INTERPRETANDO CORRETAMENTE OS ESCRITOS DE ELLEN G. WHITE

REGRAS BÁSICAS DE INTERPRETAÇÃO – INTERNA

Todos querem ser compreendidos. Os mal-entendidos surgem muitas vezes quando uma declaração é retirada do contexto. Por isso, todos que foram mal compreendidos apelam para a imparcialidade e pedem que o contexto seja levado em conta. O contexto inclui pistas tanto internas quanto externas que estabelecerão a verdade sobre qualquer declaração que está sendo considerada.

Do ponto de vista interno, geralmente obtemos uma visão clara do “que” um autor quis dizer lendo as palavras, frases, parágrafos e até mesmo os capítulos que circundam a declaração confusa. Do ponto de vista externo, fazemos outras perguntas capazes de nos ajudar a entender, tais como: quando, onde, por que, e, talvez, como? “Tempo”, “lugar”, e “circunstâncias” aplicam-se ao contexto externo conforme veremos daqui a pouco.

Evidências internas

  • Regra Um: Reconheça que a Bíblia e os escritos de Ellen White são o produto da inspiração do pensamento, e não da inspiração verbal, conforme vimos no capítulo anterior.
  • Regra Dois: Reconheça que o sentido de algumas palavras podem mudar com o tempo. Por exemplo, centenas de palavras de palavras da Bíblia na versão King James (1611) mudaram de sentido ou adquiriram novos significados que não mais comunicam o sentido pretendido pelos tradutores dessa versão. Leitores superficiais certamente compreenderiam mal alguns textos bíblicos, caso não estivessem alerta para essas graves alterações no sentido das palavras. 1

Nos escritos de Ellen White também já ocorreram mudanças de sentido em palavras usadas. Com que freqüência, não têm os leitores ficado confusos com: “A mais bela [‘nicest’] obra já empreendida por homens e mulheres é lidar com espíritos jovens”? 2

Quando a Sra. White usou estas palavras mais tarde em outro contexto, percebeu o problema e aprimorou: “Esta é a obra mais delicada e mais difícil que se tem confiado a seres humanos.” 3 Que aconteceu? No século dezenove, a palavra “Nice” era muitas vezes empregada, conforme indica o dicionário, no sentido de “exigente em condições ou normas… que reivindica grande ou excessiva precisão e delicadeza ou que por isso é caracterizado.” 4

Outra palavra que assumiu hoje em dia uma acepção que não a principal no século dezenove é “intercourse”. Durante centenas de anos “intercourse” significou “trato entre pessoas” ou “intercâmbio de pensamentos e sentimentos”. Hoje é mais frequentemente usada com referência a contato sexual, um sentido que nunca se teve em vista nas centenas de ocasiões em que Ellen White empregou esta palavra. 5

  • Regra Três: Entenda o uso da hipérbole. Hipérbole é uma figura que consiste em aumentar ou diminuir exageradamente alguma coisa. João usou uma hipérbole ao afirmar que, se todos os atos de Jesus fossem escritos, “nem ainda o mundo todo poderia conter os livros que seriam escritos”. – João 21:25 A hipérbole é um recurso literário usado do começo ao fim da Bíblia. 6 Ellen White usou a proporção de “um em vinte” pelo menos um em cinco vezes, e “um  em cem”, pelo menos vinte e uma vezes. Ela não disse “um em treze” nem “um em noventa e nove”, etc. Talvez ela tenha empregado uma hipérbole quando escreveu: “É uma solene declaração que faço à igreja de que nem um entre vinte dos nomes que se acham registrados nos livros da igreja está preparado para finalizar sua história terrestre, e achar-se-ia tão verdadeiramente sem Deus e sem esperança no mundo como o pecador comum.” 7
  • Regra Quatro: Entenda o significado da frase em que a palavra está inserida. Em 1862, Ellen White escreveu que Satanás atua por intermédio da frenologia, da  psicologia e do mesmerismo. 8 Significa isto que toda psicologia é má? Obviamente não, pois em 1897 ela afirmou que “os verdadeiros princípios da psicologia são fundados nas Escrituras Sagradas”. 9 Semelhantemente, podemos observar que a televisão pode ser um instrumento pelo qual Satanás atua, mas o fato de Satanás usar a televisão não faz da televisão uma coisa má em si mesma. A psicologia, o estudo próprio para os cristãos, desde que as pressuposições sejam bíblicas, e não humanísticas.
  • Regra Cinco: Reconheça a possibilidade de expressões imprecisas.Em 1861, Ellen White escreveu um pensamento que parece incoerente com suas declarações posteriores sobre o mesmo assunto: “Frenologia e mesmerismo são por demais exaltados. Eles são bons em seu devido lugar, mas Satanás delas se utiliza como poderosos instrumentos para enganar e destruir seres humanos.” 10 Num artigo em Signs em 1844, ela havia escrito: “As ciências que tratam da mente humana são por demais exaltadas. Elas são boas em seu devido lugar, mas Satanás delas se utiliza como poderosos instrumentos para enganar e destruir seres humanos.” 11 Temos obviamente nesta declaração de 1844 uma correção editorial no pensamento que Ellen White queria comunicar a respeito das “ciências que tratam da mente humana”. A declaração de 1861, referente à frenologia e ao mesmerismo, pode ter sido um erro de impressão. É mais provável, porém que fosse uma declaração geral, corrigida posteriormente, que refletisse os termos comumente usados em meados do século dezenove para psicologia. Muitos livros que tratavam de saúde física e mental incluíam capítulos dedicados à frenologia, psicologia e mesmerismo, ou faziam propaganda de outras obras que se concentravam nessas modalidades.
  • Regra Seis: Procure cuidadosamente pelo contexto imediato (isto é, o mesmo parágrafo ou página) para esclarecimento de uma afirmação que, à primeira vista, parece problemática. Algumas pessoas, por exemplo, ficam confusas ao lerem Ellen White advertindo de que “nunca se deve ensinar aos que aceitam o Salvador… que digam ou sintam que estão salvos”. 12 Esta recomendação tencionava advertir contra a doutrina errônea de “uma vez salvo, para sempre salvo” que predomina entre a maioria dos cristãos evangélicos.

Essa advertência, porém, foi dada dentro do contexto maior que explicava como a presunção de Pedro o havia levado à trágica negação de seu Senhor naquela noite de quinta-feira. Escreveu ela: ”Jamais podemos confiar seguramente em nós mesmos ou sentir, aquém do Céu, que estamos livres da tentação. [Neste ponto entra a afirmação frequentemente mal compreendida.] Isso é enganoso. Deve-se ensinar cada pessoa a acariciar esperança e fé; mas, mesmo quando nos entregamos a Cristo e sabemos que Ele nos aceita, não estamos fora do alcance da tentação. … Nossa única segurança está na constante desconfiança de nós mesmos e na confiança em Cristo.” 13 Outro exemplo da importância do contexto se encontra na afirmação de Ellen White de que “os servos de Deus não podem trabalhar por meio de milagres, pois realizações falsas de cura, dizendo-se divinas, serão realizadas.” 14 Essa afirmação parece em desacordo com a posição adventista de que “todos” os dons espirituais concedidos à igreja cristã – (I Cor. 12 e Efés. 4) continuarão até o fim do tempo. – (I Cor. 1:7) Parece também contradizer o próprio comentário de Ellen White de que nos últimos dias “operar-se-ão prodígios, os doentes serão curados e sinais e maravilhas seguirão aos crentes”. 15 Como entendemos tudo isso? A aparente contradição surge quando se deixa de ler toda a página cuidadosamente. 16 Ellen White insiste em dois pontos. Em primeiro lugar, ela discute especificamente as atuais condições: referindo-se às “operações miraculosas de cura”, ela diz que “não podemos agora trabalhar dessa maneira” (grifo nosso). Em segundo lugar, ela estava apresentando a instrução do Senhor para o tempo presente: a “obra de cura física em combinação com o ensino da Palavra” seria mais bem efetuada no estabelecimento de “hospitais” onde “obreiros… levarão a cabo a obra médico-missionária genuína. … Esta é a provisão feita pelo Senhor, mediante a qual deve ser realizada a obra médico missionária em favor das [muitas] almas.” 17 Em outras palavras, no tempo presente, caracterizado por muitos exemplos de falsos milagres de cura, a obra de cura divina pode ser mais bem feita nos hospitais mediante um programa de ensino inteligente sobre a causa e a cura das doenças. Outra “citação errônea” afirma que “rir é pecado”, usando a citação: Cristo chorou muitas vezes, mas nunca se tem conhecimento de que tenha rido. … Imitem o divino e infalível Modelo”. Pelo que sabemos a respeito de Jesus na Bíblia, essa afirmação soa de modo estranho. Afinal de conta, por que razão as crianças ficavam de maneira tão entusiástica ao redor dEle? É aí que percebemos a elipse. Alguma coisa está faltando. Comparamos a passagem e o contexto. Ellen White aqui está aconselhando um membro da igreja que “não tinha percebido a necessidade de educar-se para ser mais cuidadosa em palavras e atos. … Minha irmã, você fala demais. … Sua língua tem causado muito prejuízo. … Sua língua ateia um incêndio, e você se diverte com a conflagração. … Brinca, faz piadas e envolve-se em hilaridade e riso. … Cristo é nosso exemplo. Você imita o grande Exemplo? Cristo chorou muitas vezes, mas nunca se tem conhecimento de que tenha rido. Não digo que seja pecado rir em todas as ocasiões, mas não podemos desviar-nos do bom caminho se imitarmos o divino e infalível Modelo. … Ao contemplarmos o mundo envolto em trevas e enredado por Satanás, como podemos empenhar-nos em leviandade e hilaridade, proferindo palavras descuidadas, falando a esmo, rindo, gracejando e contando piadas?… As Escrituras não condenam a alegria cristã, mas censuram o falar imprudente.” 18 Percebemos aqui que o contexto põe um novo molde sobre a citação errônea. “Rir” neste contexto significava atitude descuidada e imprópria na maneira de falar e de agir, uma pilhéria e zombaria que haviam “demonstrado falta de sabedoria em usar a verdade de maneira a levantar oposição, despertar a combatividade e fazer guerra em vez de possuir um espírito pacífico e verdadeira humildade mental”. 19 Ellen White não estava condenando o riso apropriado, conforme ela deixou bem claro, mas colocou seu conselho em uma perspectiva equilibrada.

  • Regra Sete: Reconheça que o significado de uma palavra pode mudar quando é usada em um novo contexto. O termo “porta fechada” podia significar várias coisas para os adventistas ex-mileritas. Para Ellen White, significava algo diferente. Tiago White e José Bates redefiniram o uso do termo entre 1844 e 1852. 20 Outras palavras que Ellen White usava e que talvez pareçam obsoletas hoje, como “Office”, que na maioria das vezes se referia aos escritórios administrativos da editora, embora algumas vezes servisse para designar a sede da Associação Geral. 21
  • Regra Oito: Reconheça que o desafio da semântica reside em toda comunicação. As palavras significam coisas diferentes para diferentes pessoas, em virtude das diferenças pessoais como educação, faixa etária, experiências espirituais, localização geográfica e gênero. Ellen White mencionou este problema:”Há muitos que interpretam o que eu escrevo à luz de suas próprias opiniões preconcebidas. … Uma divisão na compreensão e opiniões divergentes são o infalível resultado. Como escrever de maneira a ser compreendida por aqueles a quem dirijo importante assunto constitui um problema que não consigo resolver. Quando vejo que sou mal compreendida por meus irmãos que me conhecem bem, compreendo que devo tomar mais tempo para expressar cuidadosamente meus pensamentos no papel, pois o Senhor me dá luz que não me atrevo a fazer outra coisa senão comunicá-la; e grande fardo repousa sobre mim.” 22 Para um escritor, a tarefa de evitar mal-entendidos é mais difícil do que apenas procurar fazer-se entender, pois o escritor deve estar conscientemente alerta para os problemas semânticos. [trecho extraído do livro Mensageira do Senhor, p. 388-391]

Notas:

1 Os exemplos em que se compara KJV (Versão King James) com NKJV (Nova Versão King James) incluem: abroad/outside (Deut. 24:11), allege/demonstrate (Atos 17:3), anon/immediatelly ou at once (Mar. 1:30), bowells/heart (Gên. 43:40), by and by/immediatelly (Mar. 6:25), charity/love (I Cor. 13), communicate/share (Gál. 6:6), conversation/conduct (I Ped. 3:1 e 2), feeble- minded/fainthearted (I Tess. 5:14), forwardness/willingness (II Cor. 9:2), let/hindered (Rom. 1:13), meat/food (Mat. 6:25), nephew/grandsons (Juí. 12:14), outlandish women/ pagan women (Nee. 13:26), peculiar/special (Tito 2:14), reins/hearts (Sal. 7:9), suffer/let (Mat. 19:14), vain/worthless (Juí. 9:4), virtue/power (Luc. 6:19), witty inventions/ discretion (Prov. 8:12).

2 Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 73, grifo nosso.

3 Educação, p. 292.

4 Webster’s Ninth New Collegiate Dictionary (Springfield, MA: Merriam-Webster Inc., Publishers, 1983).

5 “Os discípulos oraram com intenso fervor para serem habilitados a se aproximar dos homens, e em seu trato [intercourse] diário falar palavras que levassem os pecadores a Cristo”. – Atos dos Apóstolos, p. 37. “Por meio do intercâmbio [intercourse] social formam-se relações e amizades que dão em resultado certa unidade de coração e uma atmosfera de amor que agradam ao Céu”. – O Lar Adventista, p. 457.

6 Compare Êxo. 9:6 com Isa. 19. O uso frequente de “todo” é muitas vezes um exemplo da hipérbole hebraica.

7 Serviço Cristão, p. 41 (1893).

8 Review and Herald, 18 de fevereiro de 1862.

9 Minha Consagração Hoje, p. 176.

10 Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 296.

11 Signs of the Times, 6 de novembro de 1884.

12 Parábolas de Jesus, p. 155.

13 Ibidem. Ver também Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 314.

14 Medicina e Salvação, p. 14.

15 O Grande Conflito, p. 612; ver também Primeiros Escritos, p. 278; Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, p. 126.

16 Medicina e Salvação, p. 14.

17 Ibidem.

18 Manuscrito 11, 1868, citado em MR, vol. 18, p. 368-370.

19 Ibidem, p. 369.

20 Ver pp. 554-565 para um estudo da questão da “porta fechada”.

21 Ver vol. 3 do Comprehensive Index to the Writings of Ellen G. White, p. 3185-3188,

para um “glossário de palavras obsoletas e pouco usadas e vocábulos com

significados mudados”.

22 Carta 96, 1899, citada em parte em Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 79.


PDF: REGRAS BÁSICAS DE INTERPRETAÇÃO: INTERNA