O Dom Profético

Nas Escrituras e na história adventista

Comentário da Lição da Escola Sabatina

Lição 3 – 10 a 17 de janeiro de 2009

1º TRIMESTRE DE 2009


DONS ESPIRITUAIS E PROFECIA

Lição 3 – 10 a 17 de janeiro 

Pr. Renato Stencel
Diretor do Centro White – Brasil
Renato.Stencel@unasp.edu.br

I. Introdução

A  igreja cristã primitiva se originou sob a manifestação de um poder divino adicional, conforme prometido por Jesus Cristo quando disse: “Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis Minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da Terra” (At 1:8). Tal poder se materializou por meio do Espírito Santo que distribuiu ‘dons espirituais’ com a finalidade de capacitar a Igreja para o cumprimento da missão evangélica (Mc 16:15).

A Igreja Adventista do Sétimo Dia (IASD) crê na existência e operação dos dons espirituais como parte determinante na preservação de sua unidade e capacitação para que seus membros possam levar ao mundo o último convite de salvação conforme descrito em Apocalipse 14:6-12. Sem o auxílio divino, seria humanamente impossível a pregação do evangelho ‘a toda criatura’. Desta forma, assim como Jesus recebera dotação especial do Espírito Santo a fim de Se habilitar para o ministério (At 10:38), também os discípulos receberam o batismo do Espírito Santo (At 1:5) a fim de serem qualificados para testemunhar.

Ao longo da história do cristianismo, podemos observar que os dons espirituais exerceram papel decisivo na pregação do evangelho. Já no Pentecostes, o batismo do Espírito Santo produziu resultados extraordinários. Muitos passaram a falar em outras línguas (At 2:2); o evangelho foi pregado com grande poder e milhares se converteram (At 2:41); muitos prodígios e sinais foram feitos pelos apóstolos (At 2:43); houve harmonia e unidade entre os seguidores de Cristo (At 2:44); operação de milagres e curas (At 3:6); expulsão de demônios (At 5:16); ressurreição de mortos (At 9:40), etc.

Tais dons foram distribuídos pelo Espírito Santo aos crentes para a “edificação ou erguimento da Igreja. As necessidades da obra do Senhor determinam o que e a quem o Espírito distribui dons. Nem todos recebem o mesmo dom. Paulo mostrou que a um o Espírito concede sabedoria, a outro conhecimento, a outro fé, a outro milagres, a outro profecias, a outro o discernimento de espíritos, a outro línguas, e a outro a interpretação de línguas” (1Co 12:7-11)1. No entanto, todo mérito e valor dessa dádiva devem ser atribuídos ao Doador, e não à pessoa que recebeu o dom. Portanto, o dom jamais pode ser considerado como uma propriedade particular do indivíduo.

De acordo com a Palavra de Deus em Joel 2:28,29, a manifestação desse poder será observada de forma grandiosa e notável por ocasião do tempo do fim. Conforme o Espírito de Profecia, “a grande obra do evangelho não deverá encerrar-se com menor manifestação do poder de Deus do que a que assinalou o seu início. As profecias que se cumpriram no derramamento da chuva temporã no início do evangelho, devem novamente cumprir-se na chuva serôdia, no final da pregação do evangelho”.2

Ao fazer menção deste período, Ellen White afirmou que os “servos de Deus, com o rosto iluminado e a resplandecer de santa consagração, apressar-se-ão de um lugar para outro para proclamar a mensagem do Céu. Por milhares de vozes em toda a extensão da Terra, será dada a advertência. Operar-se-ão prodígios, os doentes serão curados, e sinais e maravilhas seguirão os crentes”.3

II. Dons falsos

Porém, ao observarmos a manifestação dos dons espirituais na igreja cristã, precisamos estar atentos às próprias palavras de Jesus: “Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24:24). O apóstolo Paulo também advertiu seus ouvintes dizendo: “Ora, o aparecimento do iníquo é segundo a eficácia de Satanás, com todo poder, e sinais, e prodígios da mentira” (2Ts 2:9). Tais passagens nos levam a concluir que, nos últimos dias, o inimigo estará pronto para colocar em jogo sua contrafação mais sinistra – o engano.

Ao vislumbrar o desfecho da história humana, o Espírito Santo revelou a Ellen White a seguinte mensagem: “Antes de os juízos finais de Deus caírem sobre a Terra, haverá, entre o povo do Senhor, tal avivamento da primitiva piedade como não fora testemunhado desde os tempos apostólicos… Nosso inimigo deseja estorvar esta obra; e antes que chegue o tempo para tal movimento, esforçar-se-á para impedi-la, introduzindo uma contrafação. Nas igrejas que puder colocar sob seu poder sedutor, fará parecer que a bênção especial de Deus foi derramada; manifestar-se-á o que será considerado como grande interesse religioso. Multidões exultarão de que Deus esteja operando maravilhosamente por elas, quando a obra é de outro espírito. Sob o disfarce religioso, Satanás procurará estender sua influência sobre o mundo cristão”.4

Atualmente, muitos cristãos têm buscado desfrutar uma nova experiência religiosa quanto à percepção da presença de Deus na vida. Tais experiências se manifestam de forma espontânea, desinibida, livre, nas quais o adorador se expressa como quer: chora, dança, bate palmas, entra em transe, fala em línguas, etc. Nessa espécie de religião, Deus aparece como um ser imanente, acessível e tolerante. Desta forma, experimentar o sobrenatural e viver uma fé emotiva parece ser a tônica da nova religiosidade cristã5. Com base em tais evidências, perguntamos: Poderia ser que aquilo que estamos observando no mundo cristão de hoje represente uma clara prova das contrafações preditas nas Escrituras e no Espírito de Profecia?

Entre os principais fenômenos de contrafações (sinais e prodígios malignos) que vêm sendo utilizados como manifestação do poder divino no moderno cristianismo, destacam-se o “dom de línguas, a cura e o dom de profecia”.6

1. O dom de línguas

Fiéis seguidores de muitas igrejas clamam para si o dom de línguas, ou seja, que são dotados de um poder sobrenatural para falar em outras línguas – fenômeno conhecido como glossolália. O dom de falar em línguas é o mais importante fenômeno e o mais evidente sinal da presença do Espírito no culto pentecostal. Contudo, o dom de falar em línguas, conforme compreendido pelos pentecostais, se distingue plenamente do dom do Espírito manifesto em Atos 2.

Como praticado pelos pentecostais, a glossolália é uma linguagem incompreensível, que emerge do inconsciente e que não exerce a capacidade racional do adorador. Charles e Francis Hunter dois especialistas em dom de línguas pentecostais afirmam que “ao orar com seu espírito, você não precisa pensar nos sons da linguagem… Em princípio, produza sons rapidamente para que você não seja tentado a pensar enquanto estiver falando sua linguagem natural”.7 A prática de desligar a mente e desconectá-la de todo exercício racional é uma das características mais marcantes dos cultos pagãos.

Muitos estudiosos no campo da ciência linguística têm efetuado diversos estudos a fim de examinar a veracidade na comunicação desses indivíduos. Seus achados comprovam que tais manifestações não representam uma comunicação em outras línguas, mas atestam uma forma de linguagem inarticulada e inacessível.

Ao vislumbrar a manifestação desse dom nas igrejas, o Espírito de Profecia nos adverte que “alguns seguidores têm certas práticas que eles denominam de dons e alegam que o Senhor os colocou na igreja. Possuem uma linguagem inarticulada [sem sentido] a qual afirmam ser uma língua desconhecida não apenas pelo homem, mas pelo Senhor e todo o Céu. Tais dons são produzidos por homens e mulheres e têm o auxílio do grande enganador. Fanatismo, falsa excitação, falso dom de línguas e manifestações barulhentas são considerados dons que Deus colocou na igreja. Alguns são enganados aqui. O fruto de tudo isso não é bom”.8

2. O dom de cura

Durante Seu ministério, Jesus curou muitos enfermos e, logo após Sua ascensão, afirmou aos Seus discípulos: “Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em Meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados” (Mc 16:17,18).

Por meio da mídia televisiva, a cada dia podemos observar inúmeros pregadores que alegam operar o dom de cura. Normalmente, os doentes são colocados em fila para receber o toque milagroso. Geralmente, ao serem tocados pelo pregador, caem no solo e ali permanecem estáticos por alguns instantes. Muitas igrejas que se dizem cristãs têm promovido cultos empolgantes que se baseiam numa espécie de “fé” que visa a proporcionar saúde, riqueza e prosperidade.

Em sua obra Healing: A Doctor in Search of a Miracle (cura: Um médico em busca de um milagre), o Dr. W. A. Nolan efetuou um estudo com a finalidade de testar aqueles que alegam ter sido curados em diversas igrejas que manifestam o dom de cura. Em seu estudo ele afirmou o seguinte: “Pesquise os livros, como eu fiz, e você não encontrará registros de curas de cálculos biliares, doenças cardíacas, câncer ou qualquer outra doença orgânica grave. Certamente, você encontrará pacientes temporariamente aliviados de seus distúrbios estomacais, dores no peito, problemas respiratórios; e você descobrirá que os que operam curas e os crentes irão interpretar esta interrupção dos sintomas como evidência de que a doença foi curada. Mas quando você localiza o paciente a fim de descobrir o que ocorreu após o ato da cura, você verificará que a “cura” foi meramente sintomática e passageira. A doença ainda persiste”.9

Em face de tais evidências, podemos levantar a seguinte pergunta: Qual é a fonte operante desse poder curador? Ao fazer referência às manifestações de cura, Ellen G. White declarou: “Cenas assombrosas, com as quais Satanás estará intimamente ligado, terão lugar em breve. A Palavra de Deus declara que Satanás operará milagres. Fará com que as pessoas fiquem doentes, e depois, de repente, removerá delas seu poder satânico. Serão consideradas, então, como curadas. Essas obras de cura aparente levarão os adventistas do sétimo dia à prova”.10

É notório ressaltar que nem todas as manifestações de curas são provenientes do inimigo, mas, como cristãos, devemos estar sempre alertas quanto às suas contrafações que visam a promover milagres e prodígios. No entanto, precisamos compreender que Deus responde à oração da fé, a fim de salvar o enfermo (Tg 5:14, 15). Essa espécie de cura representa a genuína manifestação da graça divina que opera milagres em favor daquele que crê no poder de Deus.

3. O dom de profecia

Ao longo da história da IASD, o dom de profecia tem exercido uma função de capital importância no processo de sua estruturação, desenvolvimento e missão. Como membros, cremos que o dom de profecia foi renovado no período do fim dos tempos na pessoa de Ellen G. White. Por outro lado, cremos também que esse dom deve ser posto à prova pela Palavra de Deus.

Desde seus primórdios, os pioneiros da IASD tiveram que conviver com manifestações de falsos profetas. Por volta de 1840, surgiram muitos indivíduos alegando possuir o dom profético. Sendo assim, “o extremo fanatismo e as manifestações estranhas associadas com os falsos profetas fizeram com que homens e mulheres equilibrados olhassem com aversão qualquer pessoa que pretendesse falar em nome de Deus”.11

Nesse período apareceram os seguintes personagens que alegavam o dom de profecia: (a) Joseph Smith Jr., fundador da Igreja dos Mórmons em 1830; (b) Ann Lee Stanley, criadora do movimento Shakers (1837 a 1844), o qual se envolvia com comunicações espiritualistas, e (c) As irmãs Fox, que deram início ao espiritismo em 1848.

Não se pode negar também a incidência de pretensos profetas que se levantam em nossos dias a fim de proferir seus prognósticos, visando a impressionar a mente daqueles que almejam desvendar as cortinas do futuro. Suas predições podem variar em conteúdo. Por exemplo, em face do abuso dos dons espirituais, um pretenso profeta, por nome Bob Jones, da cidade de Kansas, EUA, previu a morte de mil líderes religiosos em 1989. Ele também previu uma nova linhagem de seres humanos a qual chamou de “a semente eleita” que fora criada por Deus em 1973. Dessa estirpe seria formada uma super igreja, a qual se tornaria dez mil vezes maior que a igreja descrita no livro de Atos.12

Ao pregar Seu último sermão aos discípulos, Jesus os alertou sobre o tempo do fim: “levantar-se-ão muitos falsos profetas e enganarão a muitos” (Mt 24:11). À luz do tema do grande conflito, podemos concluir que o inimigo está atuando com o fim de confundir a mente dos filhos de Deus de tal forma que estejam incapacitados para aceitar e reconhecer o conteúdo dos escritos e o ministério de um profeta verdadeiro. Precisamos notar que “mentir e enganar são ferramentas do ofício de Satanás. Ele investiga os desejos dos homens e mulheres para depois produzir o que parece ser a confirmação religiosa de seus desejos. Em outras palavras, as pessoas geralmente encontram a mensagem ‘profética’ que seu coração deseja”.13

III. Conclusão

Ao encerrarmos nosso estudo, é necessário observar que o cumprimento da promessa divina quanto ao derramamento do Espírito Santo trará à Igreja um poder sobrenatural, que habilitará seus membros na conclusão da pregação evangélica. Porém, devemos estar atentos, pois o inimigo está pronto para apresentar suas contrafações a fim de “enganar, se possível, os próprios eleitos” (Mt 24:24). Desta forma, precisamos ponderar nas palavras do apóstolo João, que disse: “Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora” (1Jo 4:1).


Bibliografia

1 Nisto Cremos – Ensinos Bíblicos dos Adventistas do Sétimo Dia. Tatuí, SP. Casa Publicadora Brasileira, 2003, p. 282.

2 White, E.G. O Grande Conflito. Tatuí, SP. Casa Publicadora Brasileira, 1987, p. 617.

3 Ibidem, p. 617.

4 Ibidem, p. 465, 466.

5 Dorneles, V. Cristãos em busca do êxtase. Engenheiro Coelho, SP. UNASPRESS, 2007, p. xiii.

6 Pfandl, G. The gift of prophecy – The role of Ellen G. White in God’s Remnant Church. Nampa, ID. Pacific Press Publishing Association, 2008, p. 32.

7 Charles Hunter, Receiving the baptism with the Holy Spirit. Charisma, July, 1989, p. 54. Citado por Pfandl, G. The gift of prophecy. Nampa, ID. Pacific Press Publishing Association, 2008, p. 33.

8 White, E.G. Spritual Gifts, (v. 4), 1864, p. 153.

9 W.A. Nolan, Healing: A Doctor in Search of a Miracle. New York: Random House, 1974, p.259,260. Citado por Pfandl, G. The gift of prophecy. Nampa, ID. Pacific Press Publishing Association, 2008, p. 34.

10 White, E.G. Mensagens Escolhidas (v. 2). Tatuí, SP. Casa Publicadora Brasileira, 1986, p. 53.

11 Fitch, C. The Second Advent of Christ – Declaration of Principles. Cleveland, OH. 21 de julho de 1843. Citado por Douglass, H. Mensageira do Senhor. Tatuí, SP. Casa Publicadora Brasileira, 2003, p. 37.

12 Wright, E. E. Strange Fire. Durham, England. Evangelical Press, 1996, p. 291 e 161. Citado por Pfandl, G. The gift of prophecy. Nampa, ID. Pacific Press Publishing Association, 2008, p. 35.

13 Douglass, H. Mensageira do Senhor. Tatuí, SP. Casa Publicadora Brasileira, 2003, p. 35.


PDF: Dons Espirituais e Profecia