestras. Enquanto Waggoner apresentava sua palestra, houve uma interrupção. Froom relata:

Pedindo a palavra, R. M. Kilgore, membro da [administração da] Associação Geral, declarou que, em função de o pastor Butler ter sido impedido por doença, ele propunha que aquela discussão sobre o assunto da justificação pela fé fosse suspensa até que o presidente Butler pudesse estar presente.50

Imediatamente Ellen G. White, que estava sentada na plataforma, se levantou e disse: “Irmãos, esta é a obra do Senhor. O Senhor quer que sua obra espere pelo pastor Butler? O Senhor quer que sua obra avance e não espere por qualquer homem”.51 Ninguém se pronunciou após essa declaração. E assim, Waggoner pôde continuar sua mensagem.

Os estudos desenvolvidos por Waggoner sobre a justificação pela fé foram apresentados em onze palestras. “As primeiras seis abordavam a relação entre a graça e a lei, bem como entre a fé e as obras, baseadas principalmente em Gálatas”, enquanto “as últimas cinco eram sobre a justificação pela fé em Cristo.”52

Segundo os relatos históricos, enquanto Waggoner falava, Ellen G. White manifestava-se frequentemente pronunciando “amém”. Apesar de não tomar partido sobre a questão da lei em Gálatas, ela foi enfática em defender a justificação pela fé pelos méritos de Cristo. Em muitas ocasiões, ela convidava os delegados ao arrependimento. Suas correções e advertências foram dadas de forma imparcial. Ao pastor Lewis Johnson, ela disse: “O que você precisa é sentar-se aos pés de Jesus; mas você não está lá agora”.53

Conclusão

Ao concluirmos este estudo, é necessário levantar algumas questões: (a) Qual foi o grau de importância exercido por Ellen G. White na compreensão do tema da justificação pela fé em 1888? (b) Quais foram seus esforços para apoiar a pregação de Waggoner? (c) Teria ela, depois de Minneapolis, mudado sua opinião sobre o assunto? (d) Qual impacto a assembleia de Minneapolis exerceu em seu ministério como escritora?

A despeito de todas as discussões ocorridas naquela assembleia, cremos que, sem a presença de Ellen G. White, Minneapolis teria exercido um impacto diferente nos rumos e destinos da IASD. Tratando desse tema, George Kinght assevera que

Sem os comentários feitos por Ellen White sobre os temas tratados na assembleia da Associação Geral de 1888, os acontecimentos de Minneapolis e os ensinos de Jones e Waggoner não seriam questões debatidas no adventismo. Sem o repetido apoio dado pela Sra. White a Jones e Waggoner na década de 1880, eles jamais teriam tido a oportunidade de expressar-se em 1888, nem teriam alcançado posições de responsabilidade e influência na igreja durante a década de 1890.54

Em uma mensagem intitulada “Avançando na experiência cristã”, apresentada à assembleia em 20 de outubro de 1888, ela se referiu a Waggoner e Jones como homens especialmente dirigidos por Deus para apresentar “preciosas gemas da verdade apropriadas para nosso tempo”. Entretanto,

Pelo fato de Ellen White ter apoiado a Jones e Waggoner, alguns intérpretes têm agido como se ela tivesse dado a esses homens um cheque em branco em questões teológicas, especialmente no que diz respeito a questões relativas à justificação pela fé. Esse conduto nunca foi a intenção dela. Essa maneira de encarar o assunto não se harmoniza com o registro histórico.55

Outro fator que merece atenção é uma suposta mudança, ocorrida após Minneapolis, no posicionamento de Ellen G. White sobre a justificação pela fé. É certo que, como assídua participante da assembleia, ela se entusiasmou com a abordagem ali apresentada sobre o assunto. Porém, quanto ao teor da mensagem, ela explicou que as verdades ali apresentadas lhe haviam sido mostrada por Deus desde 1844. Ela descreve:

Nessa reunião, eu dei testemunho de que a mais preciosa luz irrompera das Escrituras na apresentação do grande assunto da justiça de Cristo relacionada com a lei, que constantemente devia ser mantido diante do pecador, como sua única esperança de salvação. Isso não era nova luz para mim, pois me adviera de uma autoridade mais elevada, durante os últimos quarenta e quatro anos, e eu a apresentei a nosso povo pela pena e pela voz, nos testemunhos de seu Espírito. Mas bem poucos tinham correspondido, a não ser por assentimento, aos testemunhos dados sobre esse assunto. Na realidade, muito pouco foi dito e escrito sobre essa importante questão. Os sermões de alguns podem ser corretamente retratados como semelhantes à oferta de Caim – destituídos de Cristo.56

É digno de nota que logo após 1888, ela publicou influentes obras sobre a vida, obra e sacrifício de Cristo. Na visão de Knight, após Minneapolis, “o grande tema de Ellen White passou a ser Cristo e Sua justiça”.57 Cinco livros sobre a vida de Cristo foram lançados no período compreendido entre 1892 e 1905: (a) Caminho a Cristo (1892); (b) O Maior Discurso de Cristo (1896); (c) O Desejado de Todas as Nações (1898); (d) Parábolas de Jesus (1900); e (e) os primeiros capítulos do livro A Ciência do Bom Viver (1905). Uma análise do conteúdo dessas obras leva-nos a concluir que Ellen G. White passou a dar uma nova ênfase ao tema da salvação pela fé.

Como foi observado por Froom,

apesar de seus conflitos, a assembleia de Minneapolis marcou o começo de uma nova etapa no esclarecimento gradual, desenvolvimento e perfeição dos novos aspectos da verdade. [...] Os resultados não foram imediatos. Eles vieram lentamente. [...] Essa importante verdade foi avançando através de provas e conflitos.58

Como uma fiel mensageira de Deus, sempre presente nos momentos decisivos da história adventista, Ellen G. White encerrou a assembleia de Minneapolis em 1888 com uma mensagem em que convidava a Igreja a desfrutar “Um estudo mais profundo da Palavra”. Ela declarou:

Eu imploro a vocês que exercitem o espírito cristão. Não permitam que sentimentos estranhos ou preconceituosos se levantem, pois precisamos estar preparados para investigar as Escrituras com uma mente despretensiosa, com reverência e humildade. Não posso crer que os anos irão limpar as impressões feitas em nossa última conferência [...] Estou convencida de que devemos ter mais de Jesus e menos de nosso próprio eu.59


Referências

1 Palestra da Semana Acadêmica da Faculdade Adventista de Teologia (FAT) do Unasp-EC (“A mensagem da justificação pela fé na IASD: Minneapolis, 120 anos depois”), proferida em 1º de junho de 2008.

2 Arthur N. Patrick, “Smith, Butler and Minneapolis: The Problems and Promise of Historical Inquiry”, em Arthur J. Ferch, ed., Towards Righteousness by Faith: 1888 in Retrospect (Wahroonga, New South Wales: South Pacific Division of Seventh-day Adventists; Warburton, Victoria: Signs, 1989), p. 10-11.

3 Ibid., p. 11.

4 LeRoy E. Froom, Movement of Destiny (Washington, DC: Review and Herald, 1971), p. 187.

5 George I. Butler, Review and Herald, 16 de agosto de 1888.

6 Idem, Review and Herald, 28 de agosto de 1888.

7 Arthur L. White, Elena de White: mujer de visión (Buenos Aires: Associación Casa Editora Sudamericana, 2003), p. 259.

8 Ibid., p. 258-259.

9 William C. White, Review and Herald, 16 de agosto de 1888.

10 Richard W. Schwarz e Floyd Greenleaf, Portadores de Luz: história da Igreja Adventista do Sétimo Dia (Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária Adventista, 2009), p. 178.

11 Ibid., p. 180.

12 Froom, Movement of Destiny, p. 245.

13 Ellen G. White, manuscrito 24, 1888.

14 Idem, manuscrito 2, 1888.

15 Idem, manuscrito 21, 1888.

16 Veja idem, Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), v. 1, p. 361; idem, Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1997), v. 3, p. 160.

17 George R. Knight, A Mensagem de 1888 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003), p. 64.

18 Ibid., p. 64-65.

19 Ibid., p. 66; veja White, Elena de White, p. 260-261.

20 Paul Johnson, A History of the American People (New York: Harper Perenial, 1997), p. 116.

21 Renato Stencel, “História da Educação Superior Adventista: Brasil, 1969 a 1999”, (tese doutoral, Universidade Metodista de Piracicaba, 2006), p. 38.

22 Knight, A Mensagem de 1888, p. 36.

23 Ibid., p. 37.

24 Schwarz e Greenleaf, Portadores de Luz, p. 175-176.

25 Froom, Movement of Destiny, p. 239.

26 G. C. Tenney, Review and Herald, 16 de setembro de 1880.

27 Ellen G. White, Review and Herald, 11 de março de 1890.

28 Idem, Signs of the Times, 22 de dezembro de 1887.

29 A. C. Schnell, “Ideias de Ellen White sobre justificação pela fé antes de 1888”, Revista Adventista, fevereiro de 1988, p. 5.

30 The Complete Published Ellen G. White Writings (versão 3.0); veja também o website Ellen G. White Estate, Inc., www.whiteestate.org.

31 Ellen G. White, Spiritual Gifts, Vol. I: The Great Controversy Between Christ and His Angels, and Satan and His Angels (Battle Creek, MI: Seventh-day Adventist Publishing Association, 1858), p. 120.

32 Idem, Testemunhos para a Igreja (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2002), v. 5, p. 371-372.

33 Ibid., v. 4, p. 313.

34 Ibid., v. 4, p. 394.

35 Ibid., v. 5, p. 219.

36 O texto integral da mensagem aparece em idem, Mensagens Escolhidas, v. 1, p. 350-354.

37 Idem, Fé e Obras (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1998), p. 47-50.

38 Schwarz e Greenleaf, Portadores de Luz, p. 176.

39 Ellen G. White, carta a E. J. Waggoner e A. T. Jones, 18 de fevereiro de 1887.

40 George W. Reid, “Assuntos Contemporâneos em Teologia” (material não publicado, programa de Pós-graduação do Salt), 16 de janeiro de 1998.

41 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2000), v. 2, p. 173.

42 Knight, A Mensagem de 1888, p. 59-60.

43 Ibid., p. 38.

44 Ibid., p. 60.

45 Ellen G. White, carta 13, 1887.

46 Idem, The Ellen G. White 1888 Materials (Washington, DC: Ellen G. White Estate, 1987), p. 153.

47 Knight, A Mensagem de 1888, p. 61.

48 White, The Ellen G. White 1888 Materials, p. 151-153.

49 Knight, A Mensagem de 1888, p. 62.

50 Froom, Movement of Destiny, p. 246.

51 Ibid., p. 246.

52 Ibid., p. 245-246.

53 Ibid., p. 251.

54 Knight, A Mensagem de 1888, p. 69.

55 Ibid., p. 76.

56 White, Mensagens Escolhidas, v. 3, p. 168-169.

57 Knight, Mensagem de 1888, p. 71.

58 Froom, Movement of Destiny, p. 252.

59 Ellen G. White, manuscrito 15, 1888.


Fonte: Revista Parousia, 1° e 2° Semestre de 2009, UNASPRESS

PDF: Tradição ou convicção? O papel de Ellen G. White na compreensão da justificação pela fé