A ciência e a compreensão das origens

Por que a ciência, que “acerta” tanto, erra tanto na questão das origens? Isso se deve a dois princípios sobre os quais a ciência trabalha e, provavelmente, não pode funcionar sem eles.

O primeiro é que a ciência, que estuda o mundo natural, deve buscar as respostas apenas no mundo natural. Essa noção, com centenas e talvez milhares de anos, afirma que não deveríamos recorrer a causas sobrenaturais para explicar os efeitos naturais. Os biólogos não devem explicar, por exemplo, o processo extremamente complicado da formação do coágulo ao atribuir a cascata de ativação das enzimas à intervenção divina. A ciência não pode avançar se tudo e cada detalhe não compreendido for explicado como uma intervenção sobrenatural.

O segundo princípio é que as leis da natureza devem ser constantes. Com todas as coisas sendo iguais (o que raramente são), o que uma lei faz hoje ela fez ontem, e fará amanhã, e quaisquer variações resultam de outro padrão semelhante de lei que, em si mesma, resultou de outro padrão semelhante de lei, e assim por diante. Naturalmente, podem existir leis que não compreendemos, ou até mesmo desconhecemos, e aquelas que compreendemos podem conter muitas variáveis para que as manipulemos acuradamente.

Mas o princípio da constância ainda permanece. De outra forma, a ciência e a tecnologia da qual derivamos seria impossível. Presumimos (embora sem justificativa universal, necessária e correta) que as leis da aerodinâmica para aviões a jato e da rotação e força motriz na construção de ponte permaneçam constantes quando dirigimos sobre a ponte ou subimos a 30 mil pés em um Airbus A380.

Embora razoáveis e frutíferos, os dois princípios são pressuposições filosóficas, não problemáticas em si mesmas (a ciência era chamada de “filosofia natural” não muito tempo antes de ser chamada “ciência”), dado que ambas as pressuposições são falsas.

Vejamos a primeira, que requer causas sobrenaturais para eventos naturais. Isso é aceitável para o rastreamento de furacão ou para a análise da endocrinologia da ave grou. Mas é ainda pior do que inútil para as origens que iniciam com “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gn 1:1), e daí se revela uma manifestação de sobrenaturalistas que podem negar o relato bíblico porque não conseguem concebê-lo.

“E disse: Produza a terra relva, ervas que deem semente e árvores frutíferas que deem fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nele, sobre a terra. E assim se fez” (Gn 1:11). Esse texto descreve um processo (Deus fala – fala! – e aparecem plantas e árvores?) o que torna a ciência natural a respeito tão inútil quanto estudar a composição química do filme do assassinato de JFK na esperança de descobrir o motivo para Lee Harvey Oswald apertar o gatilho. Qualquer explicação de uma criação provocada sobrenaturalmente que rege as causas sobrenaturais será, por necessidade, entendida de forma errada.

E a constância da natureza? Faz sentido, salvo por Romanos 5:12: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado, a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”, que pressupõe um ambiente natural descontínuo e qualitativamente diferente de tudo o que a ciência agora confronta.

“Testemunhando eles, no murchar da flor e no cair da folha, os primeiros sinais da decadência,” escreveu Ellen White, “Adão e sua companheira choraram mais profundamente do que os homens hoje fazem pelos seus mortos. A morte das débeis e delicadas flores era na verdade um motivo para tristeza; mas, quando as formosas árvores derrubaram as folhas, esta cena levou-lhe vividamente ao espírito o fato cruel de que a morte é o quinhão de todo o ser vivente” (Patriarcas e Profetas, p. 62). O que a ciência, que somente estuda um ambiente onde tudo morre, pode nos ensinar a respeito de um onde nada morre?

Aprender sobre as origens da vida ao estudar o que ocorre agora, milhares de anos depois das mudanças físicas suscitadas pela queda de Adão (Gn 3:17-19), do pecado de Caim (Gn 4:12), e do dilúvio mundial de Noé (Gn 6-10), seria como estudar as prostitutas de Paris para aprender a respeito da sexualidade humana. A ciência, como agora constituída, nega que o tipo de ambiente descrito em Gênesis 1-2 até mesmo existiu; portanto, quanto ela nos pode ensinar a respeito desse ambiente?

Consequentemente, nosso enigma: os dois princípios sobre os quais a ciência trabalha são falsos, pelo menos no que se refere às origens (embora se possa argumentar, justificadamente da perspectiva bíblica, que o primeiro princípio é falso, mesmo quando apresenta o mundo, porque, no âmago, somente Deus sustém a realidade física, At 17:28; Cl 1:17; 1Co 8:6; Hb 1:3).

Não surpreende que a ciência entenda mal a criação. Ela nega dois aspectos cruciais da criação: a força sobrenatural por trás dela e a descontinuidade física radical entre a criação original e o que temos diante de nós agora. É por isso, por exemplo, que a ciência (alguns) argumenta que o universo surgiu fortuitamente e do “nada”, quando a Escritura diz que Deus o criou. Ou a ciência ensina bilhões de anos de mutação aleatória e seleção natural, um processo acidental de adequação e que inicia sem um propósito ou alvo predeterminado, ao passo que a Escritura ensina um processo proposital, cuidadosamente orquestrado ao longo de seis dias de absoluta intencionalidade sem nada deixado ao acaso.

A ciência não apenas erra o alvo, mais ou menos; ela se perde desastrosamente. Ainda, considerando as duas pressuposições sobre as quais ela trabalha (e isso é tudo o que eles têm, pressuposições), o que mais poderia ela fazer com respeito às origens não estando apenas um pouco errada, mas muito errada?

 

(Atigo publicada originalmente no site aventistas.org)

 

Editado por Danillo Rios e Kalline Meira