O Espírito de Profecia e o Serviço Militar

Documento preparado pelo departamento de Deveres Cívico-Religiosos da I.A.S.D.
Documento preparado por W. C. White, D. E. Robinson e A. L. White [*]

Durante os anos de 1860 a 1863, enquanto se davam os últimos passos em direção a organização da igreja, os líderes de nossa denominação enfrentavam, com crescente intensidade, outras novas e graves perplexidades. A luta política nos Estados Unidos, culminando com a Guerra Civil, trouxe ao front um grande número de problemas cuja solução afetou não somente sua relação para com os problemas comuns, mas que deveriam moldar a política da igreja durante tempos ainda mais turbulentos de conflitos internacionais. Naturalmente, ao se desenvolver a crise da Guerra Civil, os membros da igreja olhavam para os lideres, particularmente a Tiago e Ellen White, esperando algum pronunciamento concernente a atitude que deveriam tomar quanto às novas situações.

Felizmente não havia divisões ou seitas entre os adventistas guardadores do sábado. Enquanto seu trabalho se havia expandido rapidamente de leste a oeste, não havia, antes da Guerra Civil, penetrado nos estados sulistas, pró-escravatura. Aqueles que haviam aceito a mensagem estavam unidos em sua oposição aos princípios da escravidão humana. Tinham patriótica simpatia pela causa dos estados do Norte e pelo governo da União, em Washin­gton. Sua atitude era tal que, nos últimos anos da guerra, puderam declarar as autoridades civis que “os Adventistas do Sétimo Dia são rigidamente contrários à escravidão, leais ao governo e simpatizantes com ele contra a rebelião” (The Views of Sevent-day Adventists Relative to Bearing Arms, p. 7 – 1864).

A despeito de seu ponto de vista comum, havia perigos esperando pela nova e crescente igreja. Havia o perigo de que as mentes do povo se tornassem tão absorvidas em questões políticas, que se afastassem de seu trabalho de proclamar a mensagem. E havia o perigo de que o público perdesse o interesse na mensagem, ao dirigir sua atenção às questões nacionais.

Ambos os perigos foram previstos por Tiago White. No fim do verão de 1860, quando estava no clímax a excitação motivada pela eleição presidencial, ele apresentou uma nota editorial de advertência contra o deixar-se levar por controvérsias políticas. Aconselhou os ministros a ou conduzir seus esforços “em lugares pequenos, longe do valor das lutas políticas”, ou a suspendê-los durante a época da campanha. Ele sabiamente evitou condenar ou advogar a causa do exercício do voto, declarando:

Não estados preparados para provar, pela Bíblia, que seria errado um cristão fiel à terceira mensagem angélica, de maneira compatível com sua profissão de fé, apresentar seu voto. Não o recomendamos, nem a isso nos opomos. — Review and Herald, 21 de agosto de 18601

Abraão Lincoln, o candidato republicano à presidência, ao passo em que não interferia no assunto da escravidão onde ela já existia, comprometeu-se a se opor a ela, evitando que se alastrasse em novos territórios. Era naturalmente que os eleitores, entre nosso povo, dessem a ele seu voto. E sua eleição, em novembro, foi seguida, em poucas semanas, pelo início da secessão dos estados sulinos. A Carolina do Sul aprovou a secessão dia 20 de dezembro de 1860.

Votos semelhantes foram aprovados em três dias sucessivos – 9, 10 e 11 de janeiro – em Mississipi, Flórida e Alabama, respectivamente, e a 1° de fevereiro, Geórgia, Louisiana e Texas se haviam unido a eles no hasteamento da bandeira dos “Estados Confederados da América”. Desta forma, sete estados se haviam separado antes da posse de Lincoln, a 4 de março de 1861.

Visão em Parkville

Haviam sido marcadas reuniões para 11 e 12 de janeiro de 1861 em Parkvillie, Michigan. Estiveram presentes Tiago e Ellen White e os pastores J. H. Waggoner, Urias Smith e J. N. Loughborough. No sábado, dia 12 de janeiro, depois de haver falado, a irmã White foi tomada em visão.

Nessa visão foi-lhe revelado que outros estados se uniriam a Carolina do Sul e que uma guerra ainda mais terrível seguia-se. Ela viu cenas dos exércitos em conflito, com terrível carnificina. Viu os campos de batalha cobertos com mortos e moribundos. Ela testemunhou cenas de sofrimento em prisões superlotadas e viu lares onde reinava a angustia e aflição por causa da perda de maridos, filhos ou irmãos.

Ao sair da visão, ela olhou em volta e disse tristemente: “Nesta casa ha pessoas que perderão filhos nesta guerra.”2

Na época em que essa visão foi dada, nem o Norte nem o Sul esperavam que uma grande guerra se seguisse. Os políticos sulistas argumentavam que “poderiam sair-se melhor fora da União do que dentro dela”. Seu pensamento era de “temporariamente retirar-se do governo federal ate que lhes fossem dadas as garantias próprias para a observância” do que eles consideravam seus direitos e interesses”. “Eles não criam que as autoridades dos Estados Unidos realmente tentassem” uma tarefa tão tremenda, como a ocupação de seu vasto território, num esforço por conquistá-los à força” (Ver Enciclopédia Britânica, verbete “United States” e Herbert E. Douglass, Mensageira do Senhor [Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2003], p. 572-573).

Quanta ao Governo Federal, suas limitadas expectativas quanto à    uma guerra são indicadas pelo fato de que mesmo depois da primeira agressão em Fort Sumter – dia 12 de abril – quando a guerra foi considerada inevitável, o presidente – em 15 de abril – expediu uma convocação para apenas 75.000 homens, e isso por um período de três meses.

Convocação Para Voluntários

Esta convocação de 75.000 voluntários para o exercito federal foi rápida e entusiasticamente recebida. Quando se preencheram as quotas determinadas para cada estado, região e município, foram recusadas novas inscrições. Em Battle Creek, após concentração de massa em 20 de abril, presenciada por mais de 1.000 cidadãos, 71 voluntários se alistaram. Na manhã seguinte vieram outros, que foram embora desapontados porque o número já havia sido completado.

Primeiros Contratempos e Seu Significado

O presidente Lincoln convocou o Congresso para uma reunião especial no dia 4 de julho de 1861. O Congresso imediatamente se dedicou à organização da guerra e suas finanças, e autorizou a formação de um exército de 500.000 voluntários. Antes do término da sessão especial, as forças do Norte e do Sul se encontraram em combate, a 21 de julho de 1861, na Batalha de Bull-Run, em Manassas, Virgínia, umas 30 milhas ao sul de Washington. A desencorajadora derrota das forças do Norte enfatizou sua falta de preparo para a guerra. Mas havia outras razões para esse fracasso e a falta de uma vitória decisiva para ambos os lados. A cortina foi afastada para Ellen White, numa visão dada em Roosevelt, New York, dia 3 de agosto, exatamente duas semanas após o conflito de Manassas, e se lhe permitiu ver o que aconteceu. Acerca desses episódios ela escreveu um artigo intitulado “A Escravidão e a Guerra”, publicado na Review, dia 27 de agosto de 1861 e reimpresso em Testemunhos Para a Igreja, vol. 1:

Tive uma visão da desastrosa batalha de Manassas, Virgínia. Foi uma cena tensa e nervosa. Os exércitos do Sul tinham tudo em seu favor e preparavam-se para um luta terrível. Os exércitos do Norte movimentavam-se triunfantes, não duvidando de que seriam vitoriosos. Muitos marchavam orgulhosos e displicentes, como se a vitória já lhes pertencesse. Chegando ao campo de batalha, muitos já estavam quase desmaiando em virtude do cansaço e falta de água. Não esperavam um enfrentamento tão feroz. Entraram na peleja e lutaram bravamente, quase com desespero. Mortos e moribundos espalhavam-se de ambos os lados. Tanto o Norte quanto o Sul tiveram muitas baixas. Os soldados do Sul começaram a sentir o rigor da batalha, e em pouco tempo haveriam retrocedido ainda mais. Os homens do Norte avançavam, embora suas baixas fossem enormes.

Justamente nesse momento desceu um anjo, movimentando as mãos, indicando “para trás”. Instantaneamente houve grande confusão nas fileiras. Pareceu aos homens do Norte que suas tropas estavam em retirada, quando em realidade não era isso que estava ocorrendo. Isso precipitou a retirada das tropas. Isso me pareceu maravilhoso.

Então ficou claro que Deus tinha esta nação em Suas próprias mãos e não permitiria que vitórias fossem ganhas com mais rapidez do que Ele ordenava, e que não permitiria mais perdas aos homens do Norte do que em Sua sabedoria Ele julgasse necessário, para puni-los por seus pecados. … Esse repentino retrocesso das tropas do Norte é um mistério para todos. Não sabem que a mão de Deus interveio na questão. –  Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 266 e 267 (citado parcialmente em A Verdade Sobre os Anjos, p. 254 e 255).

Os “pecados” do Norte, aqui referidos, significam o fato de ser tolera da a escravidão e os esforços por apenas confiná-la aos estados onde já existia, em vez de libertar todos os escravos.

Recompensas para Encorajar o Alistamento

Enquanto a guerra prosseguia, foram proclamadas convocações pelo presidente, por mais soldados. Requereu-se que cada estado fornecesse uma cer­ta quota de homens para cada convocação sendo, por sua vez, apresentada uma quota a cada região, cidade e distrito. Se o número dos que se apresentavam voluntariamente não alcançava a quota requerida, seria necessário instituir uma convocação. Para evitar isso, precisavam encontrar alguma maneira de encorajar o alistamento de homens para preencher o número requerido. Co­mo um modo de promover o alistamento, foram formadas comissões de cidadãos em muitas municipalidades, e eles resolveram oferecer uma recompensa aos recrutas. Começando com US$25, a importância foi logo aumentada para US$100,00, ao serem convocados mais e mais homens para a linha de frente.

Como os adventistas do sétimo dia estavam particularmente ansiosos por evitar a ameaça da convocação, que envolveria os guardadores do sábado, Tiago White participou de todo o coração no trabalho de levantar fundos, dos quais uma liberal recompensa seria paga a voluntários. Enquanto, como regra, nossos irmãos eram conscienciosamente não-combatentes, ainda assim sentiam ser seu dever unir-se para juntar dinheiro para o pagamento do bônus oferecido aos voluntários que não tinham escrúpulos religiosos contra o serviço do exército.

Tiago White e outros líderes adventistas ajudaram, tomando parte em certo número de reuniões publicas dos cidadãos de Battle Creek, onde havia livre discussão sobre as várias atividades da guerra, mas particularmente sobre o problema de fornecer a quota de homens, se possível sem a necessidade de convocação. Ele tornou claro que seus irmãos guardadores do sábado não se abstinham de apresentar-se voluntariamente por serem covardes ou preguiçosos. Embora fossem geralmente pobres, de boa vontade contribuiriam tão livremente quanto os abastados.

Tiago White relatou a sua esposa algumas de suas experiências nessas reuniões de massa. Vários de seus associados o apontaram como representante para oferecer seus compromissos ao fundo, em tempo oportuno. Assim, ele diria na reunião: “Em nome de meu amigo, A. B., sujeito à convocação, estou autorizado a creditar _____ dólares. Também em nome de meu amigo, C. D. , não sujeito à convocação, mas que de boa vontade deseja participar do levantamento de fundos para o bônus, estou autorizado a creditar _____ dólares”.

A 20 de outubro de 1862 foi realizada uma grande reunião de guerra em Battle Creek “para dar os passos preliminares para o preenchimento da quota de homens da cidade, sob o apelo do Governo, referente a 600.000 homens”. O plenário recusou a proposta da comissão, de recomendar uma recompensa de US$ 100,00 para cada voluntário, e a substituiu por uma oferta de US$ 200,00. Uma comissão composta par nove membros foi indicada para levantar os fundos, dentre os quais se encontravam no mínimo dois guardadores do sábado, J. P. Ke­llogg e o pastor Tiago White, representando o segundo e terceiro distritos de Battle Creek. – Battle Creek Journal, 24 de outubro de 1862.

Ao passo que a guerra prosseguia, esse procedimento foi questionado por alguns. Sua atitude e de outros irmãos líderes foi apresentada em resposta a um grande número de perguntas recebidas pelo pastor Tiago White “quanto à validade de contribuir para o levantamento de fundos para a recompensa, objetivando o alistamento”. A resposta a isso foi: “Cremos que é válido, e o temos feito em Battle Creek.” – Review and Herald, 30 de agosto de 1864.

Dificuldades no Campo

E assim as perplexidades intrínsecas a guerra cresceram, à medida que se aumentava o valor da recompensa, requerendo ainda maiores empregos de recursos de nosso povo. Os relatórios dos obreiros no campo indicavam dificuldades relacionadas à proclamação da mensagem. O pastor Ingraham relatou que a tenda de Illinois fora dobrada porque “era inútil erguer a tenda em novos campos enquanto durasse a excitação da guerra”. Em Iowa os pastores J. H. Waggoner e B. F. Snook foram presos sob a lei marcial, e detidos até conseguir um certificado do juiz da comarca, “declarando sua residência, ocupação atual e profissão. O Juiz os aconselhou a imediatamente pôr em ordem suas casas, já que estariam mais e mais sujeitos, diariamente, a problemas e dificuldades”. De Rochester, New York, o pastor Cornell relatou:

O excitamento da guerra era tão grande que tivemos que suspender as reuniões por duas noites. Nossa tenda foi usada para reuniões sobre a guerra. Nunca vi tanta excitação como desta vez, em Rochester. As ruas estão bloqueadas com as tendas de recrutamento de oficiais. As lojas estão todas fechadas das 3 às 6 da tarde, e todos estão tentando convencer homens a se alistarem. Há reuniões de debate sobre a guerra todas as noites. – Review and Herald, 26 de agosto de 1862.

Contudo, apesar das dificuldades em manter esforços públicos, houve condições compensadoras. Os problemas e as perplexidades tornaram mais sóbrios os corações de nossos irmãos. Procuraram o Senhor fervorosamente, tornaram-se mais zelosos nas atividades missionárias dentro das comunidades em que viviam o Senhor os abençoou, acrescentando muitas almas.

Enfrentando a Convocação

O ano de 1862 testemunhou contínuos e inexplicáveis reveses para as forças do Norte, e mais e mais homens se tornaram necessários. Ate esse tempo exercito da União fora inteiramente suprido com homens recrutados em base de alistamento. Os adventistas do sétimo dia, com seus pontos de vista sobre a guarda do sábado e a não-combatividade, não se haviam alistado e isso levou alguns observadores a questionar sua lealdade ao governo. Ellen White escreveu:

A atenção de muitos se voltou para os guardadores do sábado, porque não manifestavam grande interesse na guerra e não se apresentavam como voluntários. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 2, p. 356.

E ela comentou:

Era necessário agir com sabedoria, para desfazer a suspeita levanta contra os guardadores do sábado. Devemos agir com grande cautela. “Se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” [Rom. 12:18]. Podemos obedecer a essa admoestação, sem sacrificar um princípio de nossa fé. Satanás e suas hostes estão em guerra contra os guardadores dos mandamentos e trabalhará para levá-los a posições probantes. Eles não devem, por falta de discrição, deixar-se levar até lá. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 356 (janeiro de 1863).

Todos podiam perceber que uma convocação era inevitável e não muito distante. Como deveriam os adventistas do sétimo dia relacionar-se com a convocação quando esta chegasse, era a pergunta na mente de quase todos.

Nessa conjuntura, numa tentativa de dar orientação aos que achavam difícil chegar a uma conclusão, o pastor White publicou na Review and Herald de 12 de agosto de 1862 um editorial intitulado “A Nação”. Aqui, depois de declarar as razões por que os adventistas do sétimo dia simpatizavam com a causa governo na guerra que estava sendo travada, e por que não podiam conscientemente apresentar-se como voluntários para o serviço bélico, diz ele, falando de uma possível convocação por parte do governo:

Seria loucura resistir. Aquele que resistisse contra a administração da lei militar, e fosse executado, iria muito longe, cremos, assumindo responsabilidade do suicídio. No momento gozamos da proteção de nossos direitos civis e religiosos, concedida pelo melhor governo debaixo céus. … É cristianismo honrar as boas leis de nossa terra. Disse Jesus: “Dai, pois, a César o que e de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21). Aqueles que desprezam a lei civil, deveriam fazer as malas e partir para algum lugar onde não exista lei civil.

Quando isso acontecer, ou seja, quando decretos civis forem impostos para nos afastar da obediência à lei de Deus e nos colocar em rebelião com o governo do Céu (ver Apocalipse 13:15-17), então teremos probabilidade de nos tornarmos mártires. Mas tentar resistir às leis do melhor governo debaixo do céu, o qual está agora tentando subjugar a rebelião, … repetimos, seria loucura.

Aqueles que são leais ao governo do Céu, fiéis à Constituição, e às leis do Governador do Universo, serão os últimos a desertar para o Canadá, para a Europa, ou a ficarem tremendo de medo de uma convocação militar.

Este artigo causou em alguns distritos uma tormenta de críticas, e sua natureza pode ser inferida do seguinte trecho, publicado na Review duas semanas mais tarde:

Vários irmãos se referiram a nossas observações sob esta legenda (“A Nação”), há duas semanas, em estilo um tanto febril. Convidamo-los a ler o artigo novamente e a se assegurarem de que entenderam nossa posição, antes de se oporem a ela. Contenham-se, irmãos! Não é tempo para que cavalheiros cristãos dêem lugar a sentimentos de preconceito e virtualmente nos acusem de apregoar o homicídio e a quebra do sábado. Seria melhor que todos levassem o assunto a Deus, pedindo um espírito humilde e moldável; então, se algum for convocado, e escolher fazer um pacto com Tio Sam em vez de obedecer, poderá tentá-lo. Não discutiremos com essa pessoa, a menos que alguns de vocês, não-resistentes, suscitem uma guerrinha antes de serem chamados a lutar por seu país. Qualquer artigo bem escrito, com o propósito de lançar luz sobre nosso dever como um povo, em referência à presente guerra, receberá imediata atenção. – Review, and Herald, 26 de agosto de 1862.

Seguiu-se nas colunas da Review uma discussão aberta quanto às perguntas referentes aos deveres dos guardadores do sábado em face da convocação, com o resultado de que finalmente se conseguiu unanimidade de ação. A divergência nos pontos de vista por algum tempo, contudo, é indicada numa observação na última pagina da Review, de 9 de setembro de 1862, no sentido de que Tiago White seria incapaz de assumir certos compromissos “em conseqüência da época desfavorável, do excitamento da guerra, do temor aos índios (indubitavelmente sem fundamento), sentimentos agitados em relação a nosso artigo intitulado ‘A Nação’, e a proximidade da Associação Geral”.

A atitude geral dos irmãos em relação às exigências do governo e à guerra foi refletida por H. E. Carver em sua resposta à posição de Tiago White, conforme artigo publicado na Review:

Devemos fidelidade ao governo sob o qual vivemos. É nosso dever apoiar o governo até que ele exija que desobedeçamos a Deus – e então não poderemos hesitar quanto a quem serviremos … Confio em que Deus nos livrará dessa grande provação, mas se a provação tiver de vir, peço a Deus que nos dê sabedoria e forca para glorificá-Lo através da guarda de Seus mandamentos. – Review and Herald, 21 de outubro de 1862.

Instruções Através do Espírito de Profecia

A essa altura a igreja recebeu orientarão por meio do Espírito de Profecia. Em janeiro de 1863 foi anunciado na Review o “Testimony for the Church” n° 9, com a declaração de que continha instruções referentes “a guerra e a nosso dever em relação a ela”.

Este não foi o primeiro artigo dos testemunhos fazendo referência à Guerra Civil, mas foi o primeiro a dar conselho específico relacionado à convocação, ao alistamento, etc. Um artigo intitulado “O Norte e o Sul” (Vol. 1, pp. 253-260), publicado um ano antes (janeiro de 1862), ajudou a esclarecer, na mente dos adventistas do sétimo dia, os verdadeiros problemas da guerra. E houve também um segundo artigo, intitulado “A Escravidão e a Guerra”, apresentando a visão de 3 de agosto de 1861.

Mas foi esse capítulo, “A Rebelião”, publicado em janeiro de 1863 e agora incluído em Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, páginas 355-368, que entro em discussão o recrutamento que parecia inevitável. Foi revelado à Sra. White que Deus considerava a nação responsável pelo pecado da escravatura, e que tanto o Norte como o Sul seriam punidos. Com referência ao desfecho da guerra, disse ela:

Deus não esta ao lado do Sul, e Ele o punirá terrivelmente no final. … Vi que Deus não entregaria o exército do Norte inteiramente nas mãos de um povo rebelde, para ser destruído por seus inimigos. … Vi que tanto o Sul como o Norte estavam sendo castigados.

Com relação ao Sul, minha atenção foi voltada a Deuteronômio 32:35-37: “A Mim Me pertence a vingança, a retribuição, a seu tempo, quando resvalar o seu pé; porque o dia da sua calamidade está próximo, e o seu destino se apressa em chegar” [versículo 35]. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 359, 365.

Com respeito a alguns que ousadamente asseveravam que prefeririam morrer a submeter-se ao recrutamento, e que haviam criticado a posição tomada por Tiago White e outros líderes, o testemunho declarou:

Vi que aqueles que hão falado tão decididamente sobre a sua recusa em obedecer a um recrutamento, não entendem de que estão falando. Se em realidade fossem convocados e, recusando-se a obedecer, fossem ameaçados com aprisionamento, tortura ou morte, voltariam atrás e então veriam não estarem preparados para tal emergência. Não suportariam a prova de sua fé. O que julgavam ser fé era apenas fanática presunção. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 357.

A seguinte excelente advertência foi dada contra o manter uma atitude ousadamente confiante em relação à maneira de enfrentar a futura crise:

Aqueles que estão mais bem preparados para sacrificar inclusive própria vida, se necessário, em vez de se colocarem numa posição na qual poderiam não obedecer a Deus, são os que menos tem a dizer. Não se vangloriam. Meditariam muito e suas sinceras orações ascenderiam ao Céu, suplicando sabedoria para agir e graça para suportar. Aqueles que sentem que no temor de Deus não podem conscienciosamente se envolver nesta guerra, ficarão bem quietos, e quando interrogados, simplesmente declararão o que tem obrigação de dizer para responde a pergunta do inquiridor, e então deixarão claro que não simpatizar com a Rebelião. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 357.

A inveja e a falta de unidade entre os líderes do exército nortista foram declaradas neste testemunho como sendo grandemente responsáveis pelo prolongamento da luta e pelas muitas baixas nas forças federais.3

Conselho Relativo ao Alistamento

Ellen White volta-se para certas fases muito práticas da crise dos tempos. Com referencia à nossa lealdade para com o governo ela escreveu:

Vi que o nosso dever em cada caso é obedecer às leis de nossa pátria, a menos que se oponham às que Deus proferiu com voz audível do Monte Sinai, e depois, com o próprio dedo, gravou em pedra. “Porei as Minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; e Eu lhes serei por Deus, e eles Me serão por povo.” Heb. 8:10. Quem tem a lei de Deus escrita no coração, obedecerá mais a Deus do que aos homens, e preferirá desobedecer a todos os homens a desviar-se um mínimo que seja dos mandamentos de Deus. O povo de Deus, ensinado pela inspiração da verdade, e guiado por uma consciência pura a viver segundo toda palavra de Deus, terá a Sua lei, escrita no coração, como única autoridade que reconhecem ou consentem em obedecer. Supremas são a sabedoria e a autoridade da lei divina. – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 361.

Com o princípio estabelecido de que o cristão deve obedecer às leis do país, a menos que estejam em conflito com a lei mais alta de Deus, Ellen White chega a um ponto muito crítico – aquele do recrutamento que não prevê a liberdade da consciência. Citamos o seguinte parágrafo do testemunho:

Foi-me mostrado que o povo de Deus, que é Seu peculiar tesouro, não pode se envolver nesta desconcertante guerra, pois ela se opõe a to dos os princípios de sua fé. No exército não podem obedecer à verdade e ao mesmo tempo obedecer às exigências de seus oficiais. Haveria uma contínua violação da consciência. Homens mundanos são governados por princípios mundanos. … Mas o povo de Deus não pode ser governado por esses motivos. …

Aqueles que amam os mandamentos de Deus concordarão com todas as boas leis da terra. Mas se as exigências dos governantes são tais, que entrem em conflito com as leis de Deus, a única pergunta a ser feita é: Obedeceremos a Deus ou aos homens? – Testemunhos Para a Igreja, vol. 1 , p. 361, 362; grifo nosso.

O leitor deve ter em mente que quando esta declaração foi publicada, em janeiro de 1863, ainda não havia sido promulgada a convocação. Todo o serviço militar nas forças da União era feito em base de alistamento simplesmente. Um homem entrava no exército através da apresentação voluntária de seus servidos e ao mesmo tempo se colocava, sem reservas, às ordens de seus oficiais. Havia um agudo conflito com o quarto e sexto mandamentos da lei de Deus. Nada estava previsto quanto à guarda do sábado e à não-combatência. “No exército” não podiam “obedecer à verdade e ao mesmo tempo obedecer às exigências de seus oficiais”.

Deveríamos fazer uma pausa para observar nessa conjuntura que muitos interpretam essa declaração de que “no exército” os adventistas do sétimo dia “não podem obedecer à verdade e ao mesmo tempo obedecer às exigências de seus oficiais” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 361) como significando que em tempo algum e sob nenhuma circunstância pode um adventista do sétimo dia ser leal a Deus e envolver-se com serviço militar. Deve-se reconhecer que Ellen White estava falando de circunstancias em conexão com “esta desconcertante guerra” – a Guerra Civil – no período em que o serviço militar estava apenas em base de alistamento, e não haviam sido previstos os casos de convicção individual de consciência.4

A Primeira Lei de Alistamento e o Recrutamento

Em março de 1863, um pouco menos de três meses depois da publicação do artigo mencionado acima, com seus orientadores conselhos, o Congresso dos Estados Unidos promulgou um ato para “o alistamento de todos os cidadãos do sexo masculino, fisicamente capazes, entre as idades de 18 e 45” e o presidente foi autorizado a fazer os recrutamentos para o serviço militar.

Nesse recrutamento de marco de 1863, foi estabelecido que um recruta poderia ser dispensado – ou através da apresentação de um substituto ou através do pagamento de US$ 300,00. Essa provisão foi recebida pelos adventistas como providencial meio de evitar serviços combativos e conflitos com a observância do sábado, mas também trazia consigo a ameaça de um novo e crescente perigo. Com tal exigência de recursos para a compra de substitutos, o interesse financeiro da Causa estava em perigo. Reconhecendo esse perigo, Tiago White escreveu:

O avanço da mensagem do terceiro anjo é o mais alto objetivo pelo qual podemos trabalhar nesta terra. Seja qual for o sofrimento que possa existir em qualquer outra parte, esta causa deveria ser a última a sofrer por causa da falta de recursos. No caso de nossos irmãos serem recrutados, deveriam, se possível, amortizar suas propriedades para levantar os 300 dólares, em vez de aceitar meios que deveriam ir para a tesouraria do Senhor. Diríamos isto inclusive a nossos mi­nistros. – Review and Herald, 24 de novembro de 1863.

Ao insistir em que o dinheiro levantado pela Benevolência Sistemática não deveria ser diminuído ou desviado do sustento do ministério, ele citou sua própria prática. Sem diminuir seu costumeiro pagamento anual para esse fundo, ele havia posto de lado uma quantia igual para ajudar ministros, no caso de serem convocados. Um ano mais tarde ele considerou “um privilegio” o pagamento de “dez dólares a cada eficiente ministro que for recrutado dentre nós, para ajudá-lo a pagar os $ 300.” – Review, and Herald, 27 de setembro de 1864.

Desse modo ele estabeleceu um exemplo de fidelidade na manutenção da causa e na ajuda aqueles que poderiam ser envolvidos pela convocação. Um espírito semelhante foi manifestado em todo o campo. Um de nossos ministros, o pastor Isaac Sanborn, na iminência de pagar uma nota que estava por vencer, inseriu uma nota na Review and Herald declarando que ele havia tomado emprestados US$150,00 para livrar um outro irmão do recrutamento, e solicitando a a­juda de qualquer pessoa que pudesse auxiliá-lo nessa “empresa”. Foi esse espírito de ajuda mútua em prover fundos para o pagamento de taxas e isenções que tornou possível, na maioria dos casos, que nossos irmãos evitassem sérios conflitos quanto à questão do porte de armas.

Providências Básicas para os Não-Combatentes

Na “Lei do Alistamento”, de março de 1863, a primeira lei de conscrição aprovada pelo Congresso dos Estados Unidos, foi feita provisão pelo Governo Federal para que “os membros de denominações religiosas, que por juramento ou afirmação declararem ser conscienciosamente oponentes ao porte de armas” serão, quando recrutados, “considerados não-combatentes”. Poderão, então, ser designados para hospitais, para o cuidado de recém-libertos ou poderiam garantir-se o privilegio da isenção concedida àqueles que pagassem os US$ 300,00.

Enquanto vigorou a provisão geral para a libertação de qualquer recruta do ao serviço militar através do pagamento de US$300, nenhum passo foi tomado pelos adventistas do sétimo dia para obter o reconhecimento como não combatentes. Nossa denominação era nova e seus membros relativamente poucos e desconhecidos. Assim, por mais de um ano, a maior parte de nossos homens, quando recrutados, conseguiam a isenção através do pagamento dos US$300,00.

Mas uma nota assinada em 4 de julho de 1864 revogou “a cláusula comumente conhecida como a clausula da isenção dos $ 300,00”, exceto para aqueles “conscienciosamente contrários ao porte de armas”. Essa decisão precipitou a crise, pois se os adventistas do sétimo dia queriam assegurar os continuados benefícios da isenção, ou assegurar o status de não-combatentes no caso de serem convocados, deveriam agora publicamente declarar sua posição e atitude.

Prontamente foram dados passos para enfrentar a questão. Dia 3 de agosto foi colocada diante de Austin Blair, governador de Michigan, uma declaração de princípios, assinada pela Mesa Administrativa da Associação Geral, dando as razões pelas quais os adventistas do sétimo dia “não se sentiam livres para se alistarem no serviço”, e querendo o endosso do governador para a declaração de que “como um povo nos colocamos sob o último voto do Congresso, no que respeita aqueles que conscienciosamente se opõem ao porte de armas, e têm direito aos benefícios das mencionadas leis”.

O governador de Michigan prontamente deferiu esse requerimento.

Passos semelhantes foram dados em outros estados, como Wisconsin, Illinois e Pennsylvania, com igualmente satisfatórias respostas dos governadores. Esses endossos, juntamente com cartas de recomendação de certos oficiais militares, foram levados a Washington, D. C., pelo pastor J. N. Andrews, que os entregou ao Marechal James B. Fry.

Os Adventistas do Sétimo Dia São Reconhecidos Como Não-Combatentes

O Sr. Fry declarou ao pastor Andrews que ele interpretava a cláusula de isenção da lei do alistamento como aplicando-se a qualquer denominação que mantivesse pontos de vista de não-combatência, e expediu ordens a todos os marechais de acordo com essa interpretação da cláusula de isenção. Deu instruções pormenorizadas quanto à maneira em que nossos irmãos deveriam agir, se convocados, a fim de receberem o privilégio da isenção através do pagamento de US$ 300 ou serem designados a serviço de não-combatência. Muitos dos convocados tiraram proveito da cláusula de isenção pelo pagamento dos US$ 300. Mas alguns dos que foram recrutados requereram uma designação para trabalhos de não-combatência.

Para não faltar à verdade, declaramos que certo número de irmãos, tendo sido convocados, entraram no exército em fins de 1864 e foram tratados injustamente pelos oficiais locais, que se recusaram a reconhecer a provisão feita na lei. Sob as mais probantes circunstâncias, nossos jovens permaneceram leais ao Deus do céu, enquanto cumpriam seus deveres para com os semelhantes. Esforçaram-se para deixar brilhar a sua luz no exército. Atendendo ao seu pedido de literatura, foi levantado um fundo para a compra de folhetos, a fim de que eles recebessem material de leitura a ser distribuído entre seus colegas. Muitas cartas foram recebidas desses homens recrutados, cujo pedi­do de isenção do porte de armas foi irritadamente recusado. Duas dessas cartas foram publicadas numa edição de Review and Herald, com uma nota de Tiago White, como segue:

A experiência que eles apresentam não parece ser a exceção, mas a regra. Ainda não soubemos de qualquer que, apesar de sua posição de não-combatente ter sido referendada pelos marechais de seus distritos, com os devidos certificados, tenha conseguido alguma posição em hospitais ou no cuidado com os recém-libertos. E até mesmo os marechais algumas vezes recusam endossar requerimentos de nossos irmãos, apesar de todas as evidências como não-combatentes. – Review and Herald, 24 de janeiro de 1865.

Luz Especial Com Respeito ao Recrutamento

Nessas circunstancias foi levantada uma pergunta, e com razão: “Deu o Senhor luz a Ellen White a respeito da orientação a ser dada aos líderes da igreja quanto aos passos tomados em 1863 e 1864, relativamente ao serviço militar, ou aprovando o procedimento seguido?”

Essa pergunta é vitalmente importante para nós hoje, pois a posição da denominação com respeito ao serviço militar está baseada na “posição histórica” tomada nos dias da Guerra Civil.

Nos conselhos de Testemunhos Para a Igreja, volume 1, onde se trata desse período de nossa história, não há informação direta quanto a esse ponto. Depois de janeiro de 1863 não há pronunciamentos relativos à Guerra Civil ou ao recrutamento. Não tivesse a guerra terminado num período de tempo tão curto depois da efetivação do recrutamento com todos os seus problemas, e sem dúvida teria sido publicado algum conselho. É lógico concluir por inferência que, ao sentirem os líderes da obra sua preocupação sobre essa questão crucial, mantiveram estreito contato com a Sra. White, e que foram guiados pela luz que ela recebeu do Senhor. É igualmente lógico concluir que, se na ausência de qualquer luz eles tomaram uma posição com referência ao serviço militar, em desarmonia com a vontade de Deus, o Senhor lhes teria enviado uma mensagem quanto a isso, e o procedimento teria sido alterado por conselhos corretivos. Tudo isso parece razoável e lógico.

Mas não fomos deixados apenas com inferências e conclusões lógicas sobre um assunto de tanto interesse e vital importância para nossos rapazes ao redor do mundo. É realmente gratificante observar que os líderes da igreja foram avante com cuidado e oração, enfrentando as crises à medida que surgiam, encontrando “posições históricas” que nós, como denominação, adotamos com referência à convocação. Eles assim fizeram em harmonia com a luz dada por Deus através do Espírito de Profecia. Ellen White faz referência direta a isso, umas duas décadas após o término da Guerra Civil, numa carta a lideres da igreja, os pastores G. I. Butler, presidente da Associação Geral, e S. N. Haskell, pioneiro executivo e evangelista. Ellen White, então na Europa, tinha diante dela certas perguntas que esses irmãos lhe haviam formulado e, ao responder , olha para trás e comenta, com referencia a conveniência de os líderes da igreja procurarem uma saída para medidas opressivas:

Indagais relativamente à direção que deve ser seguida no assegurar os direitos de nosso povo para adorar segundo os ditames de nossa própria consciência. Isto foi uma preocupação para minha alma por algum tempo – se seria uma negação de nossa fé e prova de que nossa confiança não estava plenamente em Deus. Mas lembro muitas coisas que Ele me tem mostrado no passado quanto a coisas de caráter semelhante, como o sorteio [recrutamento] e outras. Posso dizer no temor de Deus: é direito fazermos tudo ao nosso alcance para desviar a pressão que está sendo imposta a nosso povo. Carta 55, 1886 em Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 334-335.

Dessa forma temos a resposta certa. O Senhor deu a Ellen White luz direta e definida, ajudando os líderes da igreja a chegarem à posição que tomaram naquela ocasião, a qual ainda mantém com relação ao serviço militar dos adventistas do sétimo dia.

Um Convite a Oração

Ao continuar, em 1865, o conflito entre as forças do Norte e do Sul, o presidente Lincoln fez outra convocação – e desta vez para 300.000 homens.

Os lideres adventistas estavam consternados. Sobre o significado que isso teria sobre a igreja, escreveu o pastor White:

Conta-se que no próximo recrutamento será alistado um entre cada três homens fisicamente aptos. Supõe-se que essa proporção de adventistas do sétimo dia será envolvida, isto é, um em três. Nesse caso, se    cada um pagasse os $100, isso seria suficiente para pagar $300 por todos os convocados no próximo recrutamento. – Review and Herald, 24 de janeiro de 1865.

Depois de encabeçar a lista, com seu próprio compromisso de doar cem dólares para um fundo em benefício especialmente de seus coobreiros, Tiago White instou com outros para que se unissem a ele, e concluiu com estas palavras: “Se esta guerra continuar, somente Deus saberá o que pode acontecer mesmo com os não-combatentes”.

Num enfático editorial, na semana seguinte, o pastor White expressou sua convicção pessoal, dizendo que a impressionante petição do anjo de Apocalipse 7:3: “Não danifiqueis nem a terra, nem o mar, nem as árvores, até que selarmos na fronte os servos do nosso Deus”, simbolizava a fervorosa oração da parte do leal povo de Deus naquele período da terrível guerra americana. Recomendou ele aos membros da igreja:

Que a oração e ação de graças por aqueles em autoridade constituam uma parte adequada do serviço sabático e outros tipos de culto público, bem como das devoções familiares e particulares.

E também que o segundo sábado de cada mês seja separado especialmente para jejum e oração, tendo em vista esta atual guerra, terrível, e as relações peculiares que não-combatentes sustentam com o governo, para que continuem gozando de liberdade de consciência, vivendo vidas pacíficas e tranqüilas em toda piedade e honestidade. – Review and Herald, 31 de janeiro de 1865.

Essa recomendação pessoal foi formalmente adotada pela Mesa Administrativa da Associação Geral, que fez especialmente um apelo para a dedicação do segundo sábado de fevereiro como um dia de jejum e oração pelos objetivos especificados no artigo do pastor White. Algumas semanas mais tarde outro apelo para a humildade e oração foi feito pela Mesa Administrativa, num artigo de duas colunas, intitulado “Chegou o Tempo Para o Cumprimento de Apocalipse 7:3”. Os irmãos foram incentivados.a colocarem de lado quatro dias, de quarta-feira, 1° de março, a sábado, 4 de março, como dias de “oração fervorosa e importuna”. O trabalho secular deveria ser suspenso, os serviços da igreja seriam realizados todos os dias, iniciando às 13 horas, e duas reuniões seriam feitas no sábado. A sinceridade e confiança dos irmãos que assinaram esse compromisso é refletida neste parágrafo conclusivo:

O número dos servos de Deus será selado, pois o profeta assim o declara; mas não antes que um sincero trabalho seja efetuado por parte da igreja. Cremos firmemente que chegou o tempo de agirmos – e então se seguirá o trabalho de selamento, ou o alto clamor da terceira mensagem – e então o triunfo – e então a transladação – e então a vida eterna. Amém. – Review and Herald, 21 de fevereiro de 1865.

Entre as condições que seriamente afetaram a Causa estava a grande e crescente carga financeira para levantar fundos para a isenção dos não-combatentes do recrutamento. Estimou-se que para assegurar a isenção daqueles que seriam convocados, da igreja de Battle Creek, haveria um gasto de uma quantia maior que a de seu dízimo durante os quatro anos precedentes, ou para toda a causa, de 25 a 40 mil dólares. Milhares de pessoas que poderiam estar ouvindo e aceitando a verdade, estavam sendo arrastadas para os campos de carnificina. E enquanto a mente da nação estava tão absorta na pavorosa luta, era quase impossível chamar a atenção de suas mentes para assuntos religiosos.

Com esses efeitos retardatários sobre a disseminação da mensagem, causados pela guerra, a Mesa Administrativa da Associação Geral em seu apelo declarou que a denominação fora trazida para um ponto onde “se a guerra continuar, seremos obrigados a parar”. Então, confiantemente, sua esperança e fé foram expressas:

Descansando em Deus, e tendo confiança na eficácia da oração, e nas indicações de Sua palavra profética, cremos que o trabalho de Deus não pode ser impedido. … O trabalho de Deus nestes últimos dias não deve, não irá parar. – Review and Herald, 21 de fevereiro de 1865.

E foi assim que no dia de sábado, 4 de março de 18365, quando Abraão Lincoln tomou posse pela segunda vez como presidente dos Estados Unidos5 dez mil adventistas do sétimo dia estavam rogando ao céu pelo bem da causa da verdade, que estava sendo impedida, que a guerra pudesse terminar em breve. Dia 9 de abril de 1865, o General Lee rendeu-se e a longa e desastrosa guerra se encerrava literalmente. Escreveu Tiago White:

No ar retumbavam gritos: Richmond foi tomada! Lee rendeu-se! Cidades e vilas se iluminaram. Fogueiras e rojões iluminavam o céu, enquanto vivas a Lincoln, Grant, Sherman e Sheridan soavam repetidamente. Mas o leal povo de Deus se encontrava de joelhos, bendizendo o Céu pela resposta a suas orações, e chorando de alegria por causa da fidelidade de Deus em cumprir Sua palavra. – Review and Herald, 25 de abril de 1865.

Pouco percebemos hoje o quanto devemos aos pioneiros que, naqueles dias de perplexidade, foram levados a adotar uma atitude em relação à guerra, a qual os capacitou a manter o respeito dos oficiais do governo, por sua lealdade aos poderes constituídos, e isso sem comprometer sua lealdade a Deus em obediência a Seus mandamentos. A história que eles relataram naquele tempo possibilitou nossos jovens a serem reconhecidos, não como pacifistas, mas como não-combatentes, prontos a dar completo apoio a seus governantes terrestres, enquanto não violassem suas consciências em assim fazendo.

Reconhecimento de Leis de Serviço Militar Européias

Quando Ellen G. White, em atendimento ao convite da Associação Geral, passou dois anos trabalhando na Europa (1885-1887), viu-se face a face com os problemas que nossos rapazes de lá precisavam enfrentar no que dizia respeito ao serviço militar. Enquanto vivia no edifício-sede em Basiléia, Suíça, erigido para servir como centro de onde nossa obra na Europa devia ser dirigida, três dos rapazes empregados na tipografia, no andar térreo, foram convocados para prestar suas três semanas no exercício militar compulsório, requeridas anualmente de cada rapaz na Suíça. Não havia sido da­do nenhum conselho para que os rapazes resistissem ou desconsiderassem tal convocação, nem que recusassem vestir os uniformes do país, requeridos em tal serviço.

A referência feita por Ellen White naquela época, em relação à experiência, é esclarecedora:

Acabamos de despedir-nos de três de nossos homens de responsabilidade no escritório, os quais foram convocados pelo governo para servir por três semanas em manobras militares. Era uma importante etapa de nosso trabalho na casa publicadora, mas os chamados do governo não se acomodam às nossas conveniências. Exigem que os jovens a quem aceitaram como soldados não negligenciem o exercício e treino essencial para o serviço militar. Alegramo-nos por ver que esses homens com suas fardas tinham condecorações por sua fidelidade no trabalho. Eram jovens fidedignos.

Esses não foram por sua livre vontade, mas porque as leis de seu país assim exigiram. Demos-lhes uma palavra de animação a que fossem achados soldados fiéis da cruz de Cristo. Nossas orações seguirão esses rapazes, para que os anjos de Deus os acompanhem e os guardem de toda tentação. – Ellen G. White, carta 23, 1886 em Mensagens Escolhidas, vol. 2, p. 335.

Chegamos à conclusão lógica, pois, que através dos anos, a senhora White reconheceu o dever dos jovens de servirem seu país, quando convocados para o serviço militar.

Quando explodiu a I Guerra Mundial, Ellen White tinha idade bem avança da e não deu instrução alguma por escrito quanto aos deveres de nossos homens para com as exigências do serviço militar. Em conversa pessoal ela aconselhou contra a atitude de desafiar as autoridades militares.

Assim, através dos anos, encontramos uma consistência na instrução e nos conselhos, que nos dão a certeza de a igreja, ao encontrar a solução para o problema relacionado à atitude que seus jovens deveriam tomar durante o serviço militar, fê-lo em harmonia com os conselhos do Espírito de Profecia, dados por Deus para orientar e guardar Seu povo.

Publicações E. G. White
Washington 12, D. C.
15/6/1956


[*] Manuscrito preparado por W. C. White, D. E. Robinson e A. L. White, dando conta pormenorizada e cuidadosamente documentada de como os Adventistas do Sétimo Dia enfrentaram a crise da Guerra Civil, no que se relaciona à convocação, ao sábado e ao porte de armas – e ampliado por A. L. White para incluir todos os trechos disponíveis da pena de Ellen G. White relacionados ao assunto. Extratos do esboço original apareceram em Review and Herald, 26 de novembro de 1936, como parte de uma série de artigos intitulada “Sketches and Memories of James and Ellen White” (Esboços e Memórias de Tiago e Ellen White).

1 Em uma reunião de oração na igreja de Battle Creek, realizada na noite de domingo, 6 de março de 1859, com a presença de Tiago e Ellen White, chegou-se à conclusão de que seria aconselhável que os adventistas observadores do sábado votassem na eleição municipal do dia seguinte, em prestando seu apoio aos candidatos que estivessem ao lado dos princípios de temperança. (Ver Temperança, p. 255-256).

2 Para pormenores adicionais sobre essa visão e seu exato cumprimento, ver John Loughbourough, The Great Second Advent Movement, p. 337-340.

3 Poucas semanas depois da publicação deste testemunho, apareceu na Review uma longa carta do irmão Otis Nichols, contendo anexos, recortes de jornal que confirmavam as declarações concernentes à conduta da guerra, também àqueles membros do exército do Norte, traidores da causa pela qual deveriam estar lutando. Ele fez referência à declaração positiva da Sra. White, no sentido de que “eles (o Sul) não triunfarão por comple sobre os exércitos do Norte”.

4 Com referência a alguns desses conselhos que deveriam ser estudados relação ás circunstancias, Ellen G. White declarou em ocasião posterior: “Quanto aos testemunhos, coisa alguma é ignorada; coisa alguma é rejeitada; o tempo e o lugar, porém, têm que ser considerados” (The Writing and Sending Out of the Testimonies to the Church, p. 25, em Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 57).

5 Em seu discurso de posse, o presidente Lincoln disse: “Ansiosamente esperamos e fervorosamente oramos para que este grande flagelo da guerra passe em breve. Contudo, se Deus quiser que ele continue até que se dissipe toda a riqueza acumulada pelo labor não remunerado dos escravos, durante duzentos e cinqüenta anos, e até que cada gota de sangue derramada pelo açoite seja paga com outra gota vertida pela espada, como foi dito há três mil anos, ainda assim deve-se dizer que os juízos do Senhor são justos e verdadeiros.” – Citado em Review and Herald, 21 de março de 1865.