COMO DEVEMOS INTERPRETAR A MENSAGEM? –

HERMENÊUTICA DOS ESCRITOS DE ELLEN G. WHITE

Condensado e adaptado de Reading Ellen White, de George R. Knight 

A comunicação divina se origina em Deus, como a própria expressão o indica. Destina-se, contudo, a seres humanos que, desde a entrada do pecado, têm percepções limitadas e, muitas vezes, completamente contrárias, sobre as grandes questões da vida. A Bíblia nos diz que a mensagem divina pode ser mal interpretada e mal empregada (II Ped. 3:16). Ao mesmo tempo, o Espírito Santo oferece ajuda àqueles que honestamente querem conhecer a verdade (Efés. 1:17-19).

O modo como percebemos e interpretamos a mensagem de Deus, e finalmente lidamos com ela, determinará se a mensagem cumpre os objetivos de Deus ao comunicá-la. Se o receptor humano não está disposto a receber a comunicação, ou a apreende de maneira incorreta, ou a rejeita porque ela não satisfaz suas expectativas ou porque ela confronta o indivíduo com mudanças em seu estilo de vida costumeiro, então o propósito de Deus não é cumprido, e esta pessoa é deixada à sua própria sorte.

Hermenêutica é a palavra que os estudiosos usam para se referirem aos procedimentos para interpretarem escritos do passado. Segue alguns princípios para interpretar corretamente os escritos de Ellen G. White.

Começar com uma atitude positiva. Primeiro, comece seu estudo com uma prece pedindo orientação e compreensão. O Espírito Santo, que inspirou o trabalho dos profetas através dos tempos, é o único que pode revelar o significado de seus escritos.

Segundo, precisamos abordar nosso estudo com uma mente aberta. A maioria de nós compreende que nenhuma pessoa está livre de preconceitos, ninguém tem uma mente completamente aberta. Também reconhecemos que o preconceito entra em todas as áreas de nossa vida. Mas esse fato não significa que precisamos deixar nossos preconceitos nos controlarem.

Uma terceira atitude mental saudável ao ler os escritos de Ellen White é a da fé em vez da dúvida. Como Ellen White disse, “muitos consideram uma virtude e indício de inteligência o mostrar-se incrédulo, questionar e contradizer. Os que querem duvidar têm suficiente oportunidade para isso. Deus não Se propõe a fazer desaparecer toda ocasião para a incredulidade. Apresenta evidências que precisam ser cuidadosamente investigadas com espírito humilde e susceptível ao ensino; e todos devem julgar pela força dessas mesmas evidências” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 3, p. 255). “Deus oferece suficiente evidência para a mente sincera crer; mas aquele que se desvia do peso da evidência porque há umas poucas coisas que não pode tornar claras à sua compreensão finita será deixado na atmosfera fria e insensível da descrença e das dúvidas questionadoras e naufragará na fé” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 4, pp. 232-233).

Se as pessoas esperarem que toda a possibilidade de dúvida seja removida, nunca irão crer. E isso se aplica tanto para a Bíblia como para os escritos de Ellen White. Nossa aceitação está baseada na fé ao invés de na demonstração de absoluta perfeição. Ellen White parece estar correta quando escreve que “os que mais têm a dizer contra os testemunhos são em geral os que não os leram, da mesma maneira que os que se gabam de sua incredulidade na Bíblia são os que têm pouco conhecimento de seus ensinos” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pp. 45-46).

Concentrar-se nos temas centrais. Uma pessoa pode ler escritos inspirados de pelo menos duas formas. Uma é procurar os temas centrais de um autor; a outra é procurar as coisas que são novas e diferentes. A primeira maneira leva ao que pode ser considerado como uma teologia central, enquanto a segunda produz uma teologia periférica. Usar uma teologia periférica pode ajudar uma pessoa a chegar à uma “nova luz”, mas, no final, tal luz pode mais parecer trevas quando examinada no contexto dos ensinos centrais e consistentes da Bíblia.

O que torna os ensinos de muitos apóstolos da “nova luz” tão impressionantes é sua óbvia sinceridade e o fato de que muito do que eles têm a dizer pode ser uma verdade necessária. Como podemos dizer quando estamos no centro ou nas extremidades do que realmente é importante? Em seu livro Educação, Ellen White escreveu: “A Bíblia explica-se por si mesma. Textos devem ser comparados com textos. O estudante deve aprender a ver a Palavra como um todo, e bem assim a relação de suas partes. Deve obter conhecimento de seu grandioso tema central, do propósito original de Deus em relação a este mundo, da origem do grande conflito, e da obra da redenção. Deve compreender a natureza dos dois princípios que contendem pela supremacia, e aprender a delinear sua operação através dos relatos da História e da profecia, até à grande consumação. Deve enxergar como esse conflito penetra em todos os aspectos da experiência humana, como em cada ato de sua vida ele próprio revela um ou outro daqueles dois princípios antagônicos a decidir de que lado do conflito estará” (p. 190).

Uma passagem similar, sobre o “grande tema central” da Bíblia, define o tema fundamental da Escritura de forma ainda mais precisa. Lemos: “O tema central da Bíblia, o tema em redor do qual giram todos os outros no livro, é o plano da redenção, a restauração da imagem de Deus na alma humana.” “Encarado à luz” do grandioso tema central da Bíblia, “cada tópico tem nova significação” (Ibid., p. 125).

Em tais passagens encontramos instruções para a leitura tanto da Bíblia como dos escritos de Ellen White: ler para entender o contexto geral; ler para descobrir os grandes temas centrais. O propósito da revelação de Deus para a humanidade é a salvação. Essa salvação se concentra na cruz de Cristo e no nosso relacionamento com Deus. Toda a nossa leitura necessita ser dentro deste contexto, e os assuntos mais próximos do grandioso tema central são obviamente mais importantes do que aqueles que se encontram na periferia.

É nossa tarefa como cristãos nos concentrar nos assuntos centrais da Bíblia e dos escritos de Ellen White ao invés de nos temas secundários. Se assim fizermos, os assuntos secundários se encaixarão nos lugares corretos dentro da perspectiva apropriada no contexto do “grandioso tema central” da revelação de Deus para o Seu povo.

Considerar os problemas de comunicação. O processo de comunicação não é tão simples como podemos pensar a princípio. O assunto estava certamente em primeiro plano no pensamento de Tiago White enquanto ele assistia sua esposa lutar para conduzir os primeiros adventistas para o caminho da reforma. Em 1868, ele escreveu que “o que quer que ela diga para apressar os lentos, é tomado pelos apressados como motivo para se adiantarem demais. E o que ela diga para advertir os apressados, zelosos, incautos, é tomado pelos lentos como uma desculpa para se atrasarem demais” (Review and Herald, 17 de março de 1868).

Quando lemos os escritos de Ellen White precisamos ter constantemente diante de nós a dificuldade que ela enfrentou com a comunicação básica. Além da dificuldade com as personalidades variadas, mas relacionado a isto, estava o problema de imprecisão do significado das palavras e o fato de que pessoas diferentes com experiências diferentes interpretam diferentemente as mesmas palavras.

“Variam os espíritos humanos”, escreveu Ellen White em relação à leitura da Bíblia. “Mentes de educação e pensamento diverso recebem diferentes impressões das mesmas palavras, e difícil é a um espírito transmitir a outro de temperamento, educação e hábitos de pensamento diferentes, através da linguagem, exatamente a mesma idéia que é clara e distinta em seu próprio espírito… A Bíblia precisa ser dada na linguagem dos homens. Tudo quanto é humano é imperfeito. Significações diversas são expressas pela mesma palavra; não há uma palavra para cada idéia distinta. A Bíblia foi dada para fins práticos.

“Diferentes são os cunhos mentais. As expressões e declarações não são compreendidas da mesma maneira por todos. Alguns entendem as declarações das Escrituras segundo sua mente e casos especiais. As prevenções, os preconceitos e as paixões têm forte influência para obscurecer o entendimento e confundir a mente mesmo ao ler as palavras da Santa Escritura” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pp. 19- 20).

O que Ellen White disse sobre os problemas de significado e palavras com relação à Bíblia também serve para os seus próprios escritos. A comunicação num mundo decadente nunca é fácil, nem mesmo para os profetas de Deus.

Precisamos ter em mente os problemas básicos de comunicação ao lermos os escritos de Ellen White. Pelo menos, tais fatos devem nos advertir em nossa leitura a fim de que não enfatizemos demais esta ou aquela idéia particular que possa ter chamado nossa atenção ao estudarmos o conselho de Deus para Sua igreja. Desejaremos nos certificar de que lemos extensamente o que Ellen White apresentou sobre determinado assunto e de que estudamos as declarações que possam parecer extremadas à luz de outras declarações que possam moderá-las ou equilibrá-las. Todo estudo dessa natureza, é claro, deve ser feito tendo-se em mente o contexto histórico e literário de cada declaração.

Estudar todas as informações disponíveis sobre o tópico. Quando lemos a seleção completa de conselhos que Ellen White escreveu sobre um assunto, a imagem é completamente diferente de quando lidamos somente com uma parte de seu material ou com citações isoladas. Muitas vezes em seu longo ministério, Ellen White teve que lidar com aqueles que apenas levavam em conta parte de seu conselho. Ela disse aos delegados da seção da Conferência Geral de 1891: “Quando serve ao vosso desígnio, tratais os Testemunhos como se neles crêsseis, citando trechos deles para reforçar qualquer declaração em que desejais prevalecer. Como é, porém, quando o esclarecimento é dado para corrigir-vos os erros? Aceitais a luz? Quando os Testemunhos falam contrariamente às vossas idéias, então os tratais com desprezo” (Ibid., p. 43). É importante ouvir o conselho na íntegra.

Ao longo desta linha encontramos duas maneiras de abordar os escritos de Ellen White. Uma reúne todo seu material concernente a um assunto. A outra seleciona da obra de Ellen White somente aquelas declarações, parágrafos, ou materiais mais extensos que podem ser empregados para sustentar uma idéia particular. A única maneira confiável é a primeira. Um passo importante para ser fiel à intenção original de Ellen White é ler o máximo possível de conselhos disponíveis sobre um tópico.

E não só devemos basear nossa conclusão no espectro total do pensamento dela sobre determinado assunto, mas essa conclusão precisa estar em harmonia com o teor geral do corpo de seus escritos. Tanto idéias preconcebidas quanto premissas infundadas, raciocínio errôneo, ou outros maus usos de seu material podem levar à conclusões falsas.

Evitar interpretações extremadas. A história da igreja cristã está entremeada de pessoas que aplicaram as interpretações mais extremadas aos conselhos de Deus e então definiram seu fanatismo como “fidelidade”. A propensão para o extremismo parece ser parte integrante da natureza humana caída. Deus tem procurado corrigir essa tendência por meio de Seus profetas.

Embora o equilíbrio tenha assinalado os escritos de Ellen White, nem sempre caracteriza aqueles que os lêem. Ellen White teve de lidar com extremistas durante todo o seu ministério. Em 1894, ela salientou que “há uma classe de pessoas sempre dispostas a escapar por alguma tangente, que desejam apreender qualquer coisa estranha, maravilhosa e nova; mas Deus quer que todos procedam calma e ponderadamente, escolhendo as palavras em harmonia com a sólida verdade para este tempo, a qual precisa, tanto quanto possível, ser apresentada ao espírito isenta do que é emocional, conquanto ainda levando a intensidade e solenidade que lhe convém. Devemos guardar-nos de criar extremos, de animar os que tendem a estar ou no fogo, ou na água” (Testemunhos Para Ministros, pp. 227-228).

Quase quatro décadas antes, Ellen White havia escrito: “Vi que muitos tiram vantagem do que Deus mostrou com respeito aos pecados e erros dos outros. Tiram conclusões extremadas do que me foi mostrado em visão, e usam-nas de tal maneira a enfraquecer a fé de muitos naquilo que Deus tem mostrado” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 1, p. 166).

Parte de nossa tarefa ao ler Ellen White é evitar interpretações extremadas e entender sua mensagem com equilíbrio. Isto, por sua vez, significa que precisamos ler o conselho sobre determinado assunto a partir de ambos os lados do espectro.

Um exemplo disto são suas veementes palavras sobre jogos. “Entregando-se a diversões, jogos competitivos e façanhas pugilísticas”, ela escreveu, os estudantes de Battle Creek College “declararam ao mundo que Cristo não era seu guia em nenhuma destas coisas. Tudo isso provocou a advertência de Deus”. Esta é uma declaração poderosa, assim como outras parecidas e que têm É impossível enfatizar demais o fato de que o tempo e o lugar são fatores cruciais para nossa compreensão quando lemos os escritos de Ellen White. Uma forma de usar seus escritos erroneamente é ignorar as implicações de tempo e lugar, e desta forma procurar aplicar o sentido “ao pé da letra” de cada conselho de forma universal.

Nos escritos de Ellen White, conselhos como os que recomendam às escolas que ensinem as moças “a arrear e cavalgar” de forma que “estariam melhor adaptadas a enfrentar as emergências da vida” (Educação, pp. 216-217); a advertência tanto aos jovens quanto aos mais velhos em 1894 para que fugissem da “influência enfeitiçante” da “mania de bicicletas” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, pp. 51-52); e o conselho a um administrador em 1902 para que não comprasse um automóvel para transportar pacientes da estação ferroviária para o sanatório porque isso era um gasto desnecessário e demonstraria ser “uma tentação para outros fazerem a mesma coisa” (Carta 158, 1902), são claramente condicionados ao tempo e lugar. Outras declarações que também podem estar condicionadas ao tempo e lugar não são tão óbvias (especialmente nas áreas sobre as quais nos inclinamos a ter fortes opiniões), mas precisamos manter nossos olhos e mente abertos a esta possibilidade.

Outro aspecto da questão de tempo e lugar nos escritos de Ellen White é que, para muitos dos seus conselhos, o contexto histórico é um tanto pessoal, visto que ela escreveu para um indivíduo em sua situação específica. Lembre-se sempre que por trás de cada conselho existe uma situação específica com suas próprias peculiaridades e um indivíduo com suas possibilidades e problemas pessoais. Sua situação pode ou não ser paralela à nossa. Desta maneira, o conselho pode ou não ser aplicável a nós numa dada circunstância.

Estudar cada declaração em seu contexto literário. Na seção anterior notamos que é importante entender os conselhos de Ellen White em seu contexto histórico original. Nesta seção examinaremos a importância de ler suas declarações considerando a estrutura literária dos escritos.

As pessoas têm freqüentemente baseado sua compreensão dos ensinamentos de Ellen White a partir de um fragmento de um parágrafo ou de uma declaração isolada e inteiramente removida de seu contexto. Portanto, ela escreve que “muitos estudam as Escrituras com a finalidade de provar que suas próprias idéias são corretas. Mudam o sentido da Palavra de Deus para que corresponda a suas próprias opiniões. E também procedem com os testemunhos enviados por Ele. Citam metade de uma frase, e omitem a outra metade, a qual, se fosse citada, mostraria que o seu raciocínio é falso. Deus tem uma controvérsia com os que torcem as Escrituras, fazendo com que se ajustem a suas idéias preconcebidas” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 82). Em outra ocasião ela comenta sobre aqueles que ao “separarem… declarações de seu contexto, e colocarem-nas junto a raciocínios humanos, fazem parecer que os meus escritos apóiam aquilo que na verdade eles condenam” (Carta 208, 1906).

Ellen White repetidamente se aborreceu com aqueles que selecionavam “uma sentença aqui e ali, tirando-a de sua devida ligação, e aplicando-a segundo sua idéia” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 44). Em outra ocasião ela observou que “trechos” de seus escritos “podem dar uma impressão diferente daquela que dariam, fossem eles lidos em sua relação original” (Ibid., p. 58).

William Clarence White, filho de Ellen White, muitas vezes teve de lidar com o problema de pessoas usando material fora de seu contexto literário. Em 1904 ele notou que “muitos equívocos tem surgido devido ao mau uso de passagens isoladas dos Testemunhos, em casos onde, se todo o Testemunho ou todo o parágrafo tivesse sido lido, teria sido feita sobre as mentes uma impressão completamente diferente da impressão feita pelo uso de frases escolhidas” (W. C. White para W. S. Sadler, 20 de janeiro de 1904).

O estudo do contexto literário não é algo opcional no que tange a declarações inspiradas – é parte essencial de uma leitura fidedigna dos escritos de Ellen White. É impossível superestimar a importância de estudar os artigos e livros de Ellen White dentro dos seus contextos em vez de meramente ler compilações por assunto ou selecionar citações sobre este ou aquele tópico através de pesquisas por palavra feitas no computador. Tais ferramentas têm seu lugar, mas deveríamos usá-las em conexão com uma leitura mais abrangente que auxilie a nos conscientizarmos não apenas do contexto literário das declarações de Ellen White, mas também do equilíbrio geral dentro de seus escritos.

Reconhecer o conceito de Ellen White sobre o ideal e o real. Ellen White freqüentemente sentiu-se incomodada “pelos que escolhem as expressões mais fortes dos testemunhos e sem fazer uma exposição ou um relato das circunstâncias em que são dados os avisos e advertências, querem impô-los em todos os casos… Escolhendo algumas coisas nos testemunhos, impõem-nas a todos, e, em vez de ganhar almas, repelem-nas” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, pp. 285, 286).

Sua observação não só realça o fato de que precisamos levar em consideração o contexto histórico das declarações quando lemos seu conselho, mas também indica que ela pôs algumas declarações em uma linguagem mais forte ou mais enérgica do que outras. Essa idéia nos conduz ao conceito do ideal e do real nos escritos Ellen White.

Quando Ellen White está expondo o ideal, ela freqüentemente usa uma linguagem mais forte. É como se ela precisasse falar em voz alta a fim de ser ouvida. Uma declaração desse tipo aparece em Fundamentos da Educação Cristã. “Jamais”, ela exortou, “poderá ser dada a devida educação aos jovens deste país, ou de qualquer outro, a menos que estejam separados a uma vasta distância das cidades” (Ibid. p. 312).

Ora, ela não poderia ter feito uma declaração mais vigorosa que esta. Não só é inflexível, mas parece implicar universalidade em termos de tempo e espaço. Não há palavra mais forte que “jamais”. Em seu sentido mais estrito ele não permite exceções. Ela usa o mesmo tipo de linguagem enérgica, inflexível, em termos de localização – “deste país, ou de qualquer outro”. Mais uma vez a simples leitura das palavras não permite exceções. Estamos lidando com o que parece ser uma proibição universal em relação à construção de escolas nas cidades. Mas a afirmação é ainda mais forte. Tais escolas não devem ser meramente fora das cidades, mas “separadas a uma vasta distância” delas. Aqui está uma linguagem inflexível que não sugere qualquer exceção.

A essa altura é importante examinar o contexto histórico em que ela fez a declaração. De acordo com a referência fornecida pelo livro (p. 327), este conselho foi publicado pela primeira vez em 1894. Mas em meados de 1909 a obra adventista em grandes cidades estava crescendo. E aquelas cidades tinham famílias que não podiam arcar com as despesas de enviar seus filhos para instituições rurais. Sendo assim, Ellen White aconselhou a construção de escolas nas cidades. “Tanto quanto possível”, lemos, “devem elas [as escolas] ser abertas fora das cidades. Entretanto, nas cidades há muitas crianças que não podem ir à escola se esta se localizar fora; em benefício das mesmas, sejam também abertas escolas nas cidades, tanto quanto no campo” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 9, p. 201).

A esta altura você pode estar se perguntando como a mesma mulher poderia afirmar que uma educação adequada “jamais” poderia ser dada na Austrália “ou qualquer outro país, a menos que [as escolas] estejam separadas a uma vasta distância das cidades” (Fundamentos da Educação Cristã, p. 312) e ainda defender o estabelecimento de escolas nas cidades. A resposta é que a educação a ser ministrada num ambiente rural para todas as crianças era o ideal que a igreja deveria procurar pôr em prática “na medida do possível”. Mas a verdade é que as dificuldades da vida tornam tal educação impossível para alguns. Assim, a realidade exigiu uma solução conciliatória para que a educação cristã pudesse alcançar as crianças de famílias mais pobres. Ellen White entendeu e aceitou a tensão entre o ideal e o real.

Infelizmente, muitos de seus leitores deixam de levar este fato em consideração. Concentram-se apenas nas declarações “mais fortes” da escritora, aquelas que expressam o ideal, e ignoram as passagens mais moderadas. Dessa maneira, como notamos acima, “escolhendo algumas coisas nos testemunhos, impõe-nas a todos, e, em vez de ganhar almas, repelem-nas” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 286).

Ellen White tem mais equilíbrio que muitos de seus assim chamados seguidores. Os seguidores genuínos devem levar em conta a compreensão que ela possuía da tensão entre o ideal e o real ao aplicar seus conselhos. Ela teve mais flexibilidade ao interpretar seus escritos do que muitos imaginam. Ela não somente se preocupava com fatores contextuais quando aplicava conselhos a diferentes situações, mas também tinha uma compreensão distinta da diferença entre o plano ideal de Deus e a realidade da situação humana que às vezes requeria a modificação do ideal. Por esta razão, é importante que não ajamos somente com base nas expressões “mais fortes” de seus escritos, procurando impô-las “a todos” (Ibid., pp. 285-286).

Usar o bom senso. Sabe-se que os adventistas do sétimo dia discordam e às vezes até discutem sobre alguns dos conselhos de Ellen White. Esta situação é especialmente verdadeira a respeito das declarações que parecem tão claras e diretas. Uma declaração como esta aparece no Fudamentos da educação Cristã: “Os pais devem ser os únicos professores de seus filhos até que eles tenham atingido oito ou dez anos de idade” (p. 61).

Essa passagem é uma excelente candidata para uma interpretação inflexível. Afinal, ela é bastante categórica. Não oferece condições nem dá pistas quanto a exceções. Ela não contém nenhum “se”, “e”, “ou” ou “mas” para modificar seu impacto, mas afirma claramente como fato que “os pais devem ser os únicos professores de seus filhos até que eles tenham atingido oito ou dez anos de idade”. Ellen White publicou a declaração pela primeira vez em 1872. O fato de o assunto ter reaparecido em seus escritos em 1882 e 1913, teve indubitavelmente o efeito de fortalecer o que parece ser sua natureza incondicional.

O que é, contudo bem interessante, é que o desacordo sobre esta declaração nos proporcionou talvez o melhor registro que possuímos de como Ellen interpretava seus próprios escritos.

Os adventistas que viviam perto do Sanatório Santa Helena, no norte da Califórnia, construíram uma escola paroquial em 1902. As crianças mais velhas a freqüentavam, enquanto alguns pais adventistas negligentes deixavam seus filhos mais novos ficarem livremente pela vizinhança sem um acompanhamento adequado e disciplina. Alguns dos membros do conselho escolar criam que deveriam construir uma sala de aula para as crianças menores, mas outros declararam que seria errado agir desta maneira, porque Ellen White havia declarado claramente que “os pais devem ser os únicos professores de seus filhos até que eles tenham atingido oito ou dez anos de idade”.

Uma facção do conselho escolar aparentemente achava que era mais importante dar alguma assistência àquelas crianças negligenciadas do que apegar-se à letra da lei. A outra facção acreditava que tinham uma ordem inflexível, um “testemunho direto” ao qual precisavam obedecer. Para dizer as coisas de maneira branda, o assunto dividiu o conselho escolar. Foram então feitos arranjos para uma entrevista com Ellen White.

Logo no início da entrevista, Ellen White reafirmou sua posição de que o ideal seria a família ser a escola das crianças pequenas. Ela disse: “O lar é tanto uma igreja de família como uma escola de família” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, p. 214). Esse é o ideal que pode ser encontrado ao longo de todos os seus escritos. A igreja e a escola institucionais existem para suplementar o trabalho de uma família saudável. Isso é o ideal.

Mas, como vimos na seção anterior, o ideal nem sempre é o real. Ou, em outras palavras, a realidade está muitas vezes aquém do ideal. Assim, Ellen White continuou: “As mães devem [mais precisamente, no original, deviam] estar em condições de instruir sabiamente seus filhinhos durante os primeiros anos da infância. Se toda mãe fosse capaz de fazer isso, e tomasse tempo para ensinar a seus filhos as lições que eles deviam aprender no começo da vida, todas as crianças poderiam permanecer então na escola do lar até que tivessem oito, nove ou dez anos” (Ibid., pp. 214, 215).

Aqui começamos a perceber como Ellen White lidou com uma realidade que modifica a natureza explícita e incondicional de sua declaração sobre os pais serem os únicos professores de seus filhos até oito ou dez anos de idade. O ideal é que as mães “deviam” ser capazes de atuar como as melhores professoras. Mas o realismo se impõe quando Ellen White usa palavras como “se” e “então”. Ela definitivamente deixa subentendido que nem todas as mães são capazes e nem todas estão dispostas a fazer isto. Mas “se” forem capazes e estiverem dispostas, “todas as crianças poderiam permanecer então na escola do lar”.

Durante a entrevista, ela observou que “Deus deseja que lidemos sensatamente com esses problemas” (Ibid., p. 215). Ellen White ficava muito perturbada com os leitores que tomavam uma atitude inflexível com respeito a seus escritos e procuraram seguir a letra de sua mensagem enquanto perdiam de vista os princípios que estavam por trás da mesma. Ela mostrou desaprovação em relação tanto às palavras quanto às atitudes de seus rígidos intérpretes quando declarou: “… Meu espírito tem sido muito agitado quanto à idéia: ‘Ora, a irmã White disse assim e assim, e a irmã White falou isto ou aquilo; e, portanto, procederemos exatamente de acordo com isso.’” Ela então acrescentou que “Deus quer que todos nós tenhamos bom senso, e deseja que raciocinemos movidos pelo senso comum. As circunstâncias modificam a relação das coisas” (Ibid., p. 217).

Ellen White era tudo menos inflexível ao interpretar seus próprios escritos, e é sumamente importante que compreendamos esse fato. Ela não tinha dúvida de que o uso descuidado de suas idéias poderia ser prejudicial. Desta maneira, não é de se admirar que ela tenha dito que “Deus quer que todos nós tenhamos bom senso” ao usarmos trechos de seus escritos, mesmo quando expressou tais trechos na linguagem mais forte e mais incondicional.

Descobrir os princípios que estão por trás das mensagens. Em julho de 1894, Ellen White mandou uma carta para a sede da denominação em Battle Creek, Michigan, na qual ela condenava a compra e o uso de bicicletas (Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, pp. 50-53). À primeira vista, parece estranho que uma questão como essa pudesse ser considerada suficientemente importante para um profeta tratar dela. E ainda mais estranho parece quando percebemos que a questão das bicicletas tinha sido especificamente revelada em visão.

Como poderíamos aplicar tal conselho hoje em dia? Isto significa que os adventistas do sétimo dia não devem possuir bicicletas? Ao responder essa questão precisamos primeiro examinar o contexto histórico. Em 1894, a bicicleta moderna estava apenas começando a ser fabricada, e rapidamente cresceu a mania de se adquirir bicicletas, não para o propósito de se ter em mãos um transporte econômico, mas simplesmente para estar na moda, participar de corridas de bicicleta, e exibi-las pela cidade. À noite, tal desfile incluía o pendurar lanternas japonesas nas bicicletas. Andar de bicicleta era “o máximo” – era o que você precisava fazer se ocupava um lugar na escala social.

Trechos de um artigo intitulado “Quando o mundo inteiro saiu pedalando” nos ajudarão a entrar no contexto histórico do conselho sobre bicicletas. “Ao final do século passado”, lemos, “o povo americano foi tomado por uma paixão consumista que o deixou sem tempo ou dinheiro para qualquer outra coisa… Qual foi esta nova distração? Para ter uma resposta, os comerciantes tinham apenas de olhar pela janela e assistir seus antigos fregueses passarem zunindo. A América tinha descoberto a bicicleta, e todo mundo estava aproveitando ao máximo a nova liberdade que ela trazia…. A bicicleta começou como um brinquedo de rico. A sociedade e as celebridades se colocaram sobre rodas.

“A melhor dentre as primeiras bicicletas custava $150, um investimento comparável ao custo de um automóvel hoje em dia…. Cada membro da família queria um ‘par de rodas’, e as economias da família inteira eram esgotadas para satisfazer a demanda” (Reader’s Digest, dezembro de 1951).

À luz do contexto histórico, a declaração de Ellen White em 1894 em relação às bicicletas ganha um novo significado. Ela escreveu que “parecia haver uma mania de bicicletas. O dinheiro era gasto para gratificar um entusiasmo nesta direção, quando o valor poderia ter sido melhor, bem melhor, investido na construção de casas de culto onde elas são grandemente necessárias. … Uma influência enfeitiçante parecia estar passando como uma onda sobre o nosso povo. … Satanás trabalha intensamente com o propósito de induzir nosso povo a investir seu tempo e dinheiro para gratificar supostas necessidades. Isto é uma espécie de idolatria…. Enquanto centenas estão famintos de pão, enquanto fome e pestilência são vistas e sentidas, … deveriam aqueles que professam amar e servir a Deus agir como as pessoas nos dias de Noé, seguindo os desejos de seu coração?

“Havia alguns que estavam lutando pela superioridade, cada um tentando superar o outro nas disputas de velocidade em suas bicicletas. Havia um espírito de rixa e disputa entre eles para ver quem era o melhor. … Meu Guia disse: ‘Estas coisas são uma ofensa a Deus. Tanto perto quanto longe, almas desorientadas estão perecendo pelo pão da vida e água da salvação.’ Quando Satanás é derrotado em um ponto, ele preparará outros esquemas e planos que parecerão atrativos e necessários, e que absorverão dinheiro e imaginação, e encorajarão o egoísmo, de tal forma que ele possa conquistar aqueles que são tão facilmente levados por uma indulgência falsa e egoísta.”

“Que parte”, ela pergunta, “desempenham essas pessoas para o avanço do trabalho de Deus? … Está esse investimento de dinheiro e essa correria de bicicletas pelas ruas de Battle Creek oferecendo evidência da autenticidade da sua fé na última e solene advertência a ser dada aos seres humanos que se encontram no limiar do mundo eterno?” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 8, p. 52).

O conselho dela sobre bicicletas obviamente se referia a uma certa época. Em poucos anos elas se tornaram baratas e foram relegadas ao plano de um meio de transporte prático para os jovens e para aqueles sem muitas condições financeiras, mesmo porque a classe dominante desviou seu foco e desejos para o sucessor de quatro rodas da humilde bicicleta. Conquanto seja verdade que alguns aspectos específicos do conselho não se aplicam mais, no entanto, os princípios sobre os quais o conselho se apóia permanecem perfeitamente aplicáveis através do tempo e do espaço.

E quais são alguns destes princípios? Primeiro, que os cristãos não devem gastar dinheiro em gratificação egoísta. Segundo, que os cristãos não devem lutar pela superioridade um sobre o outro fazendo coisas que gerem um espírito de luta e contenda. Terceiro, que os cristãos devem concentrar seus valores fundamentais no reino por vir e em ajudar os outros durante o período em que estão na Terra. E quarto, que Satanás sempre terá um esquema para desviar os cristãos para o campo da condescendência egoísta.

Esses princípios são imutáveis. Eles se aplicam a cada lugar e a cada era da história terrestre. As bicicletas foram meramente o ponto de contato entre os princípios e a situação humana em Battle Creek em 1894. As circunstâncias de tempo e lugar mudam, mas os princípios universais permanecem constantes.

Nossa responsabilidade como cristãos não é somente ler o conselho de Deus para nós, mas aplicá-lo fielmente à nossa vida. O dever cristão é procurar descobrir as revelações de Deus e então procurar colocá-las em prática no viver diário sem distorcer a intenção dos princípios fundamentais. Isso demanda dedicação pessoal bem como sensibilidade à orientação do Espírito Santo. 

Compreender que os profetas não são verbalmente inspirados, nem são infalíveis. “Fui levado a concluir e a crer mui firmemente que toda palavra que a senhora já proferiu em público ou em particular, que toda carta que a senhora já escreveu sob toda e qualquer circunstância, eram tão inspiradas como os Dez Mandamentos. Defendi este ponto de vista com absoluta tenacidade contra inúmeras objeções levantadas sobre o assunto por muitos que estavam ocupando posições preeminentes na causa [adventista]“, escreveu o Dr. David Paulson para Ellen White em 19 de abril de 1906. Profundamente preocupado com a natureza da inspiração de Ellen White, Paulson questionou se ele deveria continuar a defender um ponto de vista tão rígido. Neste processo ele levantou a questão da inspiração verbal e os assuntos correlatos da infalibilidade e da inerrância. Já que um entendimento correto de tais assuntos é de importância crucial ao se ler Ellen White e/ou a Bíblia, examinaremos cada um deles nesta seção.

Ellen White respondeu a Paulson em 14 de junho de 1906. Ela escreveu: “Meu irmão, tendes estudado diligentemente meus escritos, e nunca encontrastes quaisquer reivindicações dessas de minha parte [à inspiração verbal], nem achareis que os pioneiros de nossa causa as fizessem” para os seus escritos. Ela continuou a ilustrar a inspiração em seus escritos ao se referir à inspiração dos escritores da Bíblia. Embora Deus tivesse inspirado as verdades bíblicas, elas foram “expressas em palavras de homens”. Ela via a Bíblia como representando “uma união do divino com o humano”. Desta forma “o testemunho é transmitido mediante a imperfeita expressão da linguagem humana, e não obstante é o testemunho de Deus” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, pp. 24-26).

Tais sentimentos representam o testemunho consistente de Ellen White através do tempo. Ela escreveu em 1886: “A Bíblia foi escrita por homens inspirados, mas não é a maneira da pensar e exprimir-se de Deus. É a maneira de exprimir-se da humanidade. Deus, como escritor, não Se acha representado. … Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não Sua pena. …

“Não são as palavras da Bíblia que são inspiradas, mas os homens é que o foram. A inspiração não atua nas palavras do homem ou em suas expressões, mas no próprio homem que, sob a influência do Espírito Santo, é possuído de pensamentos. As palavras, porém, recebem o cunho da mente individual. A mente divina é difusa. A mente divina, bem como Sua vontade, é combinada com a mente e a vontade humanas; assim as declarações do homem são a Palavra de Deus” (Ibid., p. 21).

Vemos a natureza problemática da questão da inspiração verbal ilustrada na vida de D. M. Canright, que foi, numa determinada época, um ministro preeminente na denominação, mas foi seu mais forte crítico entre 1887 e 1919. Canright se opôs implacavelmente a Ellen White. Seu livro de 1919, escrito contra ela, afirmava que “cada linha que ela escreveu, quer em artigos, cartas, testemunhos, ou livros, ela afirmava ter sido ditada pelo Espírito Santo, e por isso era infalível” (Life of Mrs. E. G. White, p. 9). Vimos acima que a própria Ellen White tomou a posição exatamente contrária, mas isto não deteve o prejuízo que estava sendo causado por aqueles com uma teoria falsa de inspiração.

Antes de irmos mais adiante, talvez devêssemos definir nossos termos. O Webster´s New World Dictionary descreve “infalível” como “1. incapaz de erro; que nunca erra. 2. não sujeito a falhar, a dar errado, a cometer um erro, etc.” Define “inerrante” como “que não erra, que não comete erros”. São essencialmente estas definições que muitas pessoas importam para o âmbito da Bíblia e dos escritos de Ellen White.

Ellen White escreveu claramente sobre a questão da infalibilidade: “nunca a pretendi; unicamente Deus é infalível”. Novamente ela declarou que “unicamente Deus e o Céu são infalíveis” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 37). Enquanto ela afirmava que “a Palavra de Deus é infalível” (Ibid., p. 416), veremos abaixo que ela não quis dizer que a Bíblia, ou seus escritos, eram isentos de erros em todos os pontos.

Ao contrário, na introdução de O Grande Conflito ela apresenta sua posição de maneira bem concisa: “As Santas Escrituras devem ser aceitas como a autorizada e infalível revelação de Sua vontade” (p. 9). Ou seja, ela não afirmou que o trabalho dos profetas de Deus é infalível em todos os seus detalhes, mas que é infalível em termos de revelar a vontade de Deus a homens e mulheres. Numa declaração semelhante, Ellen White comentou que “Sua Palavra… é clara em cada ponto essencial para a salvação da alma” (Testemunhos Para a Igreja, vol. 5, p. 706).

William White trata a mesma questão quando observa: “Onde ela seguiu a descrição de historiadores ou a exposição de escritores adventistas, creio que Deus lhe deu discernimento para usar aquilo que é correto e que está em harmonia com a verdade acerca de todas as questões essenciais à salvação. Se por meio de diligente estudo for constatado que ela seguiu algumas exposições da profecia que nalgum pormenor referente a datas não possamos harmonizar com nossa compreensão da história secular, isto não influirá sobre a minha confiança nos seus escritos como um todo, assim como a minha confiança na Bíblia também não é influenciada pelo fato de que não consigo harmonizar muitas das declarações relacionadas com a cronologia” (Mensagens Escolhidas, vol. 3, pp. 449, 450).

Em suma, parece que o uso do termo infalibilidade por Ellen White tem a ver com o fato da Bíblia ser completamente digna de confiança como um guia para a salvação. Ela não mistura essa idéia com o conceito de que seus escritos ou a Bíblia são isentos de todos os erros possíveis de natureza factual. Dessa maneira a fé do leitor fiel não é abalada se ele descobre que Mateus atribuiu uma profecia messiânica, escrita séculos antes do nascimento de Cristo, a Jeremias, quando na verdade foi Zacarias que inferiu que Cristo seria traído por 30 moedas de prata (veja Mat. 27:9, 10; Zac. 11:12, 13). Tampouco ficará ele desanimado pelo fato de que I Samuel 16:10, 11 lista Davi como o oitavo filho de Jessé, mas I Crônicas 2:15 se refere a ele como o sétimo; nem sua fé será afetada porque no relato bíblico o profeta Natã, sem a ordem divina, aprovou enfaticamente a construção do Templo pelo rei Davi, mas, no dia seguinte, teve que voltar atrás e dizer a Davi que Deus não queria que ele o construísse (veja II Sam. 7; I Crôn. 17). Os profetas cometem erros.

O mesmo tipo de erros factuais podem ser encontrados nos escritos de Ellen White, assim como são notados na Bíblia. Os escritos dos profetas de Deus são infalíveis como um guia para a salvação, mas eles não são inerrantes ou sem erros. Parte da lição é que precisamos ler procurando as lições centrais da Escritura e de Ellen White ao invés de os detalhes.

O importante a se lembrar a esta altura é que aqueles que lutam contra problemas como a inerrância e a infalibilidade absoluta estão combatendo um problema criado pelo homem. Não é algo que Deus alguma vez tenha reivindicado para a Bíblia ou que Ellen White tenha alguma vez reivindicado para a Bíblia ou para seus escritos. A inspiração para ela tinha a ver com os “propósitos práticos” (Mensagens Escolhidas, vol. 1, p. 19) do relacionamento humano e divino no plano da salvação. Precisamos deixar Deus falar a nós a Seu modo, ao invés de impor nossas regras aos profetas de Deus e então rejeitá-los se eles não atenderem às nossas expectativas do que achamos que Deus deveria ter feito. Tal abordagem é uma invenção humana que coloca nossa própria autoridade sobre a Palavra de Deus. Isto nos torna juízes de Deus e de Sua Palavra. Mas tal posição não é bíblica; nem está de acordo com a maneira aconselhada por Ellen White à igreja. Precisamos ler a Palavra de Deus e os escritos de Ellen White com o propósito pelo qual Ele os deu e não deixar que nossas modernas preocupações e definições de propósito e de exatidão se interponham entre nós e Seus profetas.

Evitar fazer os conselhos “provarem” coisas que eles nunca pretenderam provar. Na seção anterior notamos que Ellen White não reivindicou inspiração verbal para os seus escritos ou a Bíblia, nem os classificou quer como inerrantes ou infalíveis no sentido de estarem livres de erros factuais. A despeito dos esforços de Ellen White e de seu filho para afastar as pessoas de uma visão tão rígida de inspiração, muitos continuaram nessa linha. Ao longo da história da denominação alguns têm procurado usar os escritos de Ellen White e a Bíblia com propósitos nunca pretendidos por Deus. Do mesmo modo, têm sido feitas para os escritos proféticos reivindicações que transcendem seu propósito.

Como resultado, encontramos indivíduos que vão aos escritos de Ellen White para provar informações tais como fatos históricos e datas. Assim, S. N. Haskell pôde escrever para Ellen que ele e seus amigos dariam “mais por uma expressão de seu testemunho que por todos os dados históricos que poderias empilhar entre aqui e Calcutá” (S. N. Haskell para E. G. White, 30 de março de 1910).

Mas Ellen White nunca alegou que o Senhor proveu cada detalhe histórico em suas obras. Ao contrário, ela nos diz que geralmente ia às mesmas fontes disponíveis a nós para colher os fatos históricos que ela usava para completar o esboço da luta entre o bem e o mal através das eras que ela retrata tão bem em O Grande Conflito. A respeito da composição desse volume, ela escreveu em seu prefácio: “em que algum historiador agrupou os fatos de tal modo a proporcionar, em resumo, uma visão abrangente do assunto, ou resumiu convenientemente os pormenores, suas palavras foram citadas textualmente; nalguns outros casos, porém, não se nomeou o autor, visto como as transcrições não são feitas com o propósito de citar aquele escritor como autoridade, mas porque sua declaração provê uma apresentação do assunto, pronta e positiva” (p. 13). Seu propósito em livros como O Grande Conflito “não consiste tanto em apresentar novas verdades concernentes às lutas dos tempos anteriores, como em aduzir fatos e princípios que têm sua relação com os acontecimentos vindouros” (p. 14).

Esta declaração de propósito é crucial para entendermos o uso que ela fez da história. Sua intenção era traçar a dinâmica do conflito entre o bem e o mal através dos tempos. Essa era a sua mensagem. Os fatos históricos meramente enriqueceram toda a composição da obra. Ela não estava procurando fornecer dados históricos incontestáveis. Na verdade, como ela afirmou, os “acontecimentos” que ela usou eram “bastante conhecidos e universalmente reconhecidos pelo mundo protestante” (Ibid., p. 13).

O que se aplica ao uso que Ellen White fez de fatos da história da igreja pós-apostólica também se aplica à sua prática ao escrever sobre o período bíblico. Como resultado, ela pediu aos seus filhos que solicitassem a “Mary [esposa de Willie] que encontre para mim algumas histórias da Bíblia que me dariam a ordem dos eventos. Não tenho nada e não posso encontrar nada na biblioteca aqui” (E. G. White a W. C. White e J. E. White, 22 de dezembro de 1885).

William White disse a Haskell: “Quanto aos escritos de mamãe, ela nunca desejou que nossos irmãos os tratassem como autoridade em História. … Quando ‘O [Grande] Conflito’ foi escrito, mamãe nunca pensou que os leitores iriam tomá-lo como uma autoridade nas datas históricas e usá-lo para resolver controvérsias, e ela não acha que ele deva ser usado dessa maneira” (W. C. White para S. N. Haskell, 31 de outubro de 1912; cf. Mensagens Escolhidas, vol. 3, pp. 446, 447).

Vinte anos depois William escreveu, que “em nossas conversas com ela [Ellen White] a respeito da veracidade e exatidão do que ela havia citado dos historiadores, ela expressava confiança nos historiadores de quem havia extraído citações, mas nunca concordou com a conduta adotada por alguns homens que tomaram seus escritos como padrão e tentaram, pelo uso deles, provar a exatidão de um historiador contra a exatidão de outro. A partir disso eu tive a impressão de que o uso principal das citações extraídas de historiadores não era criar uma nova história nem corrigir erros históricos, mas usar ilustrações valiosas para explicar importantes verdades espirituais” (W. C. White para L. E. Froom, 18 de fevereiro de 1932).

Não só precisamos evitar usar o que Ellen White escreveu para “provar” os detalhes da História, mas o mesmo cuidado deve ser usado no âmbito dos detalhes científicos. Com isso não quero dizer que não há uma boa parcela de exatidão nas inferências científicas dos escritos de Ellen White – e também da Bíblia – mas que não devemos procurar provar este ou aquele pormenor científico a partir deles.

Deixe-me ilustrar. Alguns afirmam que João Calvino, o grande reformador do século XVI, resistiu à descoberta de Copérnico de que a Terra girava em torno do sol citando Salmo 93:1: “Firmou o mundo, que não vacila”. Semelhantemente, muitos salientaram que a Bíblia fala sobre os quatro cantos da terra e o fato de o sol “nascer” e “se pôr”. Em tais casos, a Bíblia está apenas fazendo comentários incidentais ao invés de estar apresentando uma doutrina científica.

Lembre-se de que a Bíblia e os livros de Ellen White não foram escritos com a finalidade de serem enciclopédias divinas para fatos científicos e históricos. Antes, eles servem para revelar a irremediável condição humana e nos apontar a solução através da salvação em Cristo. Neste processo, a revelação de Deus provê uma estrutura pela qual podemos entender as várias partes do conhecimento histórico e científico obtido através de outras linhas de estudo.

Certificar-se de que Ellen White realmente escreveu a declaração. Há um número considerável de declarações em circulação que aparentemente têm sido falsamente atribuídas a Ellen White. Como podemos identificar tais declarações? A primeira pista de que elas são apócrifas para aqueles que estão familiarizados com os escritos de Ellen White é que tais declarações estão freqüentemente em desarmonia com o teor geral do pensamento dela. Ou seja, elas parecem estranhas quando comparadas à maioria de suas idéias, parecem estar fora de lugar em sua boca. Estranheza, é claro, não é prova de que estamos lidando com uma declaração apócrifa. É meramente uma indicação.

A maneira mais segura de testar a autenticidade de uma declaração de Ellen White é perguntar pela referência da citação. Uma vez sabendo onde ela é encontrada, podemos verificar se Ellen White disse aquilo e também examinar o fraseado e o contexto para determinar se foi interpretado corretamente.

A questão de supostas declarações também ocorreu durante a época em que Ellen White ainda vivia. Seu parecer mais completo sobre o problema aparece no volume 5 de Testemunhos Para a Igreja, páginas 692 a 696. Ele pode ser examinado proveitosamente por todos os leitores dos escritos de Ellen White:

Ela diz: “Tomem cuidado em dar crédito a tais relatos” (p. 694). Ela conclui sua discussão do assunto com as seguintes palavras: “A todos os que sentem desejo pela verdade, eu gostaria de dizer: Não dêem crédito a relatórios não-autorizados sobre o que a irmã White fez, disse ou escreveu. Se desejam saber o que o Senhor revelou por meio dela, leiam suas publicações. … não apanhem avidamente e veiculem rumores sobre o que ela disse” (p. 696).

Conquanto não possamos mais enviar supostas declarações a Ellen White para que ela as verifique, podemos entrar em contato com o Centro de Pesquisas Ellen G. White da Igreja Adventista do Sétimo Dia mais próximo para verificar a autenticidade da declaração ou informar-nos sobre outras dúvidas que possamos ter.


PDF: Hermenêutica dos escritos de Ellen G. White