PROVA DE DISCIPULADO

Qual a diferença entre questões que são “prova de discipulado” e as que não são?

Dr. Alberto Timm

 A distinção entre o que pode e o que não pode ser considerado “prova de discipulado” está diretamente relacionada à disciplina eclesiástica. Sob a categoria de “prova de discipulado” estão as doutrinas e os componentes do estilo de vida adventista fundamentais para a religião, e que, se negligenciados, podem levar a pessoa a ser eliminada do rol de membros da igreja. Por contraste, as questões não enquadradas nessa categoria são normalmente vistas em um plano secundário, não passivo de disciplina eclesiástica. Já a disciplina eclesiástica pode variar de acordo com a natureza do componente doutrinário envolvido e as implicações sociais do pecado. Vários textos bíblicos justificam essa variação. Por exemplo, em Deuteronômio 25:2 aparece a expressão “o número de açoites segundo a sua culpa”. Em Lucas 12:47 e 48, Cristo esclarece que diferentes atitudes serão punidas no juízo com “muitos açoites” ou com “poucos açoites”. Apocalipse 20:12 e 13 afirma que a retribuição final de cada pessoa será “segundo as suas obras”. Por sua vez, a aplicação da disciplina eclesiástica com base nas implicações sociais do pecado parece justificada nas palavras de Cristo registradas em Mateus 18:6: “Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que creem em Mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar.” Portanto, em termos de disciplina eclesiástica, existe uma diferença entre os maus pensamentos que permanecem ocultos, e os maus pensamentos que se concretizam em más ações, levando outros a “tropeçar” ou que, ao menos, provendo-lhes um mau exemplo. Algumas pessoas acreditam que as questões consideradas “prova de discipulado” são importantes; e que questões não consideradas dessa forma são irrelevantes. Mas, no livro Caminho a Cristo, p. 30, encontramos a seguinte afirmação de Ellen G. White que nos ajuda a esclarecer o assunto: “Deus não considera todos os pecados igualmente graves; há aos Seus olhos, como aos do homem, gradações de culpa; por mais insignificante, porém, que este ou aquele mau ato possa parecer aos olhos humanos, pecado algum é pequeno à vista de Deus. O juízo do homem é parcial, imperfeito; mas Deus avalia todas as coisas como são na realidade. O bêbado é desprezado, e diz-se-lhe que seu pecado o excluirá do Céu; ao passo que o orgulho, o egoísmo e a cobiça muitas vezes não são reprovados. No entanto, esses são pecados especialmente ofensivos a Deus, pois são contrários à benevolência de Seu caráter e àquele desinteressado amor que é a própria atmosfera do Universo não caído. A pessoa que cai em algum pecado grosseiro sente, talvez, sua vergonha e miséria, e sua necessidade da graça de Cristo; mas o orgulhoso não sente necessidade alguma, e assim fecha o coração a Cristo e às infinitas bênçãos que veio dar.” Como “o orgulho, o egoísmo e a cobiça” são atitudes interiores da pessoa, que nem sempre se expressam exteriormente, acabam não sendo consideradas passivas de disciplina eclesiástica. A despeito disso, não deixam de ser “pecados especialmente ofensivos a Deus”. Isso nos ajuda a entender que mesmo questões não consideradas “prova de discipulado” também podem ser relevantes e significantes; pois “de dentro, do coração dos homens, é que procedem os maus desígnios” (Mc 7:21). Em Mateus 7, somos aconselhados ao mesmo tempo a não julgar as motivações interiores das pessoas (v. 1) e a avaliar suas ações exteriores (v. 20). Isso não quer dizer que as motivações interiores não sejam importantes; mas apenas que, com nosso juízo limitado, não temos condições de avaliá-las objetivamente. Portanto, o fato de uma questão não ser considerada “prova de discipulado” não significa que seja insignificante, mas apenas não necessariamente passiva de disciplina. Devemos lembrar, com base nas palavras de Ellen G. White acima citadas, que, “por mais insignificante [...] que este ou aquele mau ato possa parecer aos olhos humanos, pecado algum é pequeno à vista de Deus”.


Fonte: Revista do Ancião (janeiro – março de 2010)


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