Divórcio e novo casamento em Mateus 19

Ekkehardt mueller, D.Min. e Ph.D.
Diretor associado do Biblical Research Institute da Associação Geral da IASD, Silver Spring, Maryland, EUA

Resumo: Este artigo trata com a questão do casamento e divórcio. O autor, após, indicar a consistente ênfase de Jesus quanto a indissolubilidade do casamento, uma vez que o divórcio contradiz a intenção divina expressa na ordem criada, dedica atenção teológica e exegética à “permissão para o divórcio” na chamada “cláusula de excessão” mencionada Mateus 19, relacionando a seguir as diferentes interpretações destas palavras de Jesus. Ao final o autor analisa as implicações do ensino de Cristo quanto ao casamento e divórcio para os cristãos que hoje levam Jesus a sério bem como sua Palavra. O autor enfatiza que, mesmo em caso de infidelidade conjugal, quando o cônjuge inocente está livre para o divórcio e novo casamento, o ideal é a reconciliação. Por outro lado, onde as condições do casamento são desfavoráveis, insiste o autor, a solução cristã é mudar tais condições, não o parceiro.

Abstract: This article deals with the question of marriage and divorce. The author, after indicating Jesus’ consistent  emphasis on the indissolubility of marriage, since divorce contradicts God’s intention expressed on the created order, gives theological and exegetical attention to the “permission for divorce” in the so called “exception clause” mentioned on Mathew 19, providing then a list of the different interpretations of Jesus’ words. In conclusion the author emphasizes the implications Jesus’ teachings on marriage and divorce for Christians that today take His Word seriously. The author indicates that even in situations of conjugal infidelity, when the innocent part is free for divorce and new marriage, the ideal is reconciliation. On the other hand, on those situations where the marriage conditions are unfavourable, he insists, the Christian solution is to change those condition not the partner.

Introdução

Recentemente, enquanto estávamos viajando pela Europa, minha esposa encontrou um interessante artigo em uma revista, descrevendo o comportamento de mulheres modernas.1 Felizmente, o artigo foi escrito por uma senhora. Ela ilustrava seu assunto descrevendo a dissolução de um casamento. Uma ex-medalha de ouro e recordista mundial, que ainda está na ativa seguindo sua carreira nos esportes, deixou seu esposo (duas vezes finalista mundial) e seus dois filhos por causa de um amante, que é também um bem-conhecido esportista. A escritora do artigo declara que o comportamento que era considerado masculino, a saber, deixar o cônjuge e os filhos para viver com um novo parceiro, se tornou comum entre as mulheres. Eva Kohlrusch comenta sarcasticamente: As mulheres podem congratular-se. A igualdade progride. Mulheres fazem cada vez com mais frequência o que no passado era considerado um comportamento tipicamente masculino. Elas se livram do seu casamento e deixam os filhos com o pai… Elas se comportam como ele tem feito no passado… Precisamos inventar uma ideia totalmente nova para proteger os filhos dos sentimentos de abandono.2

O divórcio e o novo casamento tornaram-se um desafio para sociedades e igrejas. As ideias da era pós-moderna estão também influenciando os cristãos. Alguns abandonam o conceito de verdade absoluta. O pluralismo é parcialmente aceito. O ser humano tornou-se o objetivo supremo. A vida abundante é definida apenas como sentir-se bem e estar bem. A dor e o sofrimento tornaram-se inaceitáveis. Embora haja circunstâncias muito difíceis em alguns casamentos, devemos reconhecer que às vezes as pessoas se livram do seu casamento muito facilmente.

Jesus tratou do problema do divórcio e suas declarações são encontradas em Mateus 5 e 19, Marcos 10, e Lucas 16. Neste artigo, focalizaremos Mateus 19, quando Jesus foi interrogado pelos fariseus acerca de fundamento para o divórcio (19:1-12). Reiteradamente, Jesus enfatizou a indissolubilidade do matrimônio. Defendeu o ideal de Deus conforme instituído no jardim do Éden. E eu creio que Ele quer que vejamos a beleza do matrimônio e que nos esqueçamos de insistir nos problemas. Isto pode ser indicado pelo contexto em que se encontra o relato de Mateus 19:1-12.

Declarações de Jesus sobre casamento e divórcio e sua interpretação

 Os cristãos têm aceito a Jesus como seu Salvador e Senhor. Têm decidido seguir suas pisadas (1Pe 2:21). Sua vida, morte e ressurreição os salvou. Seu ministério sacerdotal no Céu os sustém. Para eles, seus ensinos são normativos. Portanto, quando é o caso de tomar pequenas bem como importantes decisões na vida, os cristãos indagam o que Jesus tem a dizer acerca dos problemas  envolvidos. Isto é especialmente verdade no caso de divórcio e novo casamento. Em quatro lugares dos evangelhos sinóticos Jesus tratou deste assunto: Mateus 5:31-32; Mateus 19:1-12; Marcos 10:1-12 e Lucas 16:18. Cronologicamente, Mateus 5:31-32 vem primeiro. Este texto pertence ao Sermão da Montanha. No início do seu ministério, Jesus tratou deste difícil e complicado problema. O local é a Galiléia. Mateus 19 e suas passagens paralelas de Marcos e Lucas pertencem ao ministério de Jesus na Peréia. De acordo com Mateus 19 e Marcos 10 Jesus foi forçado pelos fariseus a discutir o assunto, mas Ele não o evitou e disse a verdade muito claramente.

No tempo de Jesus, o divórcio era considerado levianamente. Basicamente, a escola de Hillel permitia como motivo para o divórcio tudo o que o marido não gostasse acerca de sua esposa. Queimar uma refeição poderia ser um desses motivos. Por outro lado, a escola de Shammai só permitia que o marido se divorciasse de sua esposa se ela tivesse cometido alguma espécie de violação sexual. Mas, o que era considerado uma violação sexual? Isto incluía uma mulher ser vista em público com cabelo descoberto ou com braços desnudos. Segundo o Rabi Meir também incluía uma atitude sociável para com escravos e vizinhos, fiar na rua, beber avidamente na rua, e banhar-se com homens. Em linhas gerais, era uma violação por sua esposa dos costumes prevalecentes que permitia a um marido divorciar-se.3  Além disso, o divórcio era visto como um privilégio que Deus havia concedido a Israel. “Segundo a tradição rabínica, Yahweh tem dito: ‘Em Israel Eu tenho dado o divórcio, não tenho dado o divórcio entre os gentios.’ Somente em Israel ‘Deus tem ligado seu nome ao divórcio.’”4  Em vez de seguir o plano divino e aceitar a indissolubilidade do matrimônio, o divórcio era considerado como um privilégio. “Destarte, mesmo a dissolução de um casamento sem qualquer motivo era considerada válida.”5

As palavras de Jesus acerca do divórcio e novo casamento têm sido compreendidas muito diferentemente. Estão aqui algumas das opiniões defendidas:

(1) O divórcio é impossível mesmo no  caso de adultério, do contrário Jesus  não  teria  diferido  de  Moisés  e adotado uma opinião mais liberal do que a lei  mosaica  que – no caso de adultério – exigia a pena de morte. O novo casamento é inconcebível.6

(2) O divórcio  não  é  possível  exceto  em caso de adultério. Contudo, mesmo que um dos parceiros cometa adultério e os cônjuges estejam divorciados, o novo casamento está excluído. Este é o ponto de vista dos Pais da Igreja e é encontrado mesmo em nossos dias.7

(3) O divórcio não é possível exceto por infidelidade sexual durante o período de noivado. Se for descoberto que um cônjuge foi infiel durante o tempo de noivado, o divórcio, bem como o novo casamento, é permissível.8

(4) O divórcio não é possível exceto em caso de adultério. Se um dos cônjuges comete adultério e eles se divorciam, o parceiro que não cometeu adultério pode casar de novo. Todavia, a reconciliação é preferível. Esta é a opinião de Erasmo de Rotterdam, dos grandes reformadores, de muitos evangélicos e da Igreja Adventista.9

(5) As Escrituras se opõem ao divórcio. Contudo, é possível se obter um divórcio. Os motivos não são apenas adultério mas também abandono por um cônjuge, abuso, violência, etc. O novo casamento é possível.10 Alguns sugerem que a questão de quem é culpado não deve ser discutida. Outros sugerem que o novo casamento sempre é possível, ao menos sob a condição de que os ex-cônjuges manifestem um espírito de perdão.11

(6) Alega-se que as palavras originais de Jesus não continham a cláusula de exceção. Essas palavras originais são encontradas em Marcos e Lucas. A cláusula de exceção ocorre em Mateus e é um acréscimo da Igreja primitiva, que, sob a influência do Espírito Santo e do Cristo pós-Páscoa, atualizou o texto bíblico. Uma outra aplicação e atualização se encontra em Paulo (1 Co 7:12-15). Portanto, a Igreja Cristã tem o direito não apenas de interpretar mas também de reinterpretar as Escrituras. Há uma abertura para lidar com outros casos não mencionados nas Escrituras. Por que não deveria o Espírito Santo dirigir a Igreja moderna em encontrar outros motivos para um divórcio legítimo como Ele dirigiu a Igreja no passado?12

(7) Afirma-se que quando Jesus no Sermão da Montanha lida com o problema do divórcio e novo casamento isto não é um mandamento. Porque o verso 30 tem de ser compreendido figurativamente; o verso 32 e toda a passagem também devem ser compreendidos figurativamente. Conquanto a intenção de Jesus seja clara sobre deverem casamentos ser permanentes, o divórcio e o novo casamento são possíveis.

(8) A cláusula de exceção se refere  somente ao incesto. O divórcio só é possível se existe um “casamento” que, segundo Levítico 18 nunca deveria ter sido instituído, e se um crente e um incrédulo estão  casados e o descrente quer divorciar-se. Entretanto, os cônjuges que  maltratam seus  parceiros, verbal ou fisicamente, que são  viciados em álcool ou drogas, que são blasfemadores, que amam mais os prazeres do que a Deus, etc., dificilmente são  crentes, mesmo que sejam cristãos batizados. Eles devem ser evitados.13

Agora retornemos a Mateus 19 e o consideremos mais atentamente.

O contexto de Mateus 19

Opinião de Jesus sobre divórcio no contexto de Mateus 19 e 20

Mateus 19:1-20:16 é uma passagem que descreve o ministério de Jesus. Seus segmentos14 estão ligados uns aos outros por vocabulário comum.15  Também descobrimos que Jesus fala primeiro aos fariseus (19:3-9). Ele então se dirige aos  discípulos (19:10-15). Após o diálogo com o jovem rico (19:16-22), como esse homem é chamado, Jesus ensina outra vez aos discípulos (19:27-20:16).

(a) Pai e mãe

“Pai e mãe” é uma daquelas conexões literárias. Em 19:5 Jesus fala acerca de deixar pai e mãe tão logo o homem se case. Em 19:19 Ele menciona o quinto mandamento, a saber, honrar pai e mãe, e em 19:29 Ele declara que os discípulos podem às vezes ser forçados a deixar pai e mãe por amor de Jesus. Deixar pai e mãe a fim de casar não viola o quinto mandamento, nem deixar pai e mãe por amor de Jesus. Assim, indiretamente, o casamento pode ser comparado com a relação entre Jesus e seus discípulos. A famosa passagem de Efésios 5 pode ser aqui prefigurada. Se o matrimônio é semelhante à nossa ligação com Jesus, quão importante e enaltecedor deve ele ser, quão formoso e abençoado, e também quão duradouro!  Qualquer que tenha provado a bondade de nosso Senhor e a agradabilidade de sua comunhão, pode também usufruir seu extraordinário dom do matrimônio.

(b) A quem deixar e a quem não deixar

Mateus 19:29 é muito interessante: “E todo aquele que tiver deixado casas, ou irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos, ou terras, por amor do meu nome, receberá cem vezes tanto e herdará a vida eterna.” Para nós é quase chocante que Jesus fale acerca de deixar irmãos, pais e mesmo filhos, mas não fale sobre alguém deixar o cônjuge.16  Omitindo aqui uma referência ao cônjuge, a mensagem para nós parece ser: Mesmo por amor de Jesus não somos solicitados a deixar nosso esposo ou esposa, a nos separar dele ou dela, ou nos divorciar do nosso parceiro. O matrimônio é indissolúvel. O casamento é bom. Jesus não dissolve os casamentos quando pede às pessoas que o sigam [A versão Almeida Revista e Corrigida não omite a palavra “mulher”; a Almeida Revista e Atualizada a traz entre colchetes – nota do tradutor].

(c) O sétimo mandamento

Em Mateus 19:9 Jesus discute o divórcio, novo casamento e adultério. Em Mateus19:18 Ele cita o sétimo mandamento: “Não cometerás adultério.” Os dois textos usam um verbo com uma raiz comum. Outra vez o casamento é muito importante para Jesus. Obviamente, suas declarações em Mateus 19:9 e em Mateus 5:27-32 estão relacionadas com o sétimo mandamento e, portanto, com o Decálogo. Jesus discute com os fariseus retornando ao relato da Criação e referindo-se indiretamente aos Dez Mandamentos. O ponto de vista de Jesus é tudo o que a lei diz respeito. Essa lei ainda é a mesma. No tempo de Jesus ela ainda estava em vigor como quando Deus a pronunciou no monte Sinai. E hoje também é válida. É independente de culturas e sistemas de valores mutáveis. Essa lei é boa. O dom de Deus do matrimônio e sua proteção a esse dom são bons.

(d) Dureza de coração

A mais importante ligação entre as diferentes partes de Mateus 19 e 20a e, portanto, o mais importante assunto do ministério de Jesus na Peréia parece que é o tema da dureza de coração e o assunto relacionado do olho mau.17 A frase “dureza do coração” foi apresentada pelo próprio Jesus em 19:8. Os fariseus mostram clara evidência de corações duros, porque procuram motivos que lhes permitam livrar-se do matrimônio. Eles não compreendem o maravilhoso dom divino do casamento, e o corrompem por causa da sua atitude e comportamento (19:3,7). Quando pensam em casamento, apenas  o divórcio vem à sua mente.

Mas até mesmo os discípulos de Jesus têm dificuldade em aceitar o ensino de Jesus sobre o matrimônio. Sugerem ficar solteiro e não casar se o casamento é indissolúvel (19:10). Eles compreendem claramente a afirmação de Jesus, e contudo decidem tomar o lado dos fariseus. Também eles não conseguem pensar em casamento em outros termos que não o divórcio. Têm o coração duro. Sua dureza de coração se manifesta um pouco depois quando se encontram com crianças trazidas a Jesus a fim de serem abençoadas, e eles as repreendem (19:13).

O jovem rico não está disposto a vender suas propriedades e dar a renda aos pobres. Por causa da sua dureza de coração é difícil um rico entrar no reino de Deus (19:21-23). Outra vez os discípulos parecem favorecer aqueles que não são bem-sucedidos em sua caminhada para o reino de Deus (19:25), e a interrogação de Pedro quanto à recompensa de seguir a Jesus pode revelar dureza de coração (19:27).

Finalmente, na parábola dos lavradores na vinha aqueles que trabalharam o dia inteiro não estão contentes com o seu salário. Queixam-se da generosidade do senhor da vinha. O problema não é que o senhor não lhes pagou um salário justo. O problema é que aqueles que não tiveram a oportunidade de ser empregados o dia todo receberam a mesma quantia de dinheiro. Comparam-se com os coobreiros, e em vez de serem movidos de gratidão pelo que aconteceu àqueles, concentram-se em si mesmos e na suposta injustiça sofrida. O proprietário da vinha responde: “Ou é mau o teu olho porque eu sou bom?” Em vez de se regozijarem com seus coobreiros e louvar a  generosidade do senhor, eles murmuram e se queixam. Eles têm um olho mau. Sua dureza de coração não lhes permite ver a bondade de Deus.

Portanto, todo o capítulo do ministério de Jesus na Peréia desafia o leitor a apreciar os extraordinários dons de Deus e principalmente o dom do casamento e a se desviar de qualquer consideração de divórcio.

(e) Resumo

Resumindo, podemos dizer: (1) Até certo ponto, a relação de Jesus com seus discípulos pode ser comparada à relação entre marido e mulher. Por causa desta relação, talvez alguém precise deixar outras pessoas e posses. Os benefícios são imensuráveis. (2) Seguir a Jesus não significa separar-se ou divorciar-se de um cônjuge. O matrimônio é indissolúvel. (3) A declaração de Jesus sobre divórcio está ligada ao sétimo mandamento. Esse mandamento está em vigor e é independe de tempos e culturas mutáveis. (4) Citando Jesus, Mateus desafia leitores e ouvintes a se arrepender de sua dureza de coração e de seu olho mau, a se afastar de qualquer brincadeira com a idéia de divórcio e a ter em alta estima o extraordinário dom do matrimônio.

Opinião de Jesus sobre divórcio no contexto de Mateus 18

Mateus 19 é precedido por uma conversação entre Jesus e os discípulos em Cafarnaum. Apesar das diferentes localidades geográficas, existem fortes conexões entre Mateus 18 e Mateus 19. Estas incluem os termos “discípulos”, “reino”, “crianças” e “coração”.18 No início do capítulo 18, os discípulos fazem a pergunta: “Quem é o maior no reino dos céus?” (18:1). A resposta de Jesus lida com uma criança, os pequeninos, e o pecado de um irmão (18:2-20). Depois da resposta, Pedro faz outra pergunta, tratando do problema do perdão de pecados (18:21). Jesus responde com uma breve declaração e a parábola do credor incompassivo (18:22-35).

(a) Dureza de coração

Embora os discípulos fossem advertidos a não desprezar os pequeninos e a não escandalizá-los (18:6,10), eles não aprenderam a lição conforme demonstra seu comportamento em 19:13. Em vez de dar as boas-vindas às crianças em nome de Jesus, eles as rejeitaram. Conquanto fossem advertidos contra a dureza de coração em Mateus 18, os discípulos exibiram precisamente este comportamento. O capítulo 18 termina com a advertência de que o pai celestial estenderá a mão para punir aqueles que do coração não perdoam ao seu próximo (18:34-35). O tema do coração duro já está presente no capítulo 18, embora a frase exata apareça somente em 19:8. O credor incompassivo é um exemplo por excelência de uma pessoa de coração duro, e é interessante que esse tema seja desenvolvido na seguinte perícope que trata de divórcio e casamento.

Em vez de perdoar o seu cônjuge, há pessoas como os fariseus, que olham somente para escapes e possibilidades de fugir do casamento e se livrar do seu parceiro. Não se preocupam com sua esposa ou esposo. Não estão interessados nele ou nela. E se esquecem de quão incrível dívida Deus os perdoou, e contam todos os erros de seu cônjuge contra eles. O perdão não é praticado, nem mesmo considerado. Alegando cumprir a lei, são julgados pela lei. Sua dureza pode chegar tão longe que queiram se livrar do casamento, mesmo que seu cônjuge não tenha de forma alguma pecado contra eles.

(b) O cortar da mão e o arrancar do olho

Mateus 18:8-9 fala simbolicamente acerca da auto-mutilação. O cortar da mão e o arrancar do olho a fim de impedir alguém de desencaminhar-se encontra-se quase identicamente em Mateus 5:29-30, passagem à qual se faz alusão em Mateus 19:1-12. Mateus 18:8 acrescenta o cortar de um pé. Sendo que estes versos de Mateus 5 são encontrados no contexto de adultério e fornicação – os respectivos versos paralelos de Mateus 18 podem também se referir a pecados sexuais.

Somos chamados a lutar contra o pecado, inclusive pecados sexuais. Somos chamados a lutar por nosso casamento e a trabalhar por ele. Os membros da Igreja são chamados a ajudar aqueles que estão em perigo de ser seduzidos e desviados.  Às vezes, a disciplina da igreja é necessária a fim de recuperá-los. Em qualquer caso, depois do arrependimento o perdão deve ser concedido. Nossos casamentos vivem do perdão. Vivemos do perdão. Portanto, estendemos o perdão ao nosso cônjuge. A questão não é o divórcio. É perdoar-nos mutuamente e largar o coração duro.

(c) Resumo

Outra vez resumimos: (1) Mateus 18 e seu paralelismo com Mateus 5:29-30 prepara o caminho para a discussão do capítulo 19 sobre divórcio e adultério. Embora as declarações de Jesus em Mateus 19:4-6, 8-9 e 11-12 sejam baseadas no relato da Criação, elas também contêm uma exposição do sétimo mandamento. Jesus afirma que pelo novo casamento alguém pode cometer adultério. Por sua própria natureza o casamento é indissolúvel. Os mandamentos de Deus ainda são válidos. (2) Novamente os leitores são desafiados a se afastar da dureza de coração e livre e graciosamente perdoar uns aos outros (18:35; 19:8). (3) Em vez de procurar o divórcio e alegrar-se com o pensamento de outra vez estar “livre”, somos desafiados a conceder o perdão e parar de contar as faltas do nosso cônjuge. O perdão é ilimitado. (4) Em alguns casos de desarranjo marital a disciplina da igreja é necessária. Seu objetivo é impedir aqueles que estão envolvidos de se tornarem “ovelhas perdidas” (Mt 18:12-14). Em seguida a Mateus 18:15-20 e a parábola subsequente os membros da igreja são chamados a perdoar seus errantes companheiros de fé.

Exegese de Mateus 19

A estrutura da passagem

A passagem de Mateus 19:1-12 pode ser esboçada da seguinte maneira:

1. Disposição local e disposição da narrativa (vs.1-2)

2. Diálogo de Jesus com os fariseus (v. 3-9)

[CENA 1]

a. Primeira pergunta dos fariseus (v. 3)

b. Primeira resposta de Jesus (vs. 4-6)

c. Segunda pergunta dos fariseus (v. 7)

[CENA 2]

d. Segunda resposta de Jesus (vs. 8-9)

3. Diálogo de Jesus com os discípulos (vs. 10-12)

[CENA 3]

a. Primeira pergunta dos discípulos (v. 10)

b. Terceira resposta de Jesus (vs. 11-12)

De especial interesse são os versos 3-9. Contudo, a segunda cena tem também fortes ligações verbais com a terceira cena.19

Interpretação

(a) Verso 3

A conversação entre Jesus e os fariseus se inicia com os fariseus fazendo a Jesus uma pergunta acerca do divórcio. Provavelmente, eles queriam atrair Jesus para a controvérsia entre a liberal escola de Hillel e a conservadora escola de Shammai. Talvez eles até mesmo esperassem que Jesus tocasse no caso de Herodes sendo casado com Herodias e fizesse de Herodes seu inimigo (14:3-4). Este era um assunto altamente político e tinha custado a vida a João Batista.

“É lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo?”  Em Mateus 19:1-12 o problema do divórcio é tratado a partir da perspectiva masculina. O marido pode se divorciar. A perspectiva feminina, além do lado masculino, é apresentada no texto paralelo de Marcos 10.

Um importante termo em 19:3 é apolu, que neste contexto significa “mandar embora, despedir” ou “divorciar-se”. É também encontrado nos versos 7-9. Duas vezes o termo é usado pelos fariseus e duas vezes por Jesus, todavia somente em sua segunda resposta. Em sua primeira resposta, Jesus usa o termo choriz (v. 6) para expressar o conceito de divórcio.20  Claramente Jesus diz não ao divórcio. No verso 6 não é registrada nenhuma exceção, no verso 12 uma só possível exceção é mencionada.

A frase “por qualquer motivo” também pode ser traduzida como “por absolutamente nenhum motivo.” A primeira opção reflete a opinião de Hillel e parece ser preferível neste contexto. Obviamente, os fariseus adotavam o ponto de vista de Hillel.21  A pergunta deles já está apontando para Deuteronômio 24:1, embora só mais tarde eles mencionem abertamente este texto tentando contrariar os argumentos de Jesus.

(b) Versos 4-6

Começando com o verso 4 Jesus responde à pergunta dos fariseus. É importante notar que Jesus responde com as Escrituras como fez quando foi tentado por Satanás em Mateus 4. Jesus evita tomar o partido de uma das escolas rabínicas. Ele usa uma autoridade mais elevada do que a interpretação de famosos rabis.22

“Não tendes lido que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea.” Esta resposta pode conter alguma espécie de repreensão. Os fariseus não deveriam ter feito tal pergunta. As Escrituras já a responderam. Todavia, concentrando-se no que é permitido e no que é proibido e como alguém pode se “livrar” da esposa, tragicamente os adversários de Jesus não reconhecem o maravilhoso dom de Deus e o ideal para o matrimônio.23

No entanto, Jesus trata deste mesmo assunto. Em Mateus 19:4-6 Ele desenvolve a perspectiva de Deus sobre o casamento, uma instituição que juntamente com o restante da Criação era muito boa. Jesus prova seu ponto de vista pelas Escrituras e volta ao relato da Criação. Indiretamente Ele declara que esse relato é autêntico e normativo. Sua resposta se inicia com Aquele que criou, a saber, Deus, e também termina com o Deus Criador que uniu o homem e a mulher no casamento. A primeira resposta de Jesus aos fariseus (19:4-6) começa com uma pergunta. Inserida nessa pergunta estão duas citações do Antigo Testamento. Então segue-se uma declaração, e finalmente é empregado um imperativo:

1. Pergunta: Não tendes lido (v. 4a)

a. Citação de Gênesis 1:27 (v. 4b)

b. Citação de Gênesis 2:24 (v. 5)

2. Declaração: Os dois são uma só carne (v. 6a)

3. Imperativo: Não se divorcie (v. 6b)

A primeira citação é breve consistindo de apenas sete palavras; a segunda tem dezenove palavras, totalizando vinte e seis palavras. Segundo o relato de Mateus, o próprio Jesus usa somente vinte e seis palavras em suas respostas aos fariseus, enquanto que no verso 6a Ele até mesmo repete as últimas palavras da segunda citação. Portanto, ouvimos duas vezes acerca de “dois” seres humanos que “se tornaram um” (v. 5b e 6a). Jesus permite que as Escrituras tratem de questões importantes e chega a uma decisão quando foi interrogado pelos fariseus sobre o divórcio. Qual é o motivo para o divórcio? Resposta: A ordem da Criação não o permite por nenhum motivo.

A expressão “no princípio” em Mateus 19:4 pode se referir ao Deus que criou ou à criação de “macho e fêmea”. No primeiro caso alguém traduziria: “Aquele que criou desde o princípio…”, ao passo que no segundo caso a idéia seria “Ele os criou desde o princípio macho e fêmea.” A segunda opção é preferida por muitas traduções. Por causa da repetição da mesma frase no verso 8, Grundsmann aceita a segunda opção e declara: “Desde o princípio Deus queria que os seres humanos fossem seres sexuais.”24  Esta referência prepara então o caminho para a segunda e importante declaração: Os dois gêneros são dependentes um do outro. Um homem e uma mulher se uniriam em matrimônio e assim se tornariam um, inseparavelmente ligados.

Mateus 19:5 se inicia com a frase “e disse”. De acordo com o verso anterior esta frase se refere a Deus. Foi Deus quem falou. Jesus afirma que Deus disse: “Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne.” Contudo, lendo Gênesis 2:24 de onde foi tirada esta citação e pela leitura do seu contexto, chega-se à impressão de que esta declaração foi um comentário feito pelo autor de Gênesis25, Moisés, não pelo próprio Deus. Mas Jesus nos informa que Gn 2:24 é uma palavra direta de Deus, o Pai. Apóia-se na mais alta autoridade possível. O próprio Deus ordenou que o homem deixe seus pais e, juntamente com sua mulher, forme uma nova união.

A frase “uma só carne” aponta de uma maneira especial para a união física dos cônjuges. Todavia, o termo “carne” significa toda a personalidade e não pode ser limitado à esfera física.26 Por isso, o adultério é tão dramático. Ele rompe a maravilhosa união entre marido e mulher, e nas Escrituras é comparado com a idolatria pela qual o povo de Deus toma uma decisão contra seu Deus Criador e Salvador.

O termo “uma” enfatiza união e unidade. Dois seres, um homem e uma mulher tornam-se um. Ao fazer esta declaração Jesus rejeita o homossexualismo bem como a poligamia. O texto hebraico de Gênesis 2:24 não contém o numeral  “dois”. Contudo, pela adição deste termo, que é também encontrado na Septuaginta (LXX), a monogamia é enfatizada ainda mais. Segundo a vontade de Deus duas pessoas diferentes, um homem e uma mulher, tornam-se um. Para chegar a isto é necessário deixar os pais a fim de estar livre para uma nova união. Só então pode um homem “apegar-se” ou “unir-se” à sua mulher. Jesus enfatiza a idéia de unidade repetindo-a no início do verso 6. Então Ele chega à conclusão: “Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” Não há dúvida: a intenção divina é ajuntar, não separar.

Em Mateus 19:5-6 o termo anthropos é encontrado duas vezes, no início e no fim. O termo normalmente designa o ser humano e não é usado para apenas um gênero. Entretanto, no verso 5a ele se refere ao macho, ao passo que no verso 6b ele abrange todos. A declaração é uma declaração geral que se aplica a todos os casais.

1. A ação do homem (anthropos)

a. Separação dos pais e união com a esposa

b. Tornar-se uma só carne (duas vezes)

2. A ação de Deus e a proibição para o homem/ser humano (anthropos)

a. Deus ajuntou, nenhuma separação  

Deixar os pais, viver juntos e tornar-se uma só carne são ações humanas que de uma maneira oculta formam o ajuntamento por Deus. A segunda citação do Antigo Testamento (Gn 2:24) declara o que os seres humanos estão fazendo. A explicação de Jesus, porém, enfatiza que esta é a vontade de Deus. Embora os seres humanos comecem a agir, é Deus quem ajunta marido e mulher. Portanto, eles não têm a autoridade para se divorciar. A criação da humanidade consiste da criação do macho e da fêmea. Deus uniu os dois. Conseqüentemente, não nos é permitido separar o que Deus realmente ajuntou. A primeira resposta de Jesus consiste de um imperativo, que forma uma proibição. A mensagem é: O casamento é indissolúvel. O divórcio não é uma opção.

Resumimos a primeira resposta de Jesus:

(1) Jesus aponta para as Escrituras. Sua pergunta “Não tendes lido” pode  conter uma  repreensão por não terem sido  consideradas com cuidado suficiente as afirmações das Escrituras.

(2) De  acordo  com  Jesus  as  Escrituras  são  normativas. Portanto,  Ele  as  usa.  Sua resposta baseia-se no relato da Criação. Interessantemente, Ele cita textos de Gênesis 1 e 2 sem ver uma contradição entre eles. É verdade que as condições sociais do primeiro  século  d.C.  eram  diferentes  daquelas do Paraíso. Sem dúvida, Jesus está  ciente  do  fato.  Embora o tempo  em  que  Ele viveu na Terra não possa ser comparado com a situação descrita em  Gênesis 1-2,  Jesus ainda aplicou os princípios originais   estabelecidos   no   Éden  para  um  mundo  que  caiu  presa  do  pecado. Portanto, culturas diferentes não mudam necessariamente a mensagem bíblica e os princípios bíblicos.

(3) Claramente, Jesus posiciona-se contra o divórcio. Deus instituiu o matrimônio. Os seres humanos não têm permissão de se divorciar. Com este imperativo Jesus faz uma declaração categórica.

(4) Obviamente, Jesus trata do casamento em geral. O contexto direto não deve ser desconsiderado tão logo o verso 6b seja investigado.  Deus criou macho e fêmea e os uniu em matrimônio. Todo casamento legítimo é, portanto, um ajuntamento de Deus27, cujo plano é que os velhos relacionamentos sejam deixados para trás e uma nova união, uma só carne, seja vivida. Conseqüentemente, não se deve usar a desculpa de que Deus não ajuntou o próprio casamento de alguém, sendo, portanto, legítimo divorciar-se de um cônjuge.

(c) Verso 7

Chega-se ao clímax da conversação com os versos 7-9. Isto se torna evidente quando olhamos para as fórmulas do discurso que estão sendo usadas. Verso 3: “Chegaram… os fariseus, tentando-o e dizendo-lhe…”  Verso 4: “Ele [Jesus]… disse-lhes…”  O verso 7 muda para o tempo presente [na Versão inglesa]: “Eles lhe dizem… “Verso 8: Ele [Jesus] lhes diz…” Esta mudança para o tempo presente indica aumento de tensão.

Os fariseus respondem às palavras de Jesus indagando por que Moisés mandou dar carta de divórcio, se o divórcio não é possível. À semelhança de Jesus, eles também usam as Escrituras. Referindo-se a Deutronômio 24:1 eles podem ter sentido o desejo de desfazer Gênesis 1 e 2 e apoiar uma indulgente prática de divórcio.28 Mas Jesus explica como as passagens bíblicas se relacionam mutuamente. No verso 9 temos sua conclusão final: Com o divórcio, o ser humano destrói a obra de Deus.29   Grundsmann chama a declaração de Jesus no v. 9 de “Halacha autorizado de Jesus.”30

Em sua segunda pergunta os fariseus apontam para a autoridade de Moisés. Eles compreendem muito bem que Jesus argumentou contra o divórcio e que referindo-se à ordem da Criação Ele foi além de Deuteronômio 24:1, a única referência no Antigo Testamento em que Moisés menciona a carta de divórcio. Agora eles tentam criar um conflito entre Jesus e Moisés.31  Uma importante diferença entre eles e Jesus é a respectiva interpretação de Deuteronômio 24:1-2. É possível que Jesus tenha previsto aquela discussão e, portanto, pode ter mostrado que Gênesis 2:24 é uma palavra original do próprio Deus. Em qualquer caso, os fariseus afirmam que Moisés mandou (enteilato) (1) dar à mulher carta de divórcio e (2) repudiá-la.

(d) Verso 8-9

Jesus é muito mais exato em sua interpretação do que os fariseus. Em sua segunda resposta Ele substitui a palavra “mandou” pelo termo “permitiu” (epetrepsen).  Moisés permitiu o divórcio mas não o ordenou. De fato, Moisés parece mencionar a carta de divórcio apenas de passagem. A passagem de Deuteronômio 24:1-4 esclarece a questão de se uma mulher que foi divorciada de seu primeiro marido pode ou não retornar para ele. Não há nenhum imperativo que exija um divórcio e a escrita de uma carta de divórcio. A carta de divórcio e o divórcio estão limitados a apenas um motivo, a saber, “alguma indecência”.32 Esta frase tem sido interpretada diferentemente como pode ser vista nas escolas de Hillel e Shammai, mas parece sugerir alguma espécie de violação sexual. O novo casamento é ajustado. 

A segunda resposta de Jesus consiste de uma defesa de Moisés. Ao mesmo tempo Jesus vai além de Moisés no verso 9 com sua declaração autorizada “Eu vos digo”. Moisés é defendido por Jesus quando Ele esclarece que Moisés não deu um mandamento. Além disso, Ele menciona a dureza do coração humano como um motivo para a concessão feita por Moisés. O divórcio era praticado. Moisés não podia impedir que ocorresse tal comportamento inumano de sua geração e das gerações subseqüentes. Ele podia apenas tentar fazer com que o dano fosse o menor possível. E assim ele permitiu o divórcio sob certas circunstâncias mas não o ordenou.33 Sua intenção era semelhante àquela retratada no relato da Criação, embora fosse dada certa abertura ao divórcio.

Jesus continua: “… mas, no princípio, não foi assim.”  O divórcio não faz parte do plano divino. A frase “no princípio” (ap’ arch_s) já tinha sido usada por Jesus um momento antes em sua primeira resposta aos fariseus (v. 4). Ali ela foi ligada à Criação, como aqui. O tema da Criação liga as duas respostas de Jesus aos fariseus. Toda a argumentação de Jesus baseia-se no relato da Criação. Tudo quanto dizia respeito ao  casamento desde o princípio ainda é válido e obrigatório, principalmente em vista da vinda do reino de Deus na pessoa de Jesus Cristo e não admite o divórcio.34 Já no Sermão da Montanha Jesus foi além da carta de divórcio e substituiu a permissão do divórcio por sua própria palavra autorizada fechando a porta para a opção ao divórcio exceto em caso de adultério.

A legislação mosaica em Dt 24:1-4 não era, portanto, normativa mas apenas secundária e temporária, uma concessão dependente da pecaminosidade do povo.  Naquele contexto servia como um controle contra abusos e excessos… A inferência é  que a nova era do presente reino de Deus envolve um retorno ao idealismo da narrativa do Gênesis pré-queda.35

Afirma o Comentário Bíblico Adventista:

Contudo, aqui o ensino de Cristo deixa claro que as provisões da lei de Moisés com  respeito ao divórcio são completamente inválidas para os cristãos… A lei de Gn 1:27; 2:24 precedeu a lei de Dt 24:1-4 e é superior a ela… Deus jamais revogou a lei do matrimônio.Ele a enunciou no princípio.36

A segunda cena termina com a declaração “Eu vos digo”. Jesus assegura aos  ouvintes que qualquer que se divorcia de sua mulher – Ele agora emprega a palavra para divórcio (apolu) usada pelos fariseus – comete adultério se a exceção seguinte não se aplica. Isto significa que em sua natureza o casamento é de fato permanente. No verso 6 Jesus nega categoricamente o divórcio. No verso 9 Ele acrescenta: Mesmo que alguém se divorcie, e isto seja contra o claro testemunho das Escrituras, ele ou ela não está livre. Tal divórcio e novo casamento são adultério, porque o primeiro casamento ainda é válido a despeito do divórcio.37

Aqui Mateus 19 adiciona uma nova dimensão não encontrada em Mateus 5. Enquanto que em Mateus 5:32 a mulher comete adultério se casar de novo, em Mateus 19:9 é o marido.38  Ao passo que em Mateus 5:32 a mulher divorciada que se casar outra vez comete adultério – obviamente, ela ainda é considerada como casada, em Mateus 19:9 o marido que casa com outra mulher comete adultério – ele ainda está casado, se a exceção não se aplica. Marido e mulher são tratados do mesmo modo. Ao mesmo tempo, notamos que surge um quadro compreensivo se permitirmos que todos os textos bíblicos sobre um dado assunto nos fale.

Mateus 19:9 contém quase a mesma cláusula de exceção conforme já mencionada em Mateus 5:32. Jesus admite um só motivo pelo qual o divórcio é possível. Esse motivo é porneia. Mas mesmo em tal caso o contexto nos exorta a perdoar nosso parceiro e abandonar nossa dureza de coração e obstinação. Desse modo, a pergunta introdutória dos fariseus é respondida. Divórcio por qualquer motivo? Não. O divórcio contradiz o plano da Criação e a vontade de Deus que uniu marido e mulher. A única exceção é porneia.  Os diferentes aspectos de porneia são encontrados em ambos os Testamentos. Eles incluem prostituição, relações sexuais pré-maritais, adultério, incesto e homossexualismo; em resumo, relações sexuais fora do casamento.39

Em Mateus 19:9 o significado primário de porneia pode ser adultério.40 E de fato muitos dos importantes matizes de significado de porneia podem ser agrupados sob o termo adultério. 

Marcos e Lucas não usam a cláusula de exceção em suas passagens que tratam de divórcio e novo casamento (Mc 10:1-12; Lc 16:18). A declaração de Lucas é muito breve e consiste de apenas um versículo. Marcos é diferente. Ali encontramos uma passagem comparável à de Mateus 19. Contudo, a discussão corre em sentido inverso. Em Mateus 19 Jesus se refere primeiro ao relato da Criação e, assim, declara o princípio básico que nos orienta em matéria de casamento e divórcio antes de serem apresentados os aspectos específicos da carta de divórcio. Em Marcos 10 Jesus começa com os aspectos específicos, a saber, a carta de divórcio, e indutivamente se move em direção do princípio geral encontrado no relato da Criação. Uma vez tendo chegado ao princípio básico, os aspectos específicos tais como a cláusula de exceção dificilmente têm lugar. Portanto, Marcos pode tê-la omitido, embora talvez a tenha conhecido. Declara Hill: Muitos comentaristas consideram estas palavras como tendo sido acrescentadas por Mateus… Isto não é necessário; se porneia significa ‘adultério’, então a lei judaica  exigia que um homem se divorciasse de sua mulher se ela cometesse tal ato.  Realmente, este fato pode ser admitido em outros Evangelhos (…), mas é conjeturado  somente em Mateus. Uma relação adulterina violava a ordem da Criação com seu ideal monogâmico. Portanto, se Jesus defendeu a indissolubilidade do matrimônio baseado em Gênesis, Ele deve ter permitido o divórcio para isto, e isto somente, que necessariamente infringia a ordem criada.”41

Entretanto, o problema mais decisivo não é a cláusula de exceção em si, mas a questão se a cláusula de exceção se refere apenas ao divórcio ou também permite novo casamento.42  Há ligeiras diferenças entre as cláusulas de exceção em Mateus 5:32 e Mateus 19:9, embora a mensagem básica seja a mesma. Em certo sentido as duas cláusulas de exceção são até mesmo complementares. Em qualquer caso, as cláusulas de exceção não ordenam divórcio mas o permitem.

(1) Qualquer que se divorcia de sua mulher, exceto por motivo de porneiafaz com que ela cometa adultério;

(2) e qualquer que casar com a mulher divorciada comete adultério. (Mt 5:32)

De acordo com Mateus 5:32 o homem comete adultério casando com a mulher divorciada. No caso de ela não ter cometido adultério seu casamento parece ainda ser válido. Portanto, uma nova união com ela é adultério. Porém, segundo Mateus 19:9, o homem divorciado comete adultério casando com qualquer mulher, se a exceção não se aplica. Seu casamento ainda é válido e seria prejudicado por uma nova união. Conseqüentemente, os homens têm de levar em conta que eles podem não apenas prejudicar o casamento ainda existente de uma mulher quando eles casam novamente; eles podem causar dano ao seu próprio casamento e devem preocupar-se com o que estão fazendo. Eles não estão em liberdade de fazer o que querem.

(1) “Qualquer que se divorcia de sua mulher, exceto por porneia,

(2) e casa com outra, comete adultério.” (Mt 19:9)

A principal cláusula da sentença é “ele comete adultério.” Dependente desta cláusula essencial há uma cláusula subordinada com dois verbos e dois objetos, “qualquer que se divorcia de sua mulher” e “e casa com outra.” Divórcio (1) e novo casamento (2) são adultério (quarta linha).43  Portanto, pode ser admitido que a cláusula de exceção encontrada entre (1) e (2) se refere tanto ao divórcio quanto ao novo casamento. Sendo que a discussão com os fariseus estava tratando primariamente do divórcio, é compreensível que a cláusula de exceção siga diretamente a frase “se divorcia de sua mulher” em vez de ir ao fim da cláusula subordinada. Além disso, deve ser suscitada a seguinte questão: de que outra maneira Mateus poderia ter expresso este conceito? Teria sido mais claro se a cláusula de exceção tivesse seguido a frase  “e casa com outra”? Deveria ele ter repetido a cláusula de exceção? Isto teria confundido seus ouvintes?

A cláusula de exceção faz pouco sentido se o cônjuge que não tivesse sido envolvido em porneia não tivesse o direito de casar de novo. Um divórcio legítimo permite um casamento legítimo. Porque no tempo de Jesus bem como durante os tempos do Antigo Testamento o novo casamento depois de um divórcio era possível, poder-se-ia esperar uma situação semelhante para o Novo Testamento.44  Doutro modo, o Novo Testamento precisaria afirmar claramente que uma nova ordem foi estabelecida.

Às vezes aqueles que se opõem ao novo casamento do cônjuge não envolvido em porneia apontam para a compreensão e prática dos Pais da Igreja, que mantiveram essa opinião. Contudo, deve-se ter em mente que em questões bíblicas os Pais da Igreja não eram sempre mais fiéis às Escrituras do que são os cristãos de hoje. Os problemas com a guarda do domingo surgiram já no segundo século d.C. A doutrina da imortalidade natural da alma foi aceita por muitos. O conceito de cargos eclesiásticos, principalmente a importância e poder dos bispos, foi elaborado com muito esforço, e a Igreja foi elevada a um nível superior às Escrituras. O ascetismo era recomendado por alguns.

Embora com sua cláusula de exceção Jesus permita o divórcio e novo casamento em um caso específico, o que importa ou interessa em sua mensagem é a indissolubilidade do matrimônio. Portanto, encontramos declarações sem exceções em seguida àquelas que permitem uma exceção no caso de porneia. Entretanto, a força das declarações de Jesus é suficientemente clara. Por este mesmo motivo os discípulos reagem tão surpreendentemente e parecem estar escandalizados (verso 10). Isto nos leva à última cena.

(e) Verso 10

Os discípulos declaram: “Se é assim a relação do homem com sua mulher, é melhor não casar.” O termo “relação”, “causa”, “razão” (aitia) já ocorreu no verso 3. Os discípulos podem estar se referindo à pergunta dos fariseus que haviam indagado se é possível alguém divorciar-se da mulher por qualquer motivo. A despeito da cláusula de exceção eles compreenderam a natureza radical da exigência de Jesus e sentiram-se restringidos e encurralados. Tomaram o partido dos fariseus que por causa de sua dureza de coração estavam procurando meios de se livrarem do casamento. E eles fizeram uma sugestão radical: Se não há nenhuma saída do casamento, então é melhor não casar. Não vale a pena. Eles não podem pensar no casamento sem pensar também no divórcio, e não vêem e não compreendem o extraordinário dom do casamento que Deus oferece.

(f) Versos 11-12

Mais uma vez Jesus responde. É a sua terceira resposta: “Nem todos os homens podem aceitar esta declaração, mas somente aqueles a quem isto foi concedido.” A questão é: Qual é o antecedente de “esta declaração” (literalmente: “palavra”)? Novamente a opinião erudita difere. Ou se refere às respostas dadas por Jesus aos fariseus46 ou se refere à declaração que os discípulos tinham feito um momento antes.47

Se “esta declaração” se referisse às próprias palavras de Jesus, destruiria o que Jesus tentou estabelecer. Significaria que as reivindicações de Jesus em relação ao matrimônio e sua proibição do divórcio (com a exceção de porneia) poderiam ser observadas somente por aqueles a quem isto é concedido. Isto significaria que qualquer obrigação de seguir os princípios divinos seria suprimida e todos os que violassem a vontade de Deus teriam a desculpa de que não lhes foi concedido seguir o plano, vontade e ideal divinos. A ética falharia. A sugestão feita por France, de que as exigências de Jesus seriam obrigatórias apenas para aqueles a quem Deus tem chamado para um matrimônio cristão, também não é útil.48 Desde quando os mandamentos de Deus são obrigatórios somente para os cristãos? Certamente, os não-cristãos podem pisar a lei de Deus. Mas eles têm o direito de agir assim?  Deus não os julgará?49

É melhor compreender Jesus como se referindo à declaração dos discípulos. Surpreendentemente, Ele não a rejeita, mas declara que realmente isto é concedido a alguns – embora não a todos – de não casar. Para a maioria das pessoas o plano divino é o casamento e não o celibato. No verso 12  Jesus enumera três grupos de eunucos: (1) eunucos que nasceram deste modo, (2) eunucos que foram feitos eunucos por outros, e (3) aqueles que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do reino dos céus. Parece que nem todos os três grupos são eunucos no sentido literal. Obviamente, o primeiro grupo deve ser compreendido literalmente. O segundo grupo também pode representar eunucos reais, o homem que pela força foi feito incapacitado para o casamento. Cornes, porém, sugere compreender o termo como figurativamente se referindo a pessoas divorciadas.50 O último grupo pode abranger pessoas como João Batista que permanecem solteiras por causa do reino de Deus. É importante reconhecer a vocação de alguém e aceitá-la, não importa a que grupo pertença e não importa se alguém teve ou não de sofrer injustiça. O que é decisivo é concordar com a vontade e o plano de Deus, ou a vontade permissiva para nossa vida.51

É dom de Deus ao ser humano compreender o mistério do casamento bem como  o  mistério  do  celibato. Enquanto que o mistério do casamento é fundado na vontade de Deus com respeito à Criação, o mistério do celibato é fundamentado na vontade de Deus com respeito à vinda do reino dos céus.52

Em Mateus 19:1-12 Jesus permite duas opções. O ser humano pode casar e receber o dom divino do matrimônio. Isto é parte da ordem de Deus na Criação. Os seres humanos podem também escolher ficar solteiros por causa do reino de Deus, se receberam o respectivo chamado. Contudo, a possibilidade de obter um divórcio não é dada, exceto em caso de adultério.53  A ênfase está na indissolubilidade do matrimônio e não em sua exceção. Também aqui é onde deve estar nosso enfoque. Aqueles que constantemente se concentram na exceção e consideram isto normal, compreenderam mal a Jesus e têm um coração duro.

Implicações para nós

Quando Deus instituiu o casamento cogitou-se que deveria ser uma união vitalícia entre um homem e uma mulher em que os dois se complementariam e contribuiriam para o bem-estar mútuo. O ideal do matrimônio permite a sua comparação com Jesus e a Igreja.

Jesus consolidou a indissolubilidade do matrimônio. Marcos e Lucas enfatizam este fato sem mencionar uma exceção. Mateus registra as cláusulas de exceção nos capítulos 5 e 19. O divórcio destrói o que Deus uniu e se opõe à sua vontade. Em todo caso, se ocorrer um divórcio – exceto por porneia – só existe a possibilidade de ficar solteiro ou reconciliar-se com o cônjuge. Então o novo casamento não é alternativa. Obviamente, o primeiro casamento permanece intacto apesar do divórcio. A pessoa que se divorcia por qualquer outro motivo que não seja fornicação e casa novamente, comete adultério e viola as leis de Deus, que são válidas para todos os tempos. Isto também é verdade para alguém que casa com uma pessoa divorciada, se essa pessoa não está divorciada por motivo de porneia pelo cônjuge.

Se um cônjuge comete fornicação, ou seja, é culpado de infidelidade sexual, o outro cônjuge que não se envolveu em tal ato pode divorciar-se. Contudo, mesmo neste caso o ideal é a reconciliação.

As duas exceções para divórcio, porneia e divórcio por um cônjuge descrente, que são discutidas em 1 Coríntios 7, são diferentes. Somente no primeiro caso pode o cônjuge que não se envolveu em adultério solicitar o divórcio. No outro caso, o parceiro crente é passivo e não toma a iniciativa de obter o divórcio. Portanto, o único motivo pelo qual um membro da igreja pode divorciar-se de seu cônjuge é fornicação.

Quando um casamento se desintegra, a igreja é sempre afetada. Portanto, a igreja deve tomar medidas preventivas a fim de impedir que os casais se divorciem, e deve reagir de uma maneira bíblica e equilibrada se um casamento está ameaçado ou um casal se divorciou. Deixar de reagir absolutamente pode ser irresponsável. O objetivo do envolvimento da igreja deve ser ajudar, produzir cura e prestar assistência àqueles que de outra forma poderiam se perder. Em alguns casos isto pode incluir a disciplina da igreja e a remoção de uma pessoa do rol de membros da igreja.

Todos os crentes são chamados a se desviar da dureza de coração, a desenvolver seu casamento, conceder perdão e novo começo, e dar um exemplo do que significa um casamento cristão. Onde as condições são desfavoráveis, a solução cristã é mudar as condições, mas não o parceiro. Mesmo em casos que parecem ser sem esperança, nos lembramos de que o Senhor que ressurgiu dos mortos pode também ressuscitar nossos casamentos para nova vida.


Referências

1 Este artigo foi traduzido do original em inglês por Francisco Alves de Pontes.

2 Eva Kohlrusch, “Seitensprung in ein neues Leben” em Bunte, n.o 28 (2000), 88-89 (traduzido).

3 Para o antecedente histórico, veja Hermann L. Strack e Paul Billerbeck, Das Evangelium nach Matthäus erläutert aus Talmud und Midrasch, Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch, Band 1 (München: C. H. Beck’sche Verlagsbuchhandlung, 1986), 304, 315-320.

4 Walter Grundmann, Das Evangelium nach Markus (Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1984), 270 (traduzido).

5 Hermann L. Strack e Billerbeck, 304, 315-320.

6 Cf.Samuele Bacchiocchi, The Marriage Covenant: A Biblical Study on Marriage, Divorce, and Remarriage (Berrien Springs, MI: Biblical Perspectives, 1991), 183.

7 Cf. Gordon J. Wenham e William E. Heth, Jesus and Divorce (Carlisie: Paternoster Press, 1984), 19-44. Esta parece ser também a opinião de A. Schlatter. Cf. Adolf Schlatter, Das Evangelium nach Matthäus (Stutgart: Calwer Verlag, 1947), 73-74. Veja também Walter Grundmann, Das Evangelium nach Lukas (Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1984), 324; Walter Grundmann, Das Evangelium nach Matthäus (Berlin: Evangelische Verlagsanstalt, 1990), 163, 428.

8 Cf. Bacchiocchi, 182.

9 Veja Wenham e Heth que discutem esta interpretação nas páginas 73-99. Cf. Craig S. Kenner, … and Marries Another: Divorce and Remarriage in the Teachings of the New Testament (Peabody: Hendrickson Publishers, 1991) e o Manual da Igreja Adventista do Sétimo Dia, edição revisada na Assembléia da Associação Geral de 2000 (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2001). Ellen G. White, O Lar Adventista (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 1996), 341-342: “Nada senão a violação do leito conjugal pode quebrar ou anular o voto matrimonial . . . Deus reconhece apenas um motivo pelo qual a esposa pode deixar seu marido ou o marido a sua esposa: o adultério.” Francis D. Nichol (ed.), The Seventh-day Adventist Bible Commentary, vol. 5 (Washington: Review and Herald, 1956), 454: “Aqui e na discussão paralela de Jesus em Mateus 5:32 isto parece estar implícito, embora não especificamente declarado, que a parte inocente de um divórcio está em liberdade de casar de novo. Esta tem sido a compreensão da grande maioria dos comentaristas ao longo dos anos.”

10 Veja “Divorce and Remarriage Study Comission Report, 22.6.99,” 5 e 10.

11 Lothar Wilhelm, “‘… das soll der Mensch nicht scheiden’? Fragen zu den Aussagen der Evangelien über Ehescheidung und Wiederverheiratung”, em Glauben heute, Jahrespräsent 1999, editado por Elí Diez (Lüneburg: Advent-Verlag, 1999), 16-33.

12 Cf. Robert M. Johnston, “Divorce and Remarriage: What the Bible Teaches” (documento preparado pelo Concílio Ministerial Mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia, 1990).

13 Bacchiocchi, 183-189, 215-216. Escreve ele na página 216: “Como deve o cristão relacionar-se com um cônjuge que persiste em seu estilo de vida perverso? A admoestação de Paulo é sem rodeios: ‘Afasta-te de tal pessoa’ (2Tm 3:5). Viver com e amar uma pessoa que espalhafatosa e obstinadamente viola os princípios morais do Cristianismo, significa desculpar tal estilo de vida imoral.”

14 (1) Casamento, divórcio e ficar solteiro (19:1-12), bênção das crianças (19:13-15), (3) o jovem rico (19:16-26), (4) recompensas do discipulado (19:27-30), e (5) parábola dos trabalhadores na vinha (20:1-16).

15 Por exemplo, “discípulo” (19:10,13,25), “o reino dos céus” (19:12,14,23; 20:1),  “pai e mãe” (19:5,19, 29), “palavra” (19:1,11, 22) e adultério (19:9,18).

16 Alguns manuscritos contêm o termo “mulher”, outros não. Novos Testamentos gregos modernos, tais como Novum Testamentum Graece de Nestle-Aland e The Greek New Testament das Sociedades Bíblicas Unidas, omitem a palavra. A passagem paralela de Marcos 10:28-30 também não menciona a mulher (em um bom número de importantes manuscritos). Porém Lucas 18:29 menciona o termo. Contudo, Lucas 18:29 e o texto sobre divórcio de Lucas 16:18 não são encontrados no mesmo contexto imediato. É verdade que temporariamente os discípulos deixaram a esposa e seguiram a Jesus. Mas posteriormente é relatado que Pedro estava viajando com sua esposa (1Co 9:5). Os contextos específicos de Mateus e Marcos que contêm a passagem sobre divórcio e novo casamento podem ter causado a omissão do termo “mulher” da lista daqueles a quem um discípulo pode ter que deixar por causa do reino dos céus. Pessoas poderiam ter chegado a errôneas conclusões que eram opostas à intenção de Jesus. No contexto de Mateus 19 e Marcos 10 era necessário enfatizar que o discipulado não conduz ao divórcio e não o permite. Mesmo em Lucas o termo “deixar” pode ter significado apenas uma separação temporária. Em 1 Coríntios 7:12-13, Paulo parece tratar do mesmo ou de um problema semelhante declarando que o crente não deve divorciar-se do incrédulo.

17 Veja Daniel Patte, The Gospel According to Matthew: A Structural Commentary on Matthew’s Faith (Philadelphia: Fortress, 1987), 261-280.

18 (1)  18:1-35    Diálogo de Jesus com os discípulos (crianças, reino dos céus)

(2)  19:1-9      Diálogo de Jesus com os fariseus

(3)   19:10-15    Diálogo de Jesus com os discípulos (crianças, reino dos céus)

19 Conexões literárias entre as cenas 1 e 2 são, por exemplo, “casar” (19:9,10), “homem” e “mulher” (19:5,12), e “motivo/relacionamento” (19:3,10).

20 Este é o mesmo termo usado por Paulo em 1 Coríntios 7:10-11.

21 Veja Strack e Billerbeck, 801.

22 Cf. Heinrich August Wilhelm Meyer, Critical and Exegetical Hand-Book to the Gospel of Matthew, reimpresso da 6ªedição de 1884 (Peabody: Hendrickson, 1983), 337.

23 Cf. Patte, 264. Na página 265 ele declara: “Por que então quereria alguém indagar se é permitido o divórcio? …O único motivo para esta atitude é que alguém não percebe o casamento como um bom presente de Deus e que, conseqüentemente, alguém vê como boa a possibilidade de separar-se da esposa…”

24 Grundmann, Das Evangelium nach Matthäus, 427 (traduzido).

25 Cf. Alexander Sand, Das Evangelium nach Matthäus, Regensburger Neues Testament (Leipzig: St. Benno-Verlag, 1989), 390.

26 Cf. Alexander Balmain Bruce, The Sinoptic Gospels, The Expositor’s Greek Testament, reimpresso (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1990), 245-246.

27 Cf. Nichol 5:338, 454.

28 Patte, 265, escreve: “Segundo os fariseus, Jesus contradiz o mandamento de Moisés concernente ao divórcio (Dt 24:1; Mt 19:7).” Eles “deliberadamente desafiam a autoridade da passagem citada por Jesus…”

29 Cf. R. T. France, The Gospel According to Matthew: An Introduction and Commentary, The Tyndale New Testament Commentaries, reimpresso da edição de 1985 (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1990), 280.

30 Grundmann, Das Evangelium nach Matthäus, 426.

31 Veja v. 3 e o assunto da tentação.

32 A frase tem sido traduzida por “qualquer coisa indecente” ou “indecência” e consiste de duas palavras (‘erwat d_b_r). O segundo termo (d_b_r) significa “palavra”, “ditado”, “matéria”, “caso”. O primeiro termo (‘erwat) é traduzido por “nudez” ou “partes pudendas” e se refere, por exemplo, à vergonhosa exibição de transgressões sexuais. Muito freqüentemente ele aparece no contexto de pecados sexuais registrados em Levítico 18 e 20 e em Ezequiel 16 e 23. Os textos de Ezequiel são encontrados no contexto de fornicação. Juntos os dois termos (‘erwat d_b_r) ocorrem somente em Deuteronômio 23:14 e 24. Deuternonômio 23:13-15 trata dos excrementos humanos, ao passo que Deuteronômio 24:1 sugere alguma espécie de má conduta sexual. Alguns afirmam que ‘erwat d_b_r não inclui adultério. Eles declaram que o adultério exigia a pena de morte por apedrejamento (Lv 20:10; Dt 22:22) mas não permitia a possibilidade ou escrito de uma carta de divórcio. É correto que um homem, que tivesse relações sexuais com uma mulher casada ou comprometida devesse morrer, o adúltero junto com a adúltera. Todavia, a pena de morte no caso de adultério nem sempre era executada. No tempo de Jesus, Herodes e Herodias (Mt 14:3-4) não foram punidos. Este não era apenas o caso de pessoas influentes cometerem adultério. A mulher adúltera de Oséias não foi executada (Os 3:1). José originalmente planejou repudiar Maria, porque acreditava que ela tivera um caso com outro homem. Ele não procurou que lhe fosse infligida a pena de morte. Jesus impediu que os líderes judeus executassem a mulher apanhada em adultério (Jo 8:5). Em Isaías 50:1 e Jeremias 3:8 a carta de divórcio é mencionada de uma forma metafórica. Israel, apresentado como a esposa de Yahweh, recebeu de Deus a carta de divórcio por causa do seu adultério. Um certificado de divórcio literal ou metafórico é escrito no Antigo Testamento somente para pecados “sexuais”. Portanto, a indecência em Deuteronômio 24:1 pode se referir a violações sexuais menores, mas às vezes também pode incluir adultério.

33 Cf. Bruce, 110; Sand, 389; David Hill, The Gospel of Matthew, New Century Bible Commentary, reimpresso da edição de 1972 (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1990), 280.

34 Cf. Sand, 391.

35 Donald A. Hagner, “Matthew 14-28”, em Word Biblical Commentary, vol. 33B (Dallas, TX: Word, 1995), 548-549.

36 Nichol, 5:454. Cf. também 5:337.

37 Cf. Meyer, 339.

38 Cf. Horst ReiBer, “Moixeúw,” in Theologisches Begrifflexikon zum Neuen Testament, editado por Lothar Coenen, Erich Beyreuther e Hans Bietenhard, 1:199-200 (Wuppertal: Theologischer Verlag R. Brockhaus, 1977), 200. Cf. Patte, 266.

39 Cf. Ekkehardt Mueller, “Fornication,” <http://biblicalresearch.gc.adventist.org>.

40 Grundmann, Das Evangelium nach Matthäus, 428.

41 Hill, 280-281.

42 Contra o novo casamento de um cônjuge que não se envolveu em adultério, questiona, por exemplo, Bruce, 110; Grundmann, Das Evangelium nach Matthäus, 428; e Hagner, 549; enquanto que o novo casamento no mesmo caso é apoiado , e.g., por France, 281-282; Keener, 43-44; Lille, 99-120; David K. Lowery, “A Theology of Matthew,” in A Biblical Theology of the New Testament, editado por Roy B. Zuck (Chicago: Moody Press, 1994), 59; e Nicol, 5:454.

43 Alguém poderia argumentar: O marido que não se divorcia de sua mulher mas casa outra vez não comete adultério. Contudo, tal raciocínio é indefensável. A passagem de Mateus 19 discute o problema do divórcio e não o assunto da poligamia. Entretanto, conforme salientado acima, por sua forte ênfase na ordem da Criação (Mt 19:4-6,8), Jesus rejeita claramente a poligamia.

44 Cf. William Lillie, Studies in New Testament Ethics (Edinburgh: Oliver and Boyd, 1961), 119-120: “O divórcio judaico tornava possível o novo casamento da mulher…  Isto estava sujeito a duas limitações que um sacerdote não podia desposar uma mulher divorciada (Lev. 21:7, 14), e que um homem não podia casar com sua ex-mulher, se nesse meio-tempo ela tivesse casado com outro (Dt 24:4)… Em vista do costume judaico contemporâneo, é extremamente improvável que o ensino cristão primitivo permitisse o divórcio mas proibisse o novo casamento, como alguns têm imaginado.

45 Cf. Keener, 43-44.

46 Por exemplo, Patte, 267.

47 Por exemplo, Hagner, 549-550; Hill, 281; Lillie, 125; Meyer, 340; Nichol, 5:455.

48 Veja France, 282.

49 Andrew Cornes, Divorce and Remarriage: Biblical Principles and Pastoral Practice (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1993), 90, escreve: “A que se refere a expressão ‘esta palavra’ (11)? A mais provável resposta é que se refere ao que foi dito pouco antes: a opinião dos discípulos de que se o novo casamento após o divórcio (ao menos em muitas, talvez em todas, as circunstâncias) é incorreto para o seguidor de Cristo (cf. 9) então o sábio procedimento é não casar (10). Jesus – talvez para surpresa deles – não descarta esta opinião de improviso. Ao contrário, para algumas pessoas isto é precisamente o que Deus tem ‘concedido’ (11)… O ponto de vista alternativo de que ‘esta palavra’ significa a proibição do divórcio por Cristo exceto em infidelidade conjugal (3-9) ou sua proibição do novo casamento (9) – é insustentável. Parece impossível que, tendo introduzido sua conclusão com as solenes palavras: ‘eu vos digo’ (9), Ele então prosseguisse para afirmar que alguns podem legitimamente recusar seu ensino porque isto não lhes foi concedido…‘ Nem pode Ele estar dizendo em 11: ‘Nem todos aceitam seu ensino, mas somente aqueles [i.e. todos os cristãos] a quem isto foi concedido’, declarando o fato um tanto óbvio de que enquanto os cristãos observarão seu ensino sobre divórcio e novo casamento, aqueles que não são cristãos não o farão. Isto provocaria uma estranha e desconexa reação ao seu protesto em 10; também tornaria o 12 (com sua conexão ‘porque’) uma estranha e incoerente observação.”

50 Veja Cornes, 92.

51 Cf. Cornes, 93.

52 Grudmann, Das Evangelium nach Matthäus, 429 (traduzido).

53 Cf. Hagner, 550.


 Fonte: Revista Parousia, 2° Semestre de 2007, UNASPRESS

PDF: Divórcio e novo casamento em Mateus 19